Dicionário para faldas da Estrela

Abel Manta

Abel Manta

Estando em curso preparativos para romagem a lugar nas faldas da Estrela, preciso é dicionário que desambigue os discursos locais .

Clementina Manta, mulher de Abel Manta

Clementina Manta, mulher de Abel Manta

O falar da Beira Alta tem quês e porquês. Destes, especialistas sabem. Os quês são conhecidos daqueles que por lá vivem ou viveram ou se informaram. Algumas expressões populares deleitam pela expressividade ou humor, ainda que, nalguns casos, jocosas ou ofensivas. É de citar pêlo na venta ao querer exprimir mau génio ou frontalidade invulgar de quem perante desaforo não fechava a sanfona (boca). Pêlo na barba tem o sentido de mulher peluda no queixo. Aliás, barba é, na região, também sinónimo de queixo.

Gorgomilo, bofes e bucho significam, respetivamente, garganta, pulmões dos humanos ou do porco, estômago ou enchido feito de partes menores do bicho e enfiado na bexiga ou no estômago do mesmo. As mulheres encarregam-se do pitéu após a matança; atam e põem-no ao fumeiro para ser cozinhado ou consumido em fatias no Domingo Gordo – domingo de Entrudo, o último antes da Quaresma.

No cortelho, lugar reservado ao porco, a pia feita de pedra servia para conter o alimento que faria crescer o animal até Janeiro, mês em que ia desta para vida outra nas salgadeiras dos arcazes (arcas em castanho velho) arrecadados na loja (parte inferior da casa situada ao nível da rua). Pelo balcão subiam os moradores até ao espaço reservado para habitarem.

Almoço, fatia, jantar, ceia design(av)am refeições equivalentes e pela mesma ordem a pequeno-almoço, comida levada pelos donos da terra aos trabalhadores agrícolas entre as onze e meia e o meio-dia, almoço e jantar. Madrugar e dormir cedo eram hábitos indispensáveis a quem iniciava cedo a jorna. A ausência de televisão, de leituras, o frio entrado pelas frinchas dos telhados e das paredes em granito contribuíam para a deita mal a noite era descida. Filhos foram engendrados por falta de assunto ou pela quentura das cobertas (cobertores) que enganavam frio de arreganhar (arrepiar). Uns medraram (cresceram), outros morreram justificando a elevada taxa de mortalidade infantil antes e durante o Estado Novo. O ripanço (descanso) acontecia somente ao domingo quando ainda não era sonhada a semana-inglesa.

As matas e os milhos (milheirais) proporcionavam fugidios encontros românticos terminados em sexo. Rondada a futura amásia (amante) com rapapés (lisonjas) pelo candidato que lhe desejava o corpo, tudo acontecia num rufo (momento). Dando o povo conta, o passarinhar (andarilhar) dos amantes era vigiado por olhos curiosos, dizia o par amancebado e jamais esquecia o sucedido ainda que terminasse em casamento o romance. Galgas (mentiras) e nisgas (pedaços de nadas) de vaidade depressa alimentavam falatório e eram pretexto pra mandar pró catano (diabo) quem «argolava» comportamentos. Já bonda (chega)!, diziam. Também as malinas (doenças) de pessoas ou de videiras como a filoxera ou de pinheiros ou das batatas ou de outros produtos da terra que ajudavam à sobrevivência eram tema de conversa.

Das ovelhas, o leite para o requeijão e queijo serranos, o leite basto (leite coalhado com flor do cardo), os chibos (crias das ovelhas) eram petiscos, as mais das vezes oferecidos como paga de favores a famílias, médicos e profissionais dos serviços que as gentes auxiliassem. Lambarices (guloseimas) para lambareiros (glutões) que àqueles presentes chamavam ‘um figo’.

Enxaugar era e é perversão de enxaguar, rastolho tanto podia significar variedade de pêra como assuada (confusão, barulheira). Com nanja (nunca) enfático, perguntas eram caladas.

Mais haveria para referir se a tal chegasse o saber. Mas não chega. Já bonda!

