Deutsche Requiem – Um requiem alemão

“Ameaça agora o mundo uma época implacável. Nós a forjamos, nós que já somos sua vítima. Que importa que a Inglaterra seja o martelo e nós a bigorna? O importante é que reine a violência, não as servis timidezes cristãs. Se a vitória e a injustiça e a felicidade não são para a Alemanha, que sejam para outras nações. Que o céu exista, mesmo que nosso lugar seja o inferno.

Olho meu rosto no espelho para saber quem sou, para saber como me portarei dentro de algumas horas, quando me defrontar com o fim. Minha carne pode ter medo; eu não.”

Deutsche Requiem, Jorge Luís Borges (El Aleph)

Estas palavras de Otto Dietrich zur Linde, protagonista do conto de Borges, descendente de uma linhagem de militares prussianos, são as últimas que profere antes de enfrentar o pelotão de fuzilamento. Otto foi, ele próprio o afirma, justamente julgado, tendo o tribunal procedido com honradez ao ouvir a sua completa confissão. Sim, tinha sido um torcionário nazi; sim, tinha dirigido barbaramente o campo de concentração de Tarnowitz. Otto não acredita na compaixão, no cristianismo. Ele vê um futuro negro, de sabres – e não importa quem os brande, se a sua Alemanha, se a inimiga Inglaterra, o que conta é ser impiedoso mesmo consigo próprio.

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Nem medo, nem piedade

Otto admira Raskolnikov, o estudante que no genial Crime e Castigo executa uma agiota e a sua irmã. Acha que a entrada desta personagem de Dostoievsky no crime é um ato mais corajoso do que as vitórias de Napoleão na guerra. Mas despreza a conversão às mãos de uma ex-prostituta. Otto não tem destas amarguras. Aprendeu a desumanização com Nietzsche em Also spracht Zarathustra. Por isso morrerá sem medo, com ódio.

Porém – e muito estranhamente – este Otto não é musicalmente influenciado por Wagner, o sublime orquestrador da violência, mas por Johannes Brahms, cuja obra maior é, muito apropriadamente, Ein Deutsche Requiem, mais de uma hora de música sacra que, ao invés dos requiem anteriores, não é cantada em latim (Requiem æternam dona eis, Domine, et lux perpetua luceat eis/Dá-lhe Senhor descanso eterno e que a luz perpétua sobre ele brilhe), mas em alemão: Selig sind, die da Leid tragen/bem aventurados os que choram).

Ora eu aqui não posso concordar com Borges. Brahms – e esta música – não vai com nazices nem com ódios. E por ter pensado nisso, aqui deixo 10 minutos dela para que ajuízem. Por favor digam que eu tenho razão, caso contrário deprimo-me…

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom. Sem nunca me levar a sério - no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom (e barato).
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15 respostas a Deutsche Requiem – Um requiem alemão

  1. Não tem razão, não tem, Henrique: é pelas frestas que a luz entra quando tudo está fechado: Otto não era bidimensional, só se comportava bidimensionalmente, a supremacia do ideário em detrimento da pessoa. Quando afirma: “minha carne pode ter medo”, reconhece-se na humanidade que a si mesmo nega. E vê a fraqueza, a sua própria, a dos dos outros, o sofrimento, o que causou e o que sente – é a carne que ouve Brahms e chora, claro, a bem-aventurança tem a duração do Requiem ouvido.

    Borges escreve como a água corre, não há espaço nem recanto a que não aceda – se o tivesse conhecido tinha casado com ele.

    • Henrique Monteiro diz:

      Eugenia, conhece o Borges da melhor maneira possível. Pela escrita. De resto, era bastante insuportável e não acredito que quisesse estar no lugar da japonesa. Mas concedo um ponto. Ele chora pela carne. É bem visto.

