Decameron – um pornoclássico

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Decameron, Relógio de Água, 2006;
trad. Urbano Tavares Rodrigues

Ai de mim, pobre escriba, jornalista sem graça, instado pela Tia a preferir um livro ou um autor, instado pelo patrão a dizer piadas porcas, instado pelo mundo a viver deste pobre ofício que é o de alinhar umas ideias que, por força não serão as dele, que as não tem, mas a de outros, mais ricos, mais cultivados, mais novos, mais confiantes, ou então daqueles já mortos, que nunca virão a terreiro reclamar da má interpretação, mas enfim, ideias de outros.

Ai de mim, que me valha São Ciappelleto, o que enganou o frade e foi canonizado, pois como ele tenho de enganar as vossas inteligências para parecer inteligente. Ora, assim sendo, e fazendo da astúcia (que é a arma dos pobres) a minha companheira, de quem me lembro eu? De Giovanni Boccaccio e da sua obra em italiano vulgar, O Príncipe Galeotto, que a maioria de vós nunca leu nem pelo seu título vulgar de Decameron, razão pela qual não podeis aquilatar da justiça com que aqui falo. Menos ainda se eu pusera o título original – Comincia il libro chiamato Decameron cognominato prencipe Galeotto, nel quale si contengono cento novelle in diece dì dette da sette donne e da tre giovani uomini

E mais do que um Decameron qualquer, falo (e quem diz falo…) de um especifico, de 2006, edição da Relógio de Água. A livro malandro tradução de malandro – e porque o vi, com estes que a terra há de comer, nos corredores da Faculdade de Letras de Lisboa sempre rodeado pelas miúdas mais giras (que disputava com Eduardo Prado Coelho e David Mourão-Ferreira), aqui vos deixo a coisa com a tradução desse ainda malandro que é Urbano Tavares Rodrigues. Uff… só na introdução gastei mais carateres do que na descrição, mas é assim que se medem os bestuntos neste reino.

E che cosa è il Decameron? Pois bem, é um livro (nesta tradução são dois) que decorre em dez dias durante os quais se contam cem histórias. Todas boas, mas umas melhores do que outras. A abrir, a de São Ciappelleto, que Molière usou no seu Tartufo (coisa muito comum antes mesmo do Google existir, era o plágio). Pois o bandido Ciappelleto confessa-se de tal modo virtuoso a um frade na hora da morte que é santificado mal estica o pernil. Mas o Decameron inspirou muito mais obras. Das Canterbury Tales, de Chaucer, a Martinho Lutero, que citava abundantemente a segunda novela do primeiro dia, a do judeu Abraão que vai a Roma e ao ver tanta corrupção se converte ao cristianismo. Ainda Molière, mas também, e antes dele, Lope de Vega, se inspira na terceira novela do terceiro dia, onde uma dama puríssima, daquelas que o Bidarra canta e o Norton aplaude, finge querer confessar-se e, manobra de tal modo o religioso, que este lhe fornece todos os meios para que ela… hum… se satisfaça, indicando, via confessor, como havia o jovem galante que nunca mais se decidia, a trepar uma árvore e entrar pela janela, de modo a que a encontrasse nuazinha na cama.

Há, ainda quem diga, embora eu não consiga vislumbrar (falha-me a cultura) que o Mercador de Veneza, de Shakespeare, encontrou fonte de inspiração na nona novela do terceiro dia e por aí fora, passando por óperas de Vivaldi, como Griselda, contos de Swift, filmes de Pasolini e o que mais se quiser, pois uma obra escrita, ao que parece, entre 1349 e 1351 deu de comer a muito esfomeado.

Já agora, e recordando a Efigénia de Ivone Costa (esta não a de Agamemnon, e até com E em vez de I), direi que a primeira novela do quinto dia leva Cimone, um rapaz corajoso, a raptar uma Efigénia e a revelar assim o enorme poder que tem o amor. Aliás, não há um tema da literatura – unzinho – que o raio do Boccaccio não tenha apanhado. Mesmo a velha história das telenovelas atuais (e dos Maias de Eça) – paixão entre dois irmãos que não se conhecem – lá aparece na quinta novela do quinto dia.

