Est-ce que tu vraiment bandes?

Metem-se comigo e depois dá nisto. Logo eu, que também fiz de la France o cher pays de mon enfance durante os bons onze anos que passei no LFCL (a sigla é facilmente identificável, mas para quem não chegue lá só vos digo que a minha França ficava nas Amoreiras, ainda sem centro comercial, porque disso, à época, só mesmo o Imaviz e, com um bocadinho de esforço, o Apolo 70). Logo eu que cheguei a sentir nas narinas a estranha relação dos enfants de la patrie com a água (ó Henrique, somos dois com mau gosto). Logo eu que, ia eu nos meus dezoito anos, levei uma grande lição enquanto trauteava o Fernande pelas ruas de Paris. Uma lição que me poderia ter custado um trauma sexual para a vida toda. O Henrique escusou-se de reproduzir a letra invocando a decência. Excesso de zelo porventura, considerando a bandalheira que por aí anda entre Soraias e Marias José de Água Pé. Mas a verdade, verdadinha, é que um homem não se pode arriscar a cantar o Fernande em público. Só mesmo o Brassens. Duvidam? Experimentem lá então os atrevidotes. Vão ver o que vos espera. Gritem lá a plenos pulmões o efeito que vos provocam a Fernande, a Félicie e a Léonore. Quando chegaram à Lulu e ao efeito que ela não vos provoca, vão ter a resposta que merecem. Eu que o diga. Estavam os meus dezoito anos numa de provocação pelas ruas de Paris, Fernande para aqui, Félicie para ali, Léonore para acolá, sem reparar que, dois passos à minha frente, une très belle fille, assim entre a Sophie Marceau e a Emmanuelle Béart, fazia parar o trânsito com um estrondo que só os meus ouvidos moucos e a minha ridícula voz não captavam. Imaginem lá que, só quando cheguei à parte gaga da Lulu, me apercebi do porte da mademoiselle. E só porque ela, cansada da minha provocação de mau gosto, se decidiu virar na minha direcção – e com ela as dezenas de olhos pregados no seu corpo de deusa – para me atirar à cara o mais merecido insulto que alguma vez uma mulher me dirigiu: “LE PROBLÈME EST: EST-CE QUE TU VRAIMENT BANDES?” (para quem ainda não tenha apanhado o significado do verbo bander, impõe a decência apregoada pelo Henrique e a minha colossal vergonha que não seja eu a explicar-vos).

Não se queiram dar ao trabalho, por favor, de imaginar o que são dezenas (que me pareceram centenas) de gargalhadas trocistas a exporem um homem ao ridículo durante os intermináveis segundos (que me pareceram minutos, mesmo horas) em que durou a lição da mademoiselle. Não se queiram dar ao trabalho de imaginar o que essas gargalhadas me perseguiram sempre que une très belle fille me aparecia pela frente nos tempos conturbados de pós-adolescência que se seguiram. Escusam de me pedir de joelhos que vos reproduza aqui mesmo, cantada com as letras todas, a chanson maudite que me ia levando à desgraça. Não me atrevo a pôr homem nenhum a cantá-la. Nem sequer o Brassens, seu desavergonhado autor. Agora, jogo pelo seguro: o máximo que me conseguem sacar é uma versão cantada por uma mulher que fez e faz bander até o mais assexuado dos homens.

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.
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18 respostas a Est-ce que tu vraiment bandes?

  1. Ivone Costa diz:

    Et maintenant c’est à moi de vous demander: qu’est-ce que vous avez répondu à la pulpeuse demoiselle?

    • Diogo Leote diz:

      Madame Ivone, une telle question, posée par une si charmante jolie fille, a l’effet d’un coup de poing du plus fort boxeur. Eh oui, un ko sans appel possible.

  2. Henrique Monteiro diz:

    Serait-ce la pulpeuse demoiselle cette fille-là qui disait: Lulu? Oui, c’est moi?

  3. Et quand je pense à Bruni, je bande aussi. Je vous comprend très bien, cher Diogo Leote. Merveilleuse petite (grande) histoire.

    • Diogo Leote diz:

      Comme on dirait a papa, la bandaison ça ne se commande pas. Merci par vos paroles, cher Manuel Margarido.

  4. Mas o que é que se passa com este blog que está de estandarte ao alto desde que começou 2013! Será isto a crise? A Soraia de Pedro, o Eros de Eugénia, a Água Pé de Bidarra, a maminha da Margot do Henrique… Mas como é que esta gente passou o Fim de Ano?

  5. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Ó menino Diogo, o que gostei de rever aqui os seus inéditos dezoito anos.

    • Diogo Leote diz:

      Menina Eugénia, felizmente levei a lição na altura certa. Os dezoito anos servem para isso mesmo.

  6. É um país de poupées la France:

  7. Maria do Céu Brojo diz:

    É hoje a terceira vez, mas que fazer quando o meu retrato está aqui:

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