  2. Tem razão, mas não sei se pelas mesmas razões que me informam. Não faz mal, porque a sua possível depressão é retórica. O que aqui escreve dá para um tratado de filosofia. Apenas isto: Otto não sabe o que diz, é um “raskolnikov” (em russo significa “partido”, “aos pedaços”); Otto não sabe que o “eu” não está solto da carne; Otto não sabe que admirar o amante de Masha implica tudo; Otto bem pode chorar, mais com Brahms, portanto; Otto é o ressentimento que Nietzsche descreve em “A genealogia da moral” (mais do que no “Para além do Bem e do Mal”, mais conhecido), que, segundo o filósofo, é o sentimento que está na origem do Cristianismo; por isso nem um, nem outro sabem o que é o cristianismo. Não é uma moral. É um acontecimento. Por isso a crítica de Nietzsche em nada belisca a religião cristã. Antes pelo contrário, em muito as suas críticas tem um inestimável valor para acabar com um “cristianismo” de túmulos caiados de branco. A moral ideal, a grega, é afinal o autêntico humanismo. Chame-lhe cristão, porque de facto não se encontra na História outra “explicação” que tenha em conta todos os aspectos da realidade. O cristianismo não deixa nada de fora. Nem a dor, nem o sofrimento, nem Nietzsche. Não é pedaços. E nada tem a ver com servis timidezes. Nietzsche critica sim uma moral de fracos – retrato de práticas cristãs, de ontem e de hoje…- a milhas da moral dos fortes, onde se incluem, entre outros, os belos exemplares cristãos. Se eu quiser mostrar a um marciano o que é, sei lá, futebol, quem é que acha que eu lhe apresento? Todos menos eu.
    Não sabia que tinha este Blog. Espero que não tenha ficado deprimido !

    • Henrique Monteiro diz:

      Minha cara, a ideia de que eu fico deprimido é um anti-nietzschanismo. Na verdade, não fico. Aprecio a sua critica, mas tenho de pensar melhor nela. Não creio que Nietzsche possa escapar assim. E mais: este blogue não é meu, é da minha tia, que é uma chata que me obriga a fingir de culto.

    • Mas quem disse que Nietzsche escapava? Eu disse precisamente o contrário. Mas isto é hora de jantar 🙂

      • Henrique Monteiro diz:

        Agora, que é hora de almoço, o que eu queria dizer é que o Nietzsche não pode escapar com essa caridade toda que tem por ele…

        • Por ele, toda! Pelo pensamento há que ser rigoroso. Há que distinguir entre o cristianismo e as diferentes práticas. Há cristãos e cristãos. O que é que Nietzsche viu? Como o outro que era ateu e ia para a porta da Igreja ver os cristãos a sair da missa. Queria ver Jesus ressuscitado. Coitado! Nada.
          Por outro lado, Nietzsche é mal conhecido. E há por aí tantas virgens ofendidas. Não há nada como “conhecer”. Infelizmente nas nossas Universidades nem sempre acontece. Já para não falar dos Media. Pouco escapa. Mas claro que poderemos fazer melhor.

  3. Ivone Costa diz:

    Henrique, há aqui um pormenor que não é despiciendo: o requiem de Brahams não segue o ritual romano, como nos habituámos a ouvir, mas sim o ritual luterano.

    • Henrique Monteiro diz:

      Sim, cara Ivone. Não é bem um ritual. Foi o Brahms penso eu (mas posso estar enganado) que o iniciou.

  4. Escrever é prazer! – se nao acreditam passem pelo meu blog…

  5. Panurgo diz:

    De Brahms não sei, mas é-me muito difícil entender esse conto do Borges. Não faço ideia do que ele está para ali a dizer. É difícil interpretar o significado das omissões no texto. Que significam? Uma confissão deliberadamente absurda, ficcionada, falsa? Ou, tal como o poeta judeu o é, um símbolo do novo homem, melhor dizendo, das novas vestes do homem, também elas falsificadas. «Um símbolo das gerações futuras». Porque, de facto, o soldado Otto é tudo menos nietzschiano, nem se assemelha em nada à personagem do Crime e Castigo – que às tantas também procura a prostituta, apenas porque precisava de ver alguém sofrer. Tal e qual o Nazismo, cujas as raízes estão não em Nietzsche, mas na trupe de canalhas que gostava muito de aplicar a dialéctica à história. E o pai do Otto é o único familiar que não é morto em combate. Enfim, três folhas perfeitas do argentino, palavra. No fim, podemos estar convencidos que a segunda guerra mundial curou o judaísmo, e ele anda por aí, cheio de saúde. Até o maior derrotado dessa zanga de irmãos é agora um martelo.

    • Henrique Monteiro diz:

      A parte em que estamos todos de acordo é sobre a perfeição do argentino… As interpretações são o diabo, como os pormemores

  6. nanovp diz:

    E não será tudo interpretação? A nossa interpetação de Borges, de Nietzs­che, de Brahms, e até de Cristo? E uma confissão vi este Requiem há muitos anos, penso que no cinema Império (!!) e não o entendi nem gostei! Ouvi-lo outra vez agora confirma que tenho de o conhecer melhor…

    • Henrique Monteiro diz:

      Sim, é tudo interpretação. A obra em si depende disso. Mas também não tenho a certeza do que estou para aqui a dizer…

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