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Os dez companheiros do Decameron, numa pintura de John William Waterhouse, 1916 – A tale from Decameron; Lady Lever Art Gallery, Liverpool

 

A estrutura da obra, que aparentemente se baseia nos contos persas (lembra as 1001 Noites),  parte de uma ideia muito simples. Durante a peste em Florença (1348) dez amigos, sete raparigas e três rapazes, todos de elevada condição social, decidem ir para o campo, a fim de fugir aos maus ares. Aí passam o tempo com um jogo de regras claras: todos os dias escolhem um rei que determina o assunto da jornada e todos os outros têm de inspirar-se nesse mesmo assunto para contarem as suas histórias. As dez histórias diárias em dez dias resultam nas cem novelas do livro. De referir, ainda, que o mais novo deles, Dioneo, tem o privilégio de não seguir o tema determinado e que há dois dias, o primeiro e o nono, que têm temas livres.

Os nomes dos dez amigos têm sido abundantemente analisados. Assim, as sete raparigas representaram quatro virtudes cardinais e três teologais (Prudência, Justiça, Fortaleza e Temperança, as cardinais, Fé, Esperança e Caridade, as teologais), ao passo que os três rapazes representariam as três partes em que, na Idade Média, se acreditava estar dividido o coração (ira, razão e luxúria). Os nomes da rapaziada também é alvo de fúria analítica, tendo em conta a sua etimologia grega. Assim, Pampinea, rainha do primeiro dia, quer dizer, a foliona; no seu reinado fala-se do que será mais agradável a cada um; Filomena (segundo dia), a amante de música, dedica o dia àqueles que, apesar da má sorte conseguem um final feliz (é daqui a célebre novela ‘Há males que vêm por bem”, a história de um homem que, depois de ser roubado na estrada, encontra hospedagem em casa de uma viúva que o recompensa de vários modos);  Neifile, cujo nome significa ‘nova amante’ sob cujo reinado se fala daqueles que por astúcia atingem os seus desejos ou encontram algo valioso que perderam (está aqui o “Alcoviteiro sem o saber”, o tal confessor que põe o amante nos braços da dama); Filostrato, cujo nome significa o amor venceu, e que trata dos amores com final infeliz (está aqui “A folha venenosa” cujo tema reconhecerão – Simona e Pasquino encontram-se num jardim e o rapaz esfrega os dentes com uma folha de salva e morre; julgada por homicídio, Simona para mostrar aos juízes como morreu o seu amante, faz o mesmo e morre também). Fiammetta, a amada de Boccacio, em que se fala de acontecimentos felizes que puseram fim a aventuras trágicas acontecidas a apaixonados (está aqui “A filha adotiva”, a tal história dos irmãos que se apaixonam sem conhecer a sua consanguinidade). Elisa, o outro nome de Didone, figura mítica fundadora de Cartago, irmã de Pigmaleão e que deve a sua fama ao facto de ter um papel na Eneida de Virgílio; aqui fala-se daqueles que com uma resposta dada a tempo, ou uma frase com espírito, se salvam de maiores trabalhos (onde está uma das minhas novelas preferidas, pelo seu quase surrealismo. Chama-se “As relíquias de Frei Cebola”, um religioso que promete encontrar uma das penas das asas do Arcanjo Gabriel e, quando está à procura, sob o olhar dos circunstantes camponeses, apenas encontra carvão. Mesmo assim convence-os de que estava ali o carvão que servira para grelhar São Lourenço, o que não lhe estraga o negócio). Dioneo, o mais jovem, como vimos, cujo nome significa luxurioso e que manda falar das partidas que as mulheres pregam aos maridos. Lauretta (a cantada por Petrarca), impõe o tema das partidas que os homens pregam entre si ou às suas mulheres. Emília, para cujo nome não há explicação e em cujo reinado (o nono) se fala de assuntos livres e, por fim, Panfílio ou o todo amor, que manda tratar daqueles que por magnificência realizaram uma boa ação no domínio do amor ou de outro sentimento elevado.