Nota: estão omissos outros termos. O primo Henrique Monteiro teve a fineza de lembrar mais alguns: “(…) põe-te quedo (está qui­eto), pincha-no-crivo (irre­qui­eto), malga (tigela), sertã (fri­gi­deira) e abo­bo­rar (ficar qui­eto a um canto, de pre­fe­rên­cia encos­tado a alguém), cair de borco (cair para a frente). (…)”

 

Sobre Maria do Céu Brojo

No tempo das amoras rubras amadurecidas pelo estio, no granito sombreado pelos pinheiros, nuas de flores as giestas, sentada numa penedia, a miúda, em férias, lia. Alegre pelo silêncio e liberdade. No regresso ao abrigo vetusto, tristemente escrevia ou desenhava. Da alma, desbravava as janelas. Algumas faziam-se rogadas ao abrir dos pinchos; essas perseguia. Porque a intrigavam, desistir era verbo que não conjugava. Um toque, outro e muitos no crescer talvez oleassem dobradiças, os pinchos e, mais cedo do que tarde, delas fantasiava as escâncaras onde se debruçaria. Já mulher, das janelas ainda algumas restam com tranca obstinada. E, tristemente, escreve. E desenha e pinta. Nas teclas e nas telas, o óleo do tempo e dos pinceis debita cores improváveis sem que a mulher conjugue o verbo desistir. Respira o colorido das giestas, o aroma dos pinheiros nas letras desenhadas no branco, saboreia amoras colhidas nos silvedos, ilumina-a o brilho da mica encastoada no granito das penedias.
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32 respostas a Dicionário para faldas da Estrela

  1. Henrique Monteiro diz:

    Assim de repente, e para além das saudades, Maria, falta-me o põe-te quedo (está quieto), pincha-no-crivo (irrequieto), malga (tigela), sertã (frigideira) e aboborar (ficar quieto a um canto, de preferência encostado a alguém), cair de borco (cair para a frente).
    O ripanço é muito bem lembrado!!!! Mas eu não sei as especificidades da Serra. Só as do Norte de Viseu. Porém, pela amostra, são muito parecidas.

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Imperdoável ter omitido esses que conhecia e não lembrei. Acrescentei no ‘post’ a sua contribuição. Bem-haja.

      • Henrique Monteiro diz:

        Já vi… Não havia nexexidade (como se diz por Viseu)

        • Maria do Céu Brojo diz:

          Então não havia? Comentários alguns leitores não reparam. Para muitos, a página inicial ainda é a montra da loja onde se quedam. E gostei de o saber de Viseu ali tão perto do meu lugar.

  2. Pedro Bidarra diz:

    Serviço público, é o que é; desenterrar palavras e expressões e pô-las de novo ao ar. Era coisa que deviamos todos fazer, uma vez por texto: pegar numa palavra ou expressão esquecida e trazê-la de novo à vida. Congratulações

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Muito obrigada. Sempre que vem a propósito introduzo este termos no discurso oral e escrito. Riequeza assim não pode ficar esquecida..

  3. António Barreto* diz:

    Isto é muito bonito!
    (com sua licença vou guardar e republicar. o texto fica para depois)

  4. curioso (ver náculo) diz:

    o pêlo na venta creio que é para mulher 😉

    Ter pêlo na venta: Ter mau génio
    http://www.infopedia.pt

    17-02-2011 Já está nas bancas o “Dicionário de Falares das Beiras”, da autoria do transmontano Vítor Fernando Barros, numa edição conjunta da Âncora Editora e das Edições Colibri. (398 páginas preço de capa 21,50 euros)

    vátão, variação de “Então, vá”. Muito utilizada na Cova da Beira para iniciar a conclusão de uma conversa chata.
    códão, m.q. geada;
    cômaro, m.q. cabeço, outeiro;
    catrintcho, m.q. caraças;
    Dá-se-me cá um abalo ao pífaro que até se mabana a gaita! 😉

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Confidência: sempre que regresso das férias beirãs, o “então, vá” demora a passar, já que vátão caiu em desuso.
      Dos cômaros, sabia e esqueci. Os seguintes não e adorei conhecê-los. Bem-haja.

