ART ME UP – vii

ART ME UP
ANA VIDIGAL – vi – CARTAS DE AMOR (carta de Pilar del Rio) Edição Abraço
PELA METADE

Cartas de Amor

Haverá um livro colectivo. Terá por título, Cartas de Amor. Será editado pela Abraço. Cada carta será iluminada por uma imagem. Haverá uma carta de amor escrita por Pilar del Rio. Essa carta será iluminada por Ana Vidigal.

Não li a carta. Não falei com Ana Vidigal. Sei o que vejo e como São Tomé, creio: faço a translação do objecto artístico que exige a rotação das perguntas – toda a subjectividade assenta na inclinação do eixo pessoal. Paciência. Objectivamente: o que é arte?

Vejo.

Envelopes.
As cartas de amor que são? Vida enfiada pelas linhas de escrita adentro. Palavras feitas de letras são código refeito por dois amantes e assim, mais do que de letras, um abc inaugural: sempre que dois se amam por escrito, é da tinta que nasce o Verbo. Vida.

A água que se quer dar a beber, vida, precisa de uma mão em concha. O que se quer dizer, a vida, corre, precisa de expressão que contenha e escrevo-te uma carta, continente da vida, mas depois de escrita já é conteúdo, e precisa de um continente, de uma mão em concha que a navegue até ao destino dos teus lábios, e ao fim lhes dê de beber. O envelope é a mão em concha até à sede.

E o envelope é a pele que veste o corpo da carta, lhe protege a intimidade, lhe esconde as entranhas. A essencial homeostase dos signos da carta dentro é o envelope que a regula fora: dobra-se para fechar melhor, guardar melhor, sou um segredo, volta-se, deixa-se abrir, sou o mundo, e sendo amor, somos o mundo em nós – vamo-nos, amor, ao mundo?

Faixas. Preto. Faixas pretas.

Faixas.
Tiras agrafadas, faixas, contêm cada envelope ou envelopes. Afinal, eles não vão a lado algum. A navegação já se fez. Chegaram ao destino ou nunca partiram que é outra forma de chegar porém ao outro lado do eu – ainda és tu mesma depois de mim? Ou és outra já?

Preto.
Preto é sem luz. E é de luto quando sinaliza que uma luz se apagou. Apagou-se. Morreu. Não interessa se continua na memória. Está morta. Ou na saudade. Está morta. Se continua nos filhos, na obra, no diabo a quatro. Está morta e é pó, presente em tudo como as estrelas iluminam na ilusão do tempo que nos chega aos olhos: mortas e iluminam-nos ainda. Nem por isso deixa a morte de ser um corpo que não se pode apertar, uma carne de ausência.

Faixas pretas.
Antes. Sobre a porta um panejamento preto. Os espelhos tapados, uma braçadeira preta nos homens, e a gravata preta, as mulheres de meias de fumo. Fumo. E os envelopes tinham uma tira preta fora a avisar do escuro dentro, a morte dentro. Hoje, metáfora da cor, hora jeuniste, hedónica, nenhum luto se atreve.

Não li. Não falei. Creio como São Tomé. Toda a subjectividade assenta na inclinação do eixo pessoal. Paciência.

Desde Inês de Castro nenhuma morta foi rainha, nenhum morto rei. Ou terão sido em cada vez que o amor disse: onde, ó morte, está a tua vitória?

I


Nota
:
onde, ó morte, está a tua vitória? – 1 Coríntios 15:55

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.

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21 respostas a ART ME UP – vii

  1. curioso (derrotado) diz:

    a vitória está nela própria: permanece e não exige nada em troca. é incorruptível. nós não.

  2. Eugénia, que bonito !!!! (e mais uma vez sem saber o que lhe dizer mais…)

    Ah, mas sei que neste momento sou a pintora mais feliz do mundo – poucos/as têm a sorte de ter alguém como a Eugénia a escrever sobre ou a partir do trabalho que fazemos (isto ficou um pouquinho confuso… mas dá p me entender?)
    🙂

    • Olá Ana, boa noite – não está confuso: uma fartura de mercis!

      Aquilo que fez é impactante. Não se consegue olhar e não ver o que a morte rouba ao amor que temos para amar.

      Gosto muito de escrever sobre e a partir daquilo que faz. A pintura, o trabalho paralelo. Agora também me sinto uma autora feliz: merci.

  3. Maria do Céu Brojo diz:

    Díficil e raro encontrar alguém que escreva assim sobre arte, suas interpretações. E, desculpe, tenho mesmo que dizer:_ Magnífico texto!

    • Tenho andado de volta disto: o que é arte? E da pintura da Ana Vidigal e das outras coisas paralelas que a AV faz – mais da pintura mais recente, no entanto, apesar de ainda não me ter ido a ela. Muito obrigada Céu.

  4. nanovp diz:

    E eu que gosto de envelopes e de caixas, dobras e faixas…

  5. Rita V. diz:

    I was small, very small quando envelopes destes apareciam lá em casa. Eram sempre tristes. Um texto sobre uma ilustração que leu uma carta que ainda não foi lida. Belo post!

  6. Ivone Costa diz:

    A mademoiselle não precisa que lho digam, mas estes textos sobre a obra da Ana Vidigal são já do domínio do sublime. São obra a partir da obra.

    • Ó Ivone, pelos deuses! Mas agradeço-lhe, claro. Tenho um diabo de uma paixão por isto da arte. Preciso é de tempo e de viajar – bem sei, eu o resto das pessoas. É como diz o outro: a malta quer viver e não há condiçõe$, perdão, condições.

  7. Mónica diz:

    gosto da ilustração

  8. Vou partilhar este post no blog.
    Também gosto muito de escrever sobre obras. Mas a Eugénia é sublime.

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