Ele fez um que eram dois

 

 

Os dois são um

Os dois são um

Façamos um molde de terra (ba adamâ) à nossa imagem, disse Deus. Para ficar com o nosso estilo (demût), a dar-nos ares, a fim de comandar os peixes no mar, as aves do céu, os animais em toda a terra e todos os pequenos seres que rastejam.

E Deus criou o molde de terra à sua imagem, criou-o à imagem de Deus e criou-os homem e mulher. Então abençoou-os e disse-lhes: cabe-lhes serem fecundos e multiplicarem-se.

(Toda a tradução é uma traição e esta é uma tradução de uma tradução do hebraico, sacada da já aqui referida La Bible da Bayard).

O Adão, o terroso (ba adamâ), ou molde de terra, levantou-se e viu que ele não era um, mas dois. Era um ser separado bisonho e feio. E cheio de pó. Apalpou as costelas e viu que tinha todas. Pensara que lhe tinham extraído uma, coisa estranha… E tinha uma vontade incrível de se juntar à outra parte de si, uma parte estranha, relativamente diferente, mas que se poderia dizer à sua imagem e semelhança.

Eva, a terrosa, ou molde de terra, levantou-se e viu que ela não era uma, mas duas. Era um ser separado bisonho e feio. E cheio de pó. Ao ver o seu outro pedaço apalpar-se sentiu uma vontade estranha de se unir, de juntar-se no único ser que era. As diferenças entre as peças eram mínimas e, tudo o levava a crer, encaixavam na perfeição.

Encaixou-se.

E a seguir teve fome e comeu. Teve sede e bebeu. Quis comunicar e falou chamando às coisas os nomes que as coisas deviam ter. Por fim, quis saber porque eram assim as coisas, porque eram dois em um, porque encaixava e gostava de encaixar e como tinha ali aparecido.

Quem era?

De onde vinha?

Para onde ia?

Apanhou uma maçã, mas na altura de a comer sentiu-se dividido. Devia comê-la? Sim? Não? Sim?

Comeu-a.  Era bom. Iniciou, então, a caminhada. As suas duas partes, lado a lado, foram percorrendo os caminhos vazios, os desertos sem pista. E as pegadas, as marcas, os sulcos foram ficando. E outras peças se seguiram nas primícias – Caim, Abel e tantos que continuaram a deixar marcas por onde passavam.

E lá em cima, deus, contente, referiu a si mesmo, pois não tem com quem falar: não sei se era isto que eu queria. Mas lá que é bonito, é.

 

 

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom. Sem nunca me levar a sério - no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom (e barato).
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14 respostas a Ele fez um que eram dois

  1. Ivone Costa diz:

    Lá que é bonito é. O texto, esse é belíssimo. Gostei sobretudo do chamar às coisas o nome que as coisas deviam ter. Muito Crátilo e por aqui se prova que isto andou sempre tudo ligado.

  2. Pedro Norton diz:

    Genial!

  3. O que, tendo Deus criado o molde à Sua imagem, e sendo a Sua imagem a de Adão e a de Eva, levanta a questão da bissexualidade de Deus… Ou a do Seu hermafroditismo. Well done.

  4. Hoje estou para Dupont: well done.

  5. Rita V diz:

    « je dirais même plus » Ah! very very well done para Dupond

  6. António Barreto diz:

    Pensou isso só no início, claro. Mais tarde não achou graça nenhuma!

  7. Maria do Céu Brojo diz:

    Isto de não ter com quem falar é «lixado». Uma maçã ou equivalente legislado pode arrebentar com o fígado de qualquer um. Depois, vem a pergunta: – ” De que te ris palhaço?”. Mas isto é para os terreais, não para Deus.

  8. António Barreto* diz:

    Isto é melhor que o soduku. O texto está delicioso. Bem ao estilo do autor.

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