Breve História da Obsessão (ou O melhor Filme Nunca Feito)

 A propósito do post de Mr. Norton sobre “The Magnificent Ambersons”, aqui fica um texto que publiquei na revista do “Diário Económico”, sobre o projecto modesto de um rapazola humilde:

 Napoleão Bonaparte foi o último grande imperador europeu. Stanley Kubrick foi o último grande cineasta obsessivo. À escala de cada um, o poder de ambos era enorme. “Napoleão”, a biografia do corso que dominou a Europa no início do século XIX, era o projecto da vida de Kubrick. O filme nunca foi concretizado, mas deu origem a um livro colossal da Taschen, dividido em dez volumes: “Stanley Kubrick’s Napoleon: The Greatest Movie Never Made”.

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Bonaparte e Kubrick eram generais rigorosos, por vezes implacáveis com as suas tropas, de tácticas revolucionárias, seguidos por uma corte de fiéis. E obcecados. Muito obcecados. Como Bonaparte, Kubrick preocupou-se sempre em preservar o seu mito. Eram homens conscientes da derradeira forma de poder: a eternidade.

No plateau, Stanley, o judeu do Bronx nascido em 1928, podia ser um tirano, exigindo dezenas de takes aos actores para uma cena em que alguém sacava de um cigarro e dizia três palavras. Por vezes, os takes chegavam à centena. “Corta! Outra vez”. Com Nicole Kidman, por exemplo, em “De Olhos Bem Fechados – Eyes Wide Shut”, o último Kubrick, que o demiurgo terminou para morrer três dias depois, como se só pudesse ir desta para melhor após completar o filme: “Stanley achava que, por vezes, um actor só é capaz de se separar da auto-consciência do que faz, e libertar-se, ao fim de muitas tentativas”, contou ela. Outros actores, como Robert Duvall ou Marlon Brando (que despediu Kubrick um par de semanas antes do início da rodagem do belíssimo “One-Eyed Jacks”), pensavam o contrário. Que um director como Kubrick fazia mal à performance, era “inimigo do actor” – ou se fazia à sua maneira ou não se fazia. Napoleão era um bocadinho mais inclemente: quando os seus soldados agonizavam de peste durante a incursão que fez à Síria, propôs matá-los com doses cavalares de ópio; o médico do exército recusou. Kubrick demorou dois anos a filmar “De Olhos Bem Fechados”, mais um ano a pós-produzi-lo e a montá-lo. Baseado em “Traumnovelle”, a novela de Arthur Schnitzler com acção na Viena dos anos 20, o filme viu a história transferida para a Manhattan dos anos 90. Mas Kubrick, sendo nova-iorquino de gema, tinha-se fixado numa mansão de Hertforshire, Inglaterra, desde que chegara ao Reino Unido em 1961 para rodar “Lolita”, o livro-escândalo de Nabokov onde um professor de meia-idade, Humbert Humbert, se perde de amores – e de perdido sexo – por uma miúda de 12 anos (no filme ela tem catorze, o que não impediu a fúria dos censores). De espírito metodicamente recluso, Kubrick passava meses sem pôr os pés fora de casa, e não se dispôs a regressar aos EUA por causa do projecto. Tom Cruise e Nicole Kidman, o casal mais mediático de Hollywood nos anos 90, andava mortinho por filmar com Kubrick, e aceitou passar dois anos à chuva em troca do privilégio. Várias ruas de Londres, nas zonas de Chelsea e Fitzrovia, foram convertidas em Manhattan, e os estúdios britânicos de Pinewood fizeram o resto.

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Quando Napoleão I, imperador dos franceses, se coroa a 2 de Dezembro de 1804 (160 anos depois, Kubrick rodará “Dr. Estranho Amor”, em que os sonhos norte-americanos de ressurreição imperial terminam com bombas atómicas sobrevoando o Atlântico), Bonaparte não vai a Roma para ser consagrado pelo Papa, como o ídolo Carlos Magno fizera 1000 anos antes. É o papa que se desloca a Paris para a cerimónia. Recordando-se do ultraje sofrido por Magno, a quem Leão III colocara pessoalmente a coroa imperial para demonstrar a supremacia de Igreja sobre Estado (contrariando os rituais bizantinos da época), Napoleão convoca o Papa para que este se limite a admirar a sua autocoroação. Kubrick também não se tinha em má-conta: furtivo, ou minimal, quando lhe perguntavam pormenores criativos sobre as obras, não se coibia de frisar que “Ingmar Bergman, Vittorio De Sica e Fellini são os únicos realizadores do mundo que não são uns oportunistas. Têm um ponto de vista, depois traduzido uma e outra vez nos seus filmes”. Obviamente, nunca se excluiu deste minúsculo grupo de autores.

