Lá em casa

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VÃO VER
No mundo em que vivi em pequena havia não existências concretas como os fantasmas que andavam pela casa: ninguém os via, porém lá estavam eles. As luzes acendiam-se de repente às quatro da manhã. O chão estalava e os móveis rangiam. As más línguas podem dizer que não, não eram eles, eram os fios eléctricos e todas as adições entubadas, canalizadas, mais os acrescentos feitos a uma casa tão velha que se arrastava em mais de duzentos de anos de arranjos. Concedo: os móveis, talvez fosse reumático e dores nas articulações: as cadeiras, por vezes, não se aguentavam nas pernas.

O corredor, por exemplo, fora uma invenção já ninguém sabia de quando ou a mando de quem. Não havia corredor antes, havia salas de portas comunicantes – aliás, na parte que não foi mexida passava-se de uma sala para outra e isso não chateava ninguém. O eco a caminho da cozinha, esse era coisa novinha em folha, era de quando a minha mãe nasceu. Criara-se um escritório roubando à altura maluca do tecto  – os fantasmas eram voadores por alguma razão, agora, nos apartamentos, aposto, usam as perninhas. A pedra que forrava o chão era dura a estrear e a guarda das escadas modernaça e tal. Fazia eco e nós fazíamos uma gritaria até sermos enxotados pelo primeiro adulto passante.

Bonita era, no entanto, a saída que de lá nasceu directa para o telhado e os ninhos das minhas andorinhas de penas em azul hipnótico escuro.

O telhado era uma grande liberdade estendida ao sol de cabeça para baixo e pernas para cima, os líquenes nas telhas, os primos e a minha cadela, um bicho esguio de preto de uma atenção afilada, e eu, todos deitados ao solinho de inverno a fazer praia, grandes braçadas no céu e mergulhaços nas nuvens.

O telhado era proibido e a porta estava sempre fechada. Porque uma vez escapuli-me, subi até ao alto. Dizem que é impossível que lembre. Que era muito pequenina. E lembro, não o acontecimento, isso não, de facto, mas da sensação, o peito cheio de ar, feliz sem saber o que é isso de felicidade, da vista, de ir voar e de uma grande interrupção, um susto todo preto e mais nada. Segura por uma perna pararam-me o corpo já em voo.

Até aprender a ler fiz coisas que nem vale a pena contar para não passar por mentirosa. Depois deve ter ido tudo para dentro das páginas e amainou. E estou convencida de que não voltou porque o que se escapa vai de bicicleta, na yoga, vai sei lá onde… vai onde não vou, de certeza.

Não me devia lembrar porque lá em casa as crianças não tinham querer, não te lembras e pronto, nem o verbo querer havia para as crianças. Nunca disse que não fosse corrigida: quero. Tinha de dizer: gostava. Querer era uma não existência, era um fantasma e voava. Também não havia dinheiro – mesmo enquanto houve era fantasma: não se falava disso, não se dizia dinheiro nem quanto custa, era tão feio como depois no colégio perguntar se a Virgem Maria dormia com o São José. E de saúde estava-se sempre bem até ao dia do funeral. Morria-se, assim era a vida, e se fosse triste, sê-lo-ia no escuro privado do quarto de cada um, pois de outro modo seria uma falta de consideração pelo bem estar dos outros.

A minha avó comandava as tropas. Adiante do batalhão, claro, para que não houvesse desculpas. Eu andava-lhe na sombra – a caminho de Sevilha teve a minha mãe de voltar para trás: acho que a avó vai sentir muito a minha falta, não vai aguentar. É que não vai aguentar – não ia dar parte fraca. Se não lhe andava na sombra estava foragida na cozinha, no quintal. Ou mais longe. Fugas pelo portão