Do casario, a patina

Manuela Pinheiro - Casario

Manuela Pinheiro – Casario

Texto lembrado

Para quem vem das Amoreiras e mergulha no bairro esquecido, cheiro a frango assado antecipa Campolide. De arquitetura pobre, comum em Portugal, a classe média que o recheava envelheceu e regrediu no pré mensal. Tempo recente, mudou, devagar, o retrato das gentes – chique habitar nos clássicos bairros pobres da cidade. Tetos e janelas altas, escadas de madeira e corrimões atraem quem, de bom gosto, procura diferença d’antanho e pode de apartamento gasto fazer arte.

Com a patina do tempo – visão romântica da pintura descascada que a acidez da chuva sulcou de negro – o bairro laborioso tornou-se lar de terceira idade; apoio domiciliário substituído pelo comércio de vão de escada. O Sr. Zé que vende frutas, legumes e básicos de sobrevivência, dá o alarme se contabiliza baixas nas visitas diárias. O mesmo com a Cidália que limpa as escadas de para cima de meia dúzia de prédios, ou a D. Joaquina que, atrás do balcão, bem conhece os fregueses da leitaria herdada do defunto _  “Mais valia tê-la vendido quando o «chinoca» quis comprar, mas que quer?, ensimesmou que gente daquela nem vê-la e olhe no que deu! Enfiou-me neste prisão. O enterro, que Deus o tenha, meio ano depois. De nada valeu a esquisitice porque o chinês abriu loja duas portas a seguir.”

Deslustra o bairro não ter marcha que arrebate troféu na dengosa Avenida em noite de Santo António. Merece olhar de esguelha pelo acesso direto ao humilde bairro da Liberdade prás bandas da Serafina. Falta-lhe o sortilégio do vizinho Campo de Ourique, cujo comércio a nata social (re)descobriu, ou o elitismo da Lapa. Não é uma das setes colinas engendradas pelo frade Nicolau de Oliveira à imitação de Roma – São Vicente, Santo André, Castelo, Santana, quinta S. Roque, Chagas e a sétima, a colina de Santa Catarina do Monte Sinai desdobrada em socalcos para o rio.

Bastando o bastante, em Campolide e desde o meio das manhãs, cheiro a frango assado anula «perfumes-de-sair» das poucas senhoras de sobrancelhas de lápis destacadas no pó-de-arroz.

Amoreiras e Campolide ainda extremam segmento de idiossincrasias duma cidade impiedosa no arrumo das classes sociais.

Sobre Maria do Céu Brojo

No tempo das amoras rubras amadurecidas pelo estio, no granito sombreado pelos pinheiros, nuas de flores as giestas, sentada numa penedia, a miúda, em férias, lia. Alegre pelo silêncio e liberdade. No regresso ao abrigo vetusto, tristemente escrevia ou desenhava. Da alma, desbravava as janelas. Algumas faziam-se rogadas ao abrir dos pinchos; essas perseguia. Porque a intrigavam, desistir era verbo que não conjugava. Um toque, outro e muitos no crescer talvez oleassem dobradiças, os pinchos e, mais cedo do que tarde, delas fantasiava as escâncaras onde se debruçaria. Já mulher, das janelas ainda algumas restam com tranca obstinada. E, tristemente, escreve. E desenha e pinta. Nas teclas e nas telas, o óleo do tempo e dos pinceis debita cores improváveis sem que a mulher conjugue o verbo desistir. Respira o colorido das giestas, o aroma dos pinheiros nas letras desenhadas no branco, saboreia amoras colhidas nos silvedos, ilumina-a o brilho da mica encastoada no granito das penedias.
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6 respostas a Do casario, a patina

  1. ERA UMA VEZ diz:

    Cores de solidão e de passado
    nuances de vida transformada pelo tempo
    (sempre o tempo)

    Ele que planta
    que transplanta
    que replanta restos

    e transforma
    e desenha rugas e fissuras nas casas e nos gestos
    que inventa sinais no corpo da gente
    com as cores que arranca das paredes mestras

    e quem amou…amou
    quem não o fez perdeu
    sorrir e viver é o que resta(digo eu)
    e o que passou passou

    afinal sempre foi assim
    alguém te enganou???

  2. Maria do Céu Brojo diz:

    Comentário que me desvaneceu.

  3. Maria, o cheiro a frango assado é da Valenciana, não é?

  4. nanovp diz:

    Para quem vive em Campo de Ourique , Campolide, com ou sem frango assado, é como um primo afastado, vive ao pé mas vê-se pouco…

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Tal qual. Mas o primo existe e “sofre das boas e bonitas” (outra expressão beirã que neste momento lembrei).

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