É do Feio o tratado

Cruzeiro Seixas

Cruzeiro Seixas

Do Feio, reza a história das artes e da filosofia. Desconheço se Savinien de Cyrano possuía a disformidade inspiradora da peça de Rostand. Fatos são Savinien ter acrescentado ao nome “de Bergerac” e estarem os seus despojos corpóreos sitos no Cemitério do Père-Lachaise.

Ragueneau, personagem da peça, improvisa:

“Pintor algum jamais desenhará

perfil semelhante ao de Bergerac;

mais bizarro, excessivo, extravagante,

grotesco, caricato e petulante!

Penacho no chapéu, capa e espada,

corajoso não perde uma estocada!

Fingindo um rabo-de-galo insolente

empina-se e enfrenta todos o Valente!

Exímio espadachim, consigo porta

uma crista esquisita, rubra, torta…

Um nariz! Mas que penca gigantesca,

feia, disforme, polichinelesca!

Todos que vêem um narigudo tal

pensam: Ah Meu Deus, que hipérbole nasal!

Não seria melhor tirá-lo? Engano!

Jamais o tira o intrépido Cyrano!”

Mário Eloy

Mário Eloy

Aristóteles distinguia o Belo e o seu oposto: o primeiro como um indicador de virtude, o Feio como o mal e o seu sinal. Os conceitos primários de hoje quase cópia daqueles. O Feio domina aparições dum real feito de sombras e de medos. Associado ao cómico e ao obsceno. À dor. À doença. À fome. À guerra. À exclusão. “É considerado feio o rosto dos excluídos, o trabalhador rural, as mãos embrutecidas do operário. É preciso uma estética de libertação a partir dos oprimidos, que são a maioria da população que não se encaixa nos padrões de beleza”, li por aí. E negamos o desagradável. Afirmamos, socialmente, não existirem pessoas feias, idiotas ou malvadas. Mas não existindo o pouco inteligente o feio e o malvado, como haver o superdotado, o belo e o bondoso?

Eduardo Batarda . Cena Canalha

Eduardo Batarda . Cena Canalha

Beauty is in the eye of the beholder”, lugar-comum que exclui o Feio. Feio, do ponto de vista de alguém, nada mais. Nas vanguardas do século XX, surge o triunfo do Feio também como contrapoder. A fealdade portuguesa pela mão do Almada, do Amadeo de Souza Cardoso, dos expressionistas Mário Eloy, Pomar, Júlio Resende, dos surrealistas Dacosta, Cruzeiro Seixas. Nos percursos de Paula Rego, Bértholo, Eduardo Batarda. Todos dando corpo a uma “bela fealdade” contemporânea.

Bernardo Pinto de Almeida escreveu: “O Feio é a irrupção do expressivo. Enquanto houver fealdade, há esperança e utopia.”

Sobre Maria do Céu Brojo

No tempo das amoras rubras amadurecidas pelo estio, no granito sombreado pelos pinheiros, nuas de flores as giestas, sentada numa penedia, a miúda, em férias, lia. Alegre pelo silêncio e liberdade. No regresso ao abrigo vetusto, tristemente escrevia ou desenhava. Da alma, desbravava as janelas. Algumas faziam-se rogadas ao abrir dos pinchos; essas perseguia. Porque a intrigavam, desistir era verbo que não conjugava. Um toque, outro e muitos no crescer talvez oleassem dobradiças, os pinchos e, mais cedo do que tarde, delas fantasiava as escâncaras onde se debruçaria. Já mulher, das janelas ainda algumas restam com tranca obstinada. E, tristemente, escreve. E desenha e pinta. Nas teclas e nas telas, o óleo do tempo e dos pinceis debita cores improváveis sem que a mulher conjugue o verbo desistir. Respira o colorido das giestas, o aroma dos pinheiros nas letras desenhadas no branco, saboreia amoras colhidas nos silvedos, ilumina-a o brilho da mica encastoada no granito das penedias.
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25 respostas a É do Feio o tratado

  1. Maria do Céu Brojo diz:

    Complemento:

  2. Olinda diz:

    fiquei a pensar no quanto, beleza e fealdade, têm de mistério.

  3. Maria do Céu Brojo diz:

    E pelos mistérios progredimos ao querer desvendá-los.

  4. Pedro Bidarra diz:

    O feio tem tanto que se lhe diga. Na boca o “feio” é: o salgado, o ácido, o amargo, o picante e o adstringente. O belo é o doce.

  5. Maria do Céu Brojo diz:

    Tudo isso e mais à escolha de cada um. E o picante, seja na boca ou noutro lugar sensorial, pode ser doçura memorável.

  6. Carlos diz:

    Para onde vão os feios quando morrem?

  7. António Barreto* diz:

    Caramba!…só faltava este, dirão…mas…gritava o bom do António Silva da janela , insultando os importunos foliões:.. -seus fadistas! Serão, ainda, os (as) Fadistas feios?

  8. Quando se diz, “Portugal está cada vez mais feio”, poderá dizer-se que isso é o triunfo de Portugal?

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Portugal não é feio, pintam-no como tal os mandantes incompetentes que de paletas esperançosas nada sabem. Sai, injustamente, feio o povo triste e obediente. Triunfo de Portugal? _ Nem no futebol.

  9. nanovp diz:

    E pode haver belos no passado que hoje nos aparecem feios e horrorosos….(não, não estou a falar de política!!)

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Nem eu. Mas é consensual a mutação dos conceitos de Belo e de Feio ao longo dos séculos e nas vidas pessoais. As «cheinhas» de Renoir, descontando a técnica e o talento do autor, como considerá-las hoje sob os holofotes da modernidade?

  10. Cão do Nilo diz:

    Só há uma garantia segura para a virtude das mulheres: a fealdade.

    Séneca

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Tão mau! Os deuses lhe perdoem e ao Séneca que afirmou tal macha «bacorada». 🙂
      Do mencionado, segue outra: “Hay cosas que para saberlas no basta con haberlas aprendido.”

  11. Cão do Nilo diz:

    The other side of the switching coin: Quem o feio ama…. bonito lhe parece. 🙂

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