Choradinho

"Les Misérables", de Tom Hooper

“Les Misérables”, de Tom Hooper

Se querem convencer alguém a detestar musicais, mostrem-lhe “Os Miseráveis”.

“Os Miseráveis” de Victor Hugo, imensa obra publicada em capítulos há 150 anos, é um dos livros superiores da história da literatura. Com todas as suas derivações sociais, políticas e teológicas, é um fresco de uma força espantosa, apoiado no arco de renascimento e redenção de Jean Valjean, condenado a 19 anos nas masmorras por ter roubado um pão para salvar o filho faminto da irmã. O seu nemesis é o carcereiro Javert, símbolo do determinismo e do mundo antigo, para quem não existem segundas oportunidades: uma maçã podre será sempre podre. Valjean passa décadas a escapar ao passado, reencontra Deus, torna-se prefeito de uma cidadezinha e proprietário de uma fábrica onde trabalha Fantine, lançada na prostituição por um acto fortuito. Fantine morre, ainda a tempo de Valjean lhe prometer que cuidará da filha, Cosette. Mas Javert, agora inspector da polícia, cercará Valjean nos 15 anos seguintes, até ao inevitável confronto na Paris da revolta estudantil de 1832.

Há registo de dezenas de adaptações para o cinema – começaram logo com os irmãos Lumière em 1897 – de todo ou parte de “Os Miseráveis”. Esta é a versão do musical estreado em França em 1980, e de grande sucesso no West End londrino a partir de 1985 – ultrapassaram-se os 60 milhões de espectadores em 42 países. A aposta foi, em todos os sentidos, colossal: orçamento elefantino, realização de Tom Hooper (vencedor há apenas dois anos do Óscar de Melhor Realizador por “O Discurso do Rei”), papéis nucleares entregues a Hugh Jackman, Russell Crowe e Anne Hathaway (todos com experiência no género) e, voilá, um registo das vozes em directo durante a rodagem. Acontece que os problemas são tão grandes como o currículo dos protagonistas. “Os Miseráveis” não é exactamente um musical, no sentido em que os magníficos “The Bandwagon” de Vincente Minnelli ou “My Sister Eileen” de Richard Quine são musicais. “Os Miseráveis” é uma ópera, onde as personagens quase não falam, cantando incessantemente (preparem-se, são mais de 50 canções e 2h30 de cantoria e, nalguns casos, berra-se). A qualidade melódica dos trechos não é de ópera, é de opereta – não haverá mais de três ou quatro boas canções neste festival de precários barítonos e sopranos. A direcção artística de Eve Stewart, da troupe de Mike Leigh, não é épica – se exceptuarmos o esmagador cenário de abertura -, é grotesca, como uma cópia pop de um quadro expressionista. E a realização de Hooper não é menos do que calamitosa: lentes “olho de peixe”, grandes angulares que fariam corar Terry Gilliam, câmara sempre enfiada na laringe das personagens – se nos aproximarmos mais delas, corremos o risco de contrair doenças infecto-contagiosas – e infindáveis grandes planos em TODAS as canções. Sai-se exausto desta overdose de narinas, oitavas e maxilares. Pior: há uma exploração das emoções mais próxima do “Quadro do Menino a Chorar” de Giovanni Bragolin – esse clássico – do que do “Naufrágio da Medusa” de Theodore Gericault, um contemporâneo de Victor Hugo. Quando uma criancinha morre neste carrossel de gritaria, há sempre uma câmara a aproximar-se, lesta, para lhe fixar a última lágrima. Miserável.

Publicado na revista “Sábado”

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.
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12 respostas a Choradinho

  1. Ana Rita Seabra diz:

    Só de ver o trailer é de fugir…ainda bem que não fui!
    Obrigado pelo belo texto aqui, bem melhor que 1 minuto do filme 🙂

  2. curioso (like) diz:

    mas são elites… porque o povo gosta e marcou presença… entre muitos artistas e entendidos na matéria… e há registos de bilheteira (o que para o caso não interessa, não é?)

    acreditem que se viessem infectados poderia ser de emoções fortes e admiração por grandiosos desempenhos 😉

    IMDb Ratings: 8.2/10 from 31,470 users

    The Best Actor category will pit presumed favorite Daniel Day-Lewis (“Lincoln”) against Hugh Jackman (“Les Miserables”)….

    “Les Miserables” star Anne Hathaway led the Best Supporting Actress category.

    ….”Les Miserables” … will compete for Best Picture.

    My Rating Bob’s Movie Reviews
    3/4 – A wonder of musical performances, innovation, and theater-like production, Les Miserables is a masterpiece for musical lovers, but a little too narrow of a scope and too slow a pace for the average movie-goer.

  3. O único musical que aceitei ver na vida (depois da remelisse dos Von Trapp) foi o Cabaret, que era bem mais que um musical, claro.

  4. Maria do Céu Brojo diz:

    Grata pelo aviso. 🙂

  5. Fujam muito, e corram a (re)ver o “Silk Stockings”, o “One From the Heart” ou o “Once” – aí está um excelso musical produzido por 180 mil euros e disponível nos saldos da Fnac. Curioso, talvez fosse preferível ver o filme antes de se pronunciar sobre ele. António, tens razão, o Bob Fosse era um tipo que entendia do assunto, e o material de base do “Cabaret” era mais do que aconselhável.

    • curioso (gostei) diz:

      Viu-o?
      Porque se atreve a recomendar isso?
      Nunca irei ver os outros. Nāo faço colecção. Não me interessam esses orçamentos.

    • curioso (global izado) diz:

      toca a fugir… dos Nobel, dos Globos d’Ouro, dos Oscares, está tudo contaminado e pervertido, como se vê com a Pepa 😉

      como não sou entendido nestas artes (apenas gosto/tolero/não gosto) gostaria de saber se o maior ganhador (3 globos) continua a ser uma horrível porcaria ou se há lugar a reconsiderações?

  6. Ana Rita Seabra diz:

    Pedro, obrigado pelas dicas. Vou à fnac!

  7. nanovp diz:

    Convenceste-me no primeiro segundo, ou frase como queiras! Mas fartei-me de rir com o texto!

  8. Um acordo – não vi o filme, não precido, já sei que não vou gostar!
    Um protesto – O musical é um dos géneros mais geniais que Hollywood criou. Há 100 musicais que são obras-primas e hei-de, António, obrigar-te a ver os primeiros 2 para que peças para ver logo os seguintes 20.

  9. Estou contigo, dottore. há pelo menos 100 musicais que são obras-primas.

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