ART ME UP – vi

ART ME UP
ANA VIDIGAL – v – JUÁ DE VIVRE E 4 PINTURAS
A CABEÇA DE JANUS

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A cabeça de Janus tem dois rostos. Fitam direcções opostas em simultâneo: a que fica para trás e a que está adiante.

Muito do que humanamente nos define é o horizonte que contemplamos. Erectos, vemos mais longe: o olhar é o centro de muitos comandos civilizacionais. Já o arrastámos pelo chão e já levantámos a cabeça – e não sei se não foi aqui que, de pasmoso, o olhar nos libertou as mãos até então agrilhoadas à terra, e nos ergueu pelos ombros para nos pôr de pé. É tal a força do olhar que inventou o gótico quando mais se demorava no céu de góticas mãos postas e sonhava a ascensão.

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Vemos. E o visto torna-se um objecto cheio, investido da paixão que dele nos aproxima ou nos afasta, nos aproxima e nos afasta. O desejo inventa o mundo que mais tarde será vida, não interessa se o sílex ou a televisão. E a vida, sílex e televisão, reinventa-nos. Porque somos bichos de acesso ao simbólico, também desta dinâmica, deste trânsito, podemos dizê-los janusianos, ou não fosse Janus de igual modo o Deus guardião de todas as passagens, portas, mesmo as mais internas, passado e futuro, mesmo a da vida e a da morte, mesmo a de admissão à própria divindade, não apontando apenas a oposição, e sim o curso que se completa: tempo-eternidade, humano-divino.

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Sim, somos bichos de acesso ao simbólico: a cabeça é círculo, é sol, razão. É o pai – é o chapéu em Magritte. Tripé fundamental de ausência e motor do trabalho artístico:
.   a consciência do conflito das polaridades e o esforço de integração;
.  saber dos escuros que subterrâneos correm, e permitir que o fluxo do inconsciente transpessoal assome, que a crista da onda brilhe na luz, e o irracional se expresse racionalmente;
.   o pai perdido.

A reconquista a cada dia deste trabalho é a auctoritas: figura inteira, não dual.

Esta auctoritas, em Ana Vidigal, é a femina faber e é a femina ludens: cabeça de Janus. Não, não me contradigo. A inteireza é feita de algo e do seu oposto integrados. A femina faber é a pintora, formal, normativa. A femina ludens é a artista plástica do trabalho paralelo, informal, inconforme à norma. As duas são uma recolectora, organizada, parcimoniosa, obstinada, obreira abelha. A pintura descansa no trabalho paralelo. Ou é a pintora que descansa na artista plástica? Seja como for há uma só mulher que à noite dorme na cama. Porém são duas as mãos, mão direita e mão esquerda, a agir em conjunto na pintura e no trabalho paralelo: sim, são dois os rostos de Janus, todavia uma só cabeça.

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Aqui chegados, chegámos ao que queria mostrar-vos: o presente das futuras exposições de Ana Vidigal, Juá (de vivre), na Fundação Júlio Resende, de 20 de Abril a 22 de Junho, e, sem me adiantar a um certo Brasil, quatro pinturas de transatlântica vontade.

As portas, lembram-se? A circulação, o movimento, o trânsito. Explico.

Se entramos numa galeria somos confrontados com o resultado de um processo e com um percurso. Este, definido pelo artista, o galerista, o curador, e somos manipulados, passo a passo, peça a peça, numa via lucis ou crucis, ou ambas, de encantamento ou de recusa, ou de dúvida, ou tudo. Não queria, desta vez, escrever a mise-en-scène terminal de uma exposição. Queria a pintora a pintar, a artista plástica a executar. Não me queria a mim diante da pintura dela à conversa comigo, queria-a a ela com ela. Nem me queria a mim a agarrar com os olhos as coisas do trabalho paralelo, queria-a a ela com ele. Não queria a galeria, queria o atelier, uma porta aberta por onde, invisível, entrar – talvez Janus também guarde os buracos das fechaduras sem chave que delas pendam para nós, amáveis voyeurs amantes, espreitarmos. Espreitei.

