As lágrimas de Eros

LE - BO grande amor tem mil rostos e até brinca connosco e mostra-nos a língua como os miúdos  – nha nha nha. Lembrei-me disto por pura falta de tempo. Explico.

Como todas as pessoas que escrevem muito depressa, tenho, depois, muito o que corrigir, e isso é tão devagar. E porque quero tanto escrever bem, há capítulos que se ensaiam inteiros, horas e horas medidas em caracteres só para me mostrarem que não é aquela a verdade que tinham para dizer. É filha da puta! esta autonomia da página. Letras em linhas de lixo suficientes para dar a volta ao planeta, imagino.

Lembrei, então, não onde li, nem há quanto tempo, mas era, porra, um acto de amor com aquela coisa devocional que sempre o amor traz. E daquele carácter admirativo sem o qual também é difícil conceber um amor assim. Lobo Antunes corrigia, refazia parágrafos inteiros, minuciosos, a Cardoso Pires – que terra é esta onde se esquece a cada dia a limpidez da frase de Cardoso Pires – e vice-versa, para depois ficar tudo na mesma, ou quase como antes da correcção. Ou não.

Não se nota, bem sei, porém preciso de pouquíssima aprovação para o que escrevo – talvez porque já não escreva com expectativas, um leitor ou mil, é-me igual. O que me falta é aquela correcção para escrever melhor, para conseguir dizer aquilo que quero e como. Quem me corrija dessa forma, há-de acreditar que me vou às palavras para viver.

Vistas bem as coisas, se calhar preciso do que toda a gente precisa. Do amor que nos ame porque nos vê com olhos de Superman e nos faz existir completamente. E esse amor pode, deve, mesmo com violência irromper pela frase dentro e desfazê-la para a refazer, só por infinda ternura. Há intimidade, a mais íntima, entre o amor e a violência de freio tenro, terno. Mundo em comum.

É o tempo a correr que nos empurra para uma grande solidão, mesmo acompanhada: dizer o quê fora da linguagem dos bichos? Posso abraçar o meu sobrinho, e virá-lo de cabeça para baixo, sorrir-lhe logo ele entra na sala, ou levá-lo à escola. Tudo amor de bicho.

O outro, o da comunhão, o do mundo em comum, estamos aqui, tu e eu, um num outro, um para o outro, comunhão episódica, apaixonada, sei lá, lixe-se, agora, hoje, tenho-a com um Bataille em fim de si mesmo, enquanto escreve para mim as Lágrimas de Eros.

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.

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23 respostas a As lágrimas de Eros

  1. Rita V diz:

    querida Eugénia O seu post fez-me recuar no tempo. O António (Ramos) e a Margarida publicavam o Georges Bataille pela primeira vez em Portugal. Li e reli o seu post como se tivesse outra vez 20 anos.

    BATAILLE, Georges
    O azul do céu / Georges Bataille ; trad. Pedro Tamen. – 1ª ed. – Lisboa : Edições António Ramos, 1978. – 206 p. ; 22 cm. – (Páginas de sempre)
    Literatura francesa / Romance

    • Eugénia de Vasconcellos diz:

      Fico contente da viagem no tempo. E do Pedro Tamen… devo-lhe mais do que sabe Deus e nem estou a falar do que ele próprio escreveu, só das traduções, olhe, por exemplo, tinha o rico Proust em franciú e, julgava, a vida inteira para o reler. Bem me enganei. Só voltei a lê-lo, uns bocados, quer dizer, dois volumes da tradução dele.

  2. curioso (trás-te) diz:

    aquele amor detrás, ao ser corrigido traz, trás!, catrapás!, muita paz 😉

  3. Ivone Costa diz:

    Eugenie, que do exagero do segunda parágrafo estamos conversadas … mas isto do escrever é sempre uma valsa lenta até à limpidez onde ficam coladinhos o que se quer dizer e o que se diz. Rien à faire, que o ne varietur é só para alguns.
    Já do amor tenho dúvidas, lembre-se lá do tio Álvaro “Não só quem nos odeia ou nos inveja / Nos limita e nos oprime; quem nos ama / Não menos nos limita”. Um susto um amor que nos ame a fazer-nos de super seja o que for.
    Digo eu, que até nem sou claustrofóbica.

    • Eugénia de Vasconcellos diz:

      Sou uma atípica, Ivone: não me interessa meia pevide que o ne varietur seja só para alguns, já não olho para o lado, só olho para a frente. Se falhar, falho a tentar.

  4. Maria João Freitas diz:

    Eugénia,
    Magnífico texto. E a referência ao Cardoso Pires fez-me lembrar o desejo expresso por ele de ter uma máquina, não de escrever, mas de apagar.

    • Eugénia de Vasconcellos diz:

      Maria João, obrigada. E é tão claro o desejo de tal máquina: mas não é com ela, com a de apagar, que escrevemos cada novo texto, sempre a tentar o único texto?

  5. O amor tem sempre boa língua. A língua de fora do seu amor é uma língua portuguesa que a Eugénia trata com desvelo e excesso.
    Permito-me é corrigi-la num ponto: a Eugénia só “se vai às palavras para viver” porque carrega as palavras com o vive, viveu e quer viver.

    • Eugénia de Vasconcellos diz:

      Sei lá, Manuel Fonseca, estou convencida de que a coisa é simples e popularmente bem resumida num cada um é pró que nasce. Calhou-me isto. Merci pelo excesso e o desvelo – foi bonito.

  6. maria diz:

    Pois é. A Eugénia nasceu para escrever bonito:)

    • Eugénia de Vasconcellos diz:

      E usar palavras feias, daquelas que não digo a não ser por escrito. Merci, Maria.

  7. Maria do Céu Brojo diz:

    Grande Eugénia! A menina devia ser consumida nos escritos após prescrição médica.

  8. curioso (hipócrates) diz:

    dito doutra maneira… prescrição médica recomenda consumir (?) a menina após os escritos (ou seja: escrever – às vezes – é triste) 😉

  9. nanovp diz:

    Rever tudo, apagar e re-escrever, sempre e mais uma vez, mesmo no amor, mesmo o proprio amor…

  10. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Sempre. Merci.

  11. Ana Vidal diz:

    Escrever sem pensar em revisões. Depois, que remédio, rever. Mas às vezes o que se ganha em dizer bem vale bem menos do que o que se perde entretanto no tal dizer o que se queria dizer. Porque cada revisão é escrever outra coisa, nunca mais a mesma.

    Bom ano, mn’a Eugénia! Seja muito bem aparecida mais o seu Bataille.

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