Napoleão, que chegou a dominar a Espanha, a Itália (autoproclamando-se rei dos transalpinos em Março de 1805), parte da Alemanha, uma fatia do império austríaco e o Egipto, esmagou assim que pôde o poder legislativo, fingindo manter durante algum tempo a herança da Revolução Francesa. Centralizando em si o poder executivo ( foi Primeiro Cônsul da República antes de se assumir de vez como déspota iluminado) soltou a fúria da guerra por toda a Europa continental, em Arcole, Marengo, Cairo, Austerlitz, Iéna, Wagram, até o “general Inverno” e as tácticas sacrificiais dos russos lhe dizimarem um exército de seiscentos mil homens (como farão, século e meio depois, com os panzers nazis). Waterloo esvazia-lhe a moral e o poder estratégico mas, até à capitulação em Junho de 1815, Napoleão controla tudo: cúpulas militares, lei, educação, Igreja, economia, território. Espírito. Após a experiência amarga de “Spartacus”, em 1960, o projecto de Kirk Douglas cujo produto final lhe escapara das mãos, Kubrick não descansa até conquistar o controlo sobre os mais ínfimos pormenores das suas produções, do argumento ao formato técnico de exibição das cópias. Com direito a “final cut” (a última versão aprovada) de todos os filmes a partir de “Lolita”, veta as salas que entende não reunirem condições para exibir as obras. Supervisiona o processo de dobragem das longas-metragens à escala mundial. Se necessário, retira temporariamente as cópias dos cinemas para corrigir alguma minudência de montagem ou banda sonora. E consegue anular em definitivo a exibição num país – quando “Laranja Mecânica”, essa gesta numa Grã-Bretanha distópica de um grupo de jovens malfeitores liderados por Alex (Malcolm McDowell), maníaco em Beethoven e ultraviolência, dá origem a uma onda de crimes replicando os assaltos e violações do gangue no filme, Kubrick força a Warner Brothers a retirar das salas inglesas todas as cópias. Com a decisão, cessam as ameaças de morte à família Kubrick. Isolando-se mais a partir desse período, o realizador comunica apenas por fax ou telemóvel – a certa altura, depois de criar amizade com Kubrick, em conversas de horas ao telefone que se prolongam por vários meses, o realizador John Boorman sugere aparecer lá em casa, na mansão de Hertfordshire, para irem jantar. Kubrick responde-lhe “Jantar? A nossa relação telefónica é óptima. Porquê mudar?”

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Incansável perfeccionista, apenas resolveu filmar “Barry Lyndon”, a saga de um anti-herói da plebe que se imiscuí na aristocracia britânica do século XVIII, quando descobriu uma câmara utilizada pelos satélites da NASA cujas lentes tinham a sensibilidade necessária para filmar à luz da vela, respeitando a atmosfera naturalista da época. Preocupava-se tanto com o seu julgamento da história que pretendia contar como com o julgamento que a História faria do seu trabalho. Talvez isso – isso e uma partilhada consciência da infinita capacidade do Homem para exercer violência sobre o semelhante – tenha levado Kubrick a decidir filmar a vida de Napoleão Bonaparte.

Começou a preparar o projecto ainda em 1968, durante a rodagem de “2001, Uma Odisseia no Espaço”. Passou os três anos seguintes a fuzilar com perguntas Felix Markham, um historiador de Oxford que lançara em 1963 uma extensa biografia de Napoleão (gravou, claro, todas as conversas). Reuniu mais de 15 mil fotografias de possíveis décors e 17 mil imagens de desenhos, pinturas e documentos do período entre 1769 e 1830. Uma dúzia de colaboradores de Markham elaboraram relatórios detalhados de cinquenta figuras importantes na vida do imperador. E o próprio Kubrick criou um sistema de 25 mil fichas sobre os aspectos mais triviais da odisseia napoleónica, interligadas por um sistema complexo de códigos – é a marca dos obsessivos.

Depois, persuadiu a MGM a entregar-lhe 400 mil dólares para financiar a recolha bibliográfica (leu perto de cinco centenas de livros sobre o general francês, acabando por constituir a maior biblioteca inglesa sobre a figura), a pesquisa de locais de rodagem e a negociação com o exército da Roménia, tendo em vista a cedência de 40 mil efectivos de infantaria e 10 mil de cavalaria (lembrem-se que ainda se vivia num mundo analógico), de forma a reproduzir em detalhe as batalhas cruciais. Criou um selo com o símbolo dos estúdios e a letra “N”, para usar apenas na correspondência sobre o filme. Num bilhete dactilografado que entregou ao director da MGM à época, escreveu: “Espero realizar o melhor filme jamais feito”.

