Douce France, cher pays de mon enfance

Mais oui, il y a des jours que acordo francês. Francês todinho, com a única diferença de que tomo duche à mesma (eu sei que a piada é racista e de mau gosto, mas não resisto).

Reinvento, nesses dias, um passado que não tive. Ou melhor, que tive efemeramente, mas que revivo como se esses fossem os dias normais da minha juventude. Saio da Avenue Henri Martel direto ao Trocadéro, passo ao lado do pont d’Ièna, do pont de l’Alma, do pont Alexandre III, subo à Madeleine e daí à Opera é um passo. Começo, no Café de La Paix a beber cerveja trapista enquanto como um croque-monsieur. Desço pela Place Vendôme às Tulherias e acabo no Pont des Arts. Monumental botellón, que parece que ainda não tinha sido inventado nos meus 17 anos… mas tinha! Ou então fomos nós que inventámos. Ali mesmo, no Pont des Arts!

De seguida sim, havia um em seguida, cantava-se o Fernande e o Brave Margot (que por decência não reproduzo, as menos que peçam muito) a caminho do Boulevard Saint Germain, onde insultamos os clientes do Lipp, respeitáveis e familiares, tipo Manuel, (ou herdeiros tipo Diogo, li eu nos comentários). Berrávamo-lhes o Brel – Les Bourgeois c’est comme les cochons, plus ça devient vieux, plus ça devient bête…

Findava a noite; metro para a Pompe e casa. No dia seguinte já era tuga outra vez e sentia  a pátria a ouvir Amália num transístor fanhoso de um emigrante na Place Bolivie.

Ó valha-me Deus e é com memórias destas que, quando sou surpreendido pela canção do Trenet, hino de resistência nos anos negros da guerra, me desfaço em lágrimas. Porra! Nunca fui francês! Mas como eu lamento as pessoas que nunca souberam, como eu soube, o que era ser isso.

 

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom. Sem nunca me levar a sério - no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom (e barato).
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7 respostas a Douce France, cher pays de mon enfance

  1. Gonçalo diz:

    Oh Henrique devias escrever um livro. Biográfico. Tenho a certeza que seria um thriller de primeira!

  2. Ivone Costa diz:

    Parafraseando o outro, on est de nos rêves comme d’un pays.

  3. Rosa Maria diz:

    Quando é que sai o livro ? no próximo natal ?

  4. Henrique, desculpa, o que é “tomar duche”?

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