E ter saudades do que não se fez, como se chama?

Eu sou reativo (sem c). Reajo ao ponto de me poderem considerar reacionário. Assim, reagindo à ideia de esperança da Ivone, reajo à falta de c nos fatores associados ao interesse sexual (sem me armar demasiado em parvo, se é possível, direi que o meu interesse sexual não varia consoante a abertura da vogal e que defendo o acordo ortográfico mesmo na cama), embora no restante concorde bastante com o artigo que a Eugénia escreveu hoje no ‘Público’. Mas adiante!

A questão é que a esperança, caríssima Ivone, não corresponde ao pode-ser-que. A esperança é um sentimento que nasce a cada momento adverso, pois sem ele (ou sem ela, a esperança), nem poderíamos reconhecer esse momento como mau. É assim que Vinicius a definiu, na canção ‘Samba da Bênção’ – “a tristeza tem sempre uma esperança de um dia não ser mais triste”.

A frase à entrada do Inferno “O vós que aqui entrais abandonai toda a esperança” simboliza bem o lugar. Talvez por isso, nesta mania de modernices, a própria Igreja Católica tenha definido o Inferno como o lugar de ausência de esperança. Ou seja, onde o momento mau jamais termina per omnia saeculo saeculorum.

A esperança é diferente da ambição e o oposto da ganância. Apenas pretende a recomposição de um equilíbrio, de uma justiça, ambas perdidas por uma contingência. Talvez por isso ela não seja, de facto, uma virtude, mas aquilo que o FMI chamaria um estabilizador automático; um sentimento inerente à preservação da vida.

Mais do que esperança, eu agora tenho saudades. Sobretudo de coisas que nunca fiz – estar dentro de um armário, ou saltar pela janela quando chega o marido da amante; estar numa rua do Texas quando dois pistoleiros decidem a vida num duelo; já ter feito bungee jumping; ter visto uma largada de touros em Pamplona na companhia de Hemingway; ser testemunha do primeiro abraço quando caiu o muro de Berlim. Estas saudades serão impossíveis? Não sei. Não sei como se chama o sentimento, mas esperança não é.

RUNNERS LEAD FIGHTING BULLS AROUND ESTAFETAS BEND DURING RUNNING OF THE BULLS IN PAMPLONA

E eu, ali, ao lado do Hemingway, a ver as festas de San Fermin

Acreditar que ainda os posso viver também não corresponde a qualquer ato esperançoso. É uma nostalgia do impossível. E isso sim, cara Ivone, corresponde inteiramente à tua descrição: “É um fogo-fátuo, um capri­cho da ingenuidade”.

Havemos de falar mais nisto.

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom.
Sem nunca me levar a sério – no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom
(e barato).

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25 respostas a E ter saudades do que não se fez, como se chama?

  1. Ivone Costa diz:

    Falamos sim, desde me afiances a pés juntos se, realmente, faz parte teu leque de saudades do impossível não ser apanhado pelo marido da amante.
    E por que razão pensar que, quando escrevo estas coisas, não é já dos propileus do Inferno que estou a falar? Meu querídissimo, toda a esperança se molda com, pelo menos, dois terços de ambição: a de deixar de viver o que se vive no momento em que se tem esperança de deixar de o viver. É ambição, uma válida ambição. a ganância é coisa de outro departamento.
    O que é fui arranjar …

  2. Henrique Monteiro diz:

    Não juro nada. Eu depois de escrever fico com dúvidas. Ainda bem, se as tivesse antes de escrever, nunca escreveria – não é que o mundo perdesse alguma coisa, mas eu havia de ficar ressabiado. A ambição, mesmo a melhor, não é uma esperança. A ambição é querer o melhor, a esperança é sair da miséria. Ninguém tem esperança de barriga cheia.
    Falaremos…

  3. Fónix! Grande malha!

    Se bem o entendo caro Henrique: esperança será a compulsão da sobrevivência e ambição a ótimização das capacidades ao serviço de um ideal?

    (Ainda não li o texto da Srª Ivone, mas lê-lo-ei)

    (propileu? Ai jasus!)

    • Henrique Monteiro diz:

      Podia concordar com essa definição, mas por principio geral não concordo com ninguém. De facto, a esperança é o sentimento (ou a ventura) que nos retira do vale de lagrimas em que habitualmente cai a nossa vida. Ambição não é sair daí. Ambição é querer ter mais – seja dinheiro, seja distinguo – do que é necessário, tornarmo-nos notados…. 🙂

      • curioso (espantoso) diz:

        esperança é confiar (quase ter fé) que um sonho há-de realizar-se, um pesadelo há-de dissolver-se, um sol animador há-de voltar a raiar.

        ganância é bem o que aqui diz, talvez mais forte ainda, uma sede que ignora a saciedade.

        saudade é sempre de algo amado, querido, vivido que se perdeu, para sempre ou até por algum tempo.

        nostalgia é saudade noutras linguagens, sendo a saudade só portuguesa?

        • António Barreto* diz:

          Noutras linguagens? Nostalgia será o sentimento de carência de algo indistinto? Será uma espécie de integral de todas as específicas saudades? (desculpem mas o chinelo estava ao pé).

    • Ivone Costa diz:

      Caro magnocatulo

      “Propileu” que significa, como bem saberá, “limar”, “vestíbulo”, “pronau” usa-se, de habitual, para referir a entrada de um templo antigo. Trago aqui a palavra de uma forma muito metaforizada. Espero ter resolvido o “Ai jasus”

      Srª Ivone

  4. Um belo desacordo é uma boa coisa: espero que o acordo ortográfico ainda nos dê alegria discutível e seja o primeiro de muitos desacordos.

    • Henrique Monteiro diz:

      Certíssimo. Gosto de concordar em discordar. Mas, mais a sério, o texto do ‘Público’ é muito bem observado. Todos os pormenores nos empurram para uma simplificação que se torna algo boçal e nem damos por isso. De facto, já colher a sério ou um pires por baixo da chávena fazem falta à civilidade.

  5. Maria1919 diz:

    Também há as saudades do futuro

  6. Maria do Céu Brojo diz:

    Nostalgia.

  7. Henrique, sempre achei que era possível sentir saudades do que não se fez ou de onde não se esteve.:) Acontece-me, e é isso. Quanto ao texto da Ivone, já o conhecia do Ronda e inspirou-me um meu, mais simples, claro, mas meu e valendo o que vale. Aqui fica o link, se se der ao trabalho de passar por lá.

    http://aefectivamente.blogspot.pt/2012/11/vale-pena-ter-esperanca.html

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