Fala de Dona Ana de Mondonça a Dom João Segundo. Exercícios sobre História. Dois.

 

Nos teus mapas, senhor,
os cartógrafos desenharam uma orla de segredos,
pintaram os ventos e as rosas,
dragões de limos
na gávea de um sonho.
Também a mim, senhor,
pediste silêncio sobre a noite e sobre o mar
que se me encapela na pele,
trova de amor murmurada
contra o branco linho onde te espero.

Nos meus braços, senhor,
a tua voz acende a Lua Nova,
desata a imparável queda das palavras.

 

Sobre Ivone Mendes da Silva

Entre lobos e anjos me habituei a escrever. É talvez por isso que, para além de asas e de uivos, as palavras me tropecem e não encontrem sozinhas o caminho das folhas. Nessas alturas, peço para elas a bênção da tristeza, musa de sopro persistente, que triste me faz e a acolhedoras mesas me senta.
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23 respostas a Fala de Dona Ana de Mondonça a Dom João Segundo. Exercícios sobre História. Dois.

  1. Ivone, grandes poetas eram os cartógrafos…

  2. Carlos diz:

    As palavras que cuspo
    Apanhai-as, senhora
    São o meu maior tesouro
    Mandarei o meu servo buscá-las

  3. fgh diz:

    Creio que não conhece a resposta de D. Ana de Mendonça a seu filho, D. Jorge de Lancastre.

    • Ivone Costa diz:

      Caro anónimo, pois se crê que hei-de eu fazer? Há lá coisa melhor do que ser rápido nas conclusões?

      • fgh diz:

        Melhor? Conceder dons divinatórios a gente sensata e posta por junto, como era D. Ana. Incapaz de um anacronismo, foi cumpridamente a concubina fugidia de um príncipe herdeiro – não do D. João II que Fernando Pessoa concedeu ao gosto nacional por políticos celerados.

        • Ivone Costa diz:

          Caro anónimo, pois não vê que o meu texto é simples ficção poética, coisa de pouco merecimento? Não é tese nem argumentação, é liberdade poética e assim deve ser entendida. Ou, então, passar adiante sem ler, que é o destino que devem dar aos meus poemas os leitores mais dados a textos onde se requeira, aí sim, outro nível de verdade.

          • fgh diz:

            Algum merecimento lhe acha, que o publicou.
            Aponta-se um erro, como o que Borges achou que tinha o seu Os Borges quando soube a idade de D. Sebastião. É um paralelo lisonjeiro, conceda. Aqui, atenta a personalidade de D. Ana – que não concebia que senhoras não casadas tivessem filhos e isso mesmo disse um dia ao dela – e os tempos, parece-me que a atmosfera se apropriaria mais a tempos de albas e barcarolas – com o que poderia manter a cartografia e o geral da imagística.

  4. nanovp diz:

    Já não se fala assim, ou é impressão minha?

  5. “os car­tó­gra­fos dese­nha­ram uma orla de segre­dos”… ou talvez a pensar nas amadas, distraídos, a tenham tecido.Certos erros explicar-se-iam assim, mais do que por segredos e política.
    A Ivone tece com as palavras. Isso é seguro.
    🙂

    • Ivone Costa diz:

      José Manuel, um cartógrafo a pensar na amada erra latitudes e longitudes, embora a arte de marear tenha muito que se lhe diga … 🙂
      Obrigada.

  6. O que eu gostei desta fala, Ivone. Qual exercício, esta’ dito e aconteceu, pois claro. Não se pode pedir silencio a quem fala assim.

    • Ivone Costa diz:

      Gostei que tivesse gostado, Teresa. Dá-me às vezes para estes exercícios, coisa de faz de conta.

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