Na introdução ou proémio, são explicadas as regras e é dado o enquadramento pestífero, ao que se seguem os dez dias, cada qual com dez histórias ou novelas independentes.

A importância histórica de Decameron reside no facto de ter antecipado a ideia renascentista do hedonismo. O culto do prazer e do humanismo, que haveria no século XV iniciar uma transformação apreciável dos costumes, tem em Boccaccio um precursor em quase um século. O humor e o erotismo constituem também uma nota de novidade para a época. O rocambolesco de muitas situações é, ainda hoje, comum na literatura e na dramaturgia. Sim, meus caros tristes, o Decameron foi acusado de imoralidade e escândalo, censurado e tudo, o que dá alguma razão aos nossos Bidarra e Norton e, de um modo geral, a todos os Tristes que conseguiram chegar a esta linha em que escrevo: foda-se! Acabei isto! É que a puta da tia não paga um chavo a ninguém!

Passai bem o fim de semana.

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom. Sem nunca me levar a sério - no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom (e barato).
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13 respostas a Decameron – um pornoclássico

  1. Ivone Costa diz:

    Ó Henrique, ó Henrique, com que então a astúcia é a inteligência dos pobres? Já me fartei de rir, fica bonito uma pessoa depreciar-se assim. Está a falar da Μῆτις , não é? Assunto que merece muitas e ricas linhas, olhe só aquele homem de quem gosto muito, o J.P. Vernant, que lhe dedicou um livro inteiro “Les ruses de l’ intelligence: la métis des grecs”. Bom fim-de-semana.

    • Henrique Monteiro diz:

      Cara Ivone, se me é permitida uma piadola a que os nossos cardeais não chegam, embora goste thèthys não sou filho dela nem do Oceano. Mas sim, tenho uns truques que me vêm das terras do demo, daquele Malhadinhas do Aquilino – éramos todos de família.

  2. armando miguez diz:

    Ao ler as suas cronicas tenho de desobedecer ao pedido deste blog. Memoráveis as suas cronicas. Um livro contudo compilado não? Grande abraço de admiração caríssimo Henrique

  3. armando miguez diz:

    Ao ler as suas cro­ni­cas tenho de deso­be­de­cer ao pedido deste blog. Memo­rá­veis as suas cro­ni­cas. Um livro com ­tudo com­pi­lado não? Grande abraço de admi­ra­ção carís­simo Henrique

  4. Pedro Bidarra diz:

    Se o Decameron é um pornoclássico o teu texto, caro Henrique, é um caso de pornoerudição. Estou esmagado.

    • Henrique Monteiro diz:

      Este livro é tão rico, que ainda ficou muito por dizer. Por exemplo, a historia do frei Cebola passa-se na terra do próprio Boccaccio e tem origem num conto sanscrito. Por gozar com as relíquias, foi um dos mais criticados pelos censores… E por aí fora.

  5. nanovp diz:

    E eu a achar que até conhecia alguma coisa do Decameron ( simplesmente por o ter lido ) …sedutora ilusão que o texto tratou de arrasar. Agradecido fico.

  6. Panurgo diz:

    Apesar do preço vergonhoso, também eu me deleitei com esta edição que, Deus me ajude, valeu bem o dinheiro. Ocasionalmente, lá voltava para ler uma ou outra novela, mas nada mais. Do Boccaccio dizia-me mais a biografia do Dante. O Henrique deu-me uma coisa que o Garin que ando a mastigar não me conseguiu dar, a vontade de reler o Decameron. No último parágrafo parecia-me estar a ler o peter burke, o que me dá sempre imenso prazer. Também eu agradeço.

  7. curioso (foderent puteu)) diz:

    o fim de semana foi uma miséria… e nem a Tia terá chegado àquela linha… nem algun(a)s sobrinho(a)s 😉 🙂

    e a paga seria suja?

  8. Andei um bocadinho desblogado e só hoje li. Sem prejuízo do Bacaccio, aquilo das miúdas giras da faculdade com o Urbano, o Eduardo e o David a abelhar não dá uns postszitos?

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