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A Juá (de vivre) retorna à intimidade mais uterina, à abstracção da família concreta, aos laços de sangue feitos de história partilhada: a que vimos em Penélope, núcleo de onde explode  a vida, o big bang mítico de todo o presépio. O modo, os recursos, a linguagem, também retornam, todavia, da Austeridade (e pequenos sinais de fumo). Contudo, assentam em morna, macia alcatifa recuperada de amostras recolhidas do gabinete de arquitectura do pai de Ana Vidigal – assim é vida: um delegado de uma empresa de carpetes cumpria os propósitos comerciais da sua empresa visitando outras, dando a conhecer profissionais aconchegos funcionais e decorativos feitos de lã e fibra. Desmontando o atelier do pai, aparecem as amostras. Ana Vidigal guardou-as para um dia. O dia da Juá (de vivre), quando, ao fazer delas a cama de afecto onde a austeridade se deita, deita-se nos laços, deita-se nos braços, deita-se menino e menina na infância onde circula o sangue comum, o lugar eterno de ir crescendo sempre, deita-se na alegria inconsumível do que não perece. Deita-se na Juá para se fazer Juá: todo o amor que fomos porque nos tiveram, porque o tivémos, e ainda. Aquela coisa da carne que mais tarde na amizade se dilata e no amor se expande, e é riso, aquela coisa que é a rede, quer dizer, a alcatifa, onde saboreamos a joie de vivre: temos menos mas isso não obriga que sejamos menos, e podemos mesmo ser mais onde se deita o exacto oposto que Janus olhando apontou na Austeridade (e pequenos sinais de fumo).

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E de Ana Vidigal há, em construção, claro, janusiana, simultânea à Juá (de vivre), quatro pinturas em inícios de recorta-cola-seca-recorta-cola.

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Ó, o texto vai grande. Hoje não vou contar que em quatro pinturas se escrevem histórias de amor.

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.

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14 respostas a ART ME UP – vi

  1. Eugénia, Gostei tanto!
    Li de um só fôlego e fiquei sem ele. Tenho de me recompor para conseguir agradecer a generosidade do seu texto. Dá-me um bocadinho de tempo?

  2. É um privilégio entrar num work in progress, e logo da Ana Vidigal.
    Deixe-me dizer-lhe, Eugénia, que a rima entre as duas cabeças de Janus e a dupla femina, a faber e a ludens, é muita bonita. Rima justa e justa rima: para além de um desarrincanço teórico é o correlato objectivo (como diria o velho Eliot) da prática da artista. Gostei muitíssimo.

    • Pois foi… um privilégio feliz!

      Manuel Fonseca, tudo quanto me diz relativo ao que escrevo, ouço – eu que nisso sou surda. Fico contente, já sabe, e rio-me do desarrincanço, claro, palavra que roubo já… só você.

  3. Rita V. diz:

    Master iGénie i presume .-D … muito, muito Bom!

  4. Curioso (desarrincado qb) diz:

    Uma espécie de ‘Moisés a estarrecer os Faraós’ 😉

    • Resumido e espremido: serpentes e tal… 😀

      • curioso (estarrecido qb/ko) diz:

        não é bem isso: tal como o ‘desarrincanço’ (que rima com licranço) foi inspiração do mestre que há dias nos deixou essa alegoria ‘como os milagres com que Moisés estarrecia o faraó’ (o F e o plural são meus).

        não sendo Faraó, fiquei estarrecido qb 😉 (ou ko?)

  5. Cara Eugénia, muitos parabéns pelo excelente texto. Estava a pensar que neste momento na imprensa já não se consegue ler ensaios desta qualidade, quando fui muito agradavelmente surpreendida pela possibilidade de ler precisamente um (outro) texto seu, magnífico, no Público. Com admiração.

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