  5. Esta malta da Beira Alta é do catano.

  6. ERA UMA VEZ diz:

    O moço pequeno nasceu.
    Lá para os lados de Paderne, perto do castelo, tão antigo que tem honras de bandeira nacional. O mais importante do Algarve, diz-se

    Para ir à escola, a mãe DAVA DE VAIA, mas ele …com os pés ainda frios da véspera ,fingia-se surdo, queixava-se de BORTOEJA nos dedos, enfim…
    O pai ameaçava
    Levas uma CACHAPORRADA que vais ver.Deixo-te ESTALHASSADO

    E o MEIO ALQUEIRE, ACAGAÇADO, lá dava uma FUGIDA…Que remédio tinha.

    A mãe perguntava: Está RAQUÍTICO na está?
    Um pedaço MURCHO respondia o pai. ENJECADO como a oliveira do ALPENDRE.
    Não dou conta da razão, lamentava. Pois se ele vai bem às sopas de leite e ao galo de cabidela de Domingo e todo o dia anda para aí roendo figos…que até faz BORREFAS na boca…

    Deixa lá mulher, antes assim que ser um CÚ DARROBA

    E o rapaz lá cresceu, e com a CRESCEDURA, deu em voltar as costas ao campo. Era vê-lo a caminho de Albufeira atrás das inglesas e das CÓQUILHAS.
    Lá POSOLPOSTO quase LUSCOFUSCO, trazia CHARRINHOS para a mãe ALIMAR.
    Depois reclamava do jantar
    VOCEMECÊ só sabe fazer XARÉM?
    Ainda achas pouco?
    Tu que nem mexes o COIRO?
    Anda o teu pai aí a trabalhar que nem um MOIRO para tu meteres gasoil na motorizada?Só falta pores-lhe um CABRESTO…

    O rapaz fechava-se, de QUEIXO CAÍDO, ou seja, AMARRAVA A BURRA.
    Pois amanhã faço GRISÉUS com ovos cá das galinhas e se não te agrada, come FARROBAS
    .Hei-de fazer mesmo de ARREBENDITA

    Escondendo uma lágrima de tristeza e outra de menopausa, ela ia até à porta e sacudia o CAPACHO da entrada, tanto, tanto, tanto, até TER AVONDE.

    Está a chorar mãe?
    Eu???
    ALGUMA VEZ???

  7. curioso (avon dante) diz:

    ter avonde até já passou no Par lamento 😉 gostei

  8. Rita V diz:

    que rico dicionário e que bela ideia
    ;-P

  9. deep diz:

    Algumas dessas palavras e expressões são também usadas em Trás-os-Montes. 🙂

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Julgo que muitas delas não têm região específica. Ouvi-as na Beira Alta quando em férias na montanha.
      O linguajar regional é riqueza que convém preservar.

  10. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Bem caçado, menina Céu: vale bem ficar aqui a abo­bo­rar à frente do ecrã.

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Obrigada, estimada prima. Esta coisa dos ‘primos e primas’ também me ‘alembra’ a Beira Alta – seja numa aldeia, vila ou cidade pequena, raro é o nativo que não é primo sabe-se lá por via de quem. E é bom lembrar que o são ou saem amuados os parentes.

  11. Sou um beirão desnaturado. Ensinaram-me isto tudo, mas em kimbundo

  12. Cão do Nilo diz:

    Era uma vez uma igreja do Espírito Santo . E a filha gritava para o pai: “pai ande cá ver o bácoro a fossar nas costas do Espírito Santo….

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Graça tem e muita. Importa-se traduzir o linguajar da sua Beira para a minha? Fico grata.

      • Cão do Nilo diz:

        Da Gardunha às duas faldas da Estrela comungam-se “linguajares” (muitos) . Bácoro= porco. Fossar=Refocilar. Costas do E. S.= Encosta(s) do lugar chamado E. S. 🙂

  13. nanovp diz:

    Extraordinária lição Maria do Céu! Traz as memórias de um tempo em que as coisas tinham nomes estranhos mas sabores fortes, assim como as gentes…

  14. Maria do Céu Brojo diz:

    Sabores e gentes graníticas pela resistência contra borrascas sociais. A história vivida daquelas gentes ainda está por contar. Fica para uma próxima. Obrigada.

  15. António Barreto* diz:

    Bonito! Vou esgravatar a ver se sai alguma coisa de jeito.

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Sai pela certa. Fico à espera e sendo do agrado da família Triste dará ‘post’. Responsabilizo-me.

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