Em Outubro de 1971, o sonho napoleónico tinha terminado. A MGM ficou assustada com o orçamento – 5,2 milhões de dólares, uma fortuna para a época – e o rotundo fracasso de “Waterloo”, a fita de Sergei Bondarchuk sobre Bonaparte estreada em 1970, enterrou o assunto de vez. Afinal, o poder de Kubrick tinha limites. Em 1994, o argumento de “Napoleão” foi descoberto por acaso nuns caixotes da United Artists, guardados centenas de metros abaixo do solo numa mina de sal dos arredores de Hutchinson, Kansas (estava Dorothy também aí em refúgio?). O filme começaria com um Napoleão de quatro anos na cama, de urso de peluche – o urso seria o seu “Rosebud”, como o trenó do magnata da imprensa no “Citizen Kane” de Welles – terminando com a mãe do imperador a recolher o ursinho após a morte de Bonaparte no leito, aos 51 anos, no exílio de Santa Helena. Antes de o projecto ser encerrado, pensava-se em Jack Nicholson como actor principal. Seriam três horas de filme, com destaque minucioso para as batalhas de Austerlitz, das Pirâmides e de Waterloo, e um enfoque emocional no affair e casamento com Joséphine de Beauharnais, divorciada, mãe de dois filhos, seis anos mais velha do que Napoleão, a quem nunca deu um herdeiro (Kubrick queria Audrey Hepburn para o papel). Segundo o guião da longa-metragem que não chegou a ser, ela e o general conheciam-se numa orgia, comum na aristocracia parisiense de oitocentos (Joséphine não era nenhuma santa, muito menos ele), e há ecos dessa sequência na orgia do baile de máscaras em “De Olhos Bem Fechados”. Muitos pormenores, e recursos estilísticos (o uso de luz natural, a voz-off) de “Napoleão” serão depois transferidos para “Barry Lyndon”, estreado em 1975.

Graças ao empenho de Christiane Harlan, a mulher de Kubrick nos últimos 41 anos da vida do realizador, e ao seu irmão, Jan Harlan, produtor executivo do cineasta a partir de 1971, a Taschen conseguiu reunir todo o material que Kubrick compilara sobre “Napoleão” ao longo de uma década. Lançado em 2009 numa edição ultraluxuosa de mil exemplares numerados, a 700 dólares cada, “Napoleon: The Greatest Film Never Made” é um livro colossal – são 2700 páginas. Por fora, parece um único volume, encadernado em couro, à moda antiga. Trata-se na realidade de uma dezena de livros de tamanhos e cores variadas – o design é atractivo, apanágio da editora – cada um deles dedicado a uma vertente do projecto: desenhos de guarda-roupa, ensaios históricos, fotografias de repérage, ilustrações, quadros de época, trocas de correspondência e o fac-simile da última versão conhecida do argumento. kubrick2Incluindo uma chave de acesso a uma base de dados na Internet com a totalidade das fichas, fotos e ilustrações reunidas por Kubrick – são mais de 17 mil slides -, não é menos do que um mergulho de cabeça na psique de Stanley Kubrick. Aos cidadãos de posses mais terrenas, foi disponibilizada em 2012 uma versão do livro com “apenas” 1112 páginas, a oitenta euros, disponível num par de livrarias portuguesas. Para aceder aos segredos do melhor filme nunca feito, poderá ser um preço justo.

 

 

 

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.
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12 respostas a Breve História da Obsessão (ou O melhor Filme Nunca Feito)

  1. Belo texto, Pedro.
    Parece que Imperador Kubrick não sai afinal a perder na batalha com Napoleão.
    E os bastidores da história deste Nunca Feito, contados por si, dão outro filme.

  2. Pedro Marta Santos diz:

    Haverá um céu para os filmes nunca feitos, ou terão apenas direito ao purgatório?

  3. Curioso (branco) diz:

    Talvez o limbo 😉

  4. Pedro Marta Santos diz:

    Ficavam bem acompanhados, junto das crianças por baptizar.

  5. curioso (ace tato) diz:

    e é mais seguro para o celulóide 🙂

  6. Nas palavras imortais de Michaleen Oge Fynn: “Impetuous! Homeric!”

  7. Mestre Marta Santos: e não foi feito também um documentário sobre o projecto? Onde se arranjará?

  8. O Hasselhof dava um bom tenente britânico balofo, educado na Pensilvânia e atingido por um mosquete ao sair da tenda de campanha. Impetuous indeed, dottore. Acho que não há nada de específico sobre este “Napoleão”, Diogo, mas tenho ideia que o exaustivo “Stanley Kubrick: a Life in Pictures”, dirigido pelo Jan Harlan, que acompanha o pack das fitas mais célebres do homem em DVD e Blu-Ray, faz algumas referências ao projecto.

  9. Maria João Freitas diz:

    Pedro,
    Mas que belíssimo texto sobre este ser fascinante, escravo do seu perfeccionismo e imperador dos seus sonhos.

  10. Maria do Céu Brojo diz:

    Perdi o fôlego a meio da lição portentosa. Recobrei e fui até ao final. È descaro saber tanto e mostrá-lo assim! 🙂

  11. Estou a babar-me tanto que vou precisar de bibe.

  12. nanovp diz:

    UAU!! Que obsessão reveladora de uma enorme e direccionada vontade! Sinal dos grandes?!!! Grande historia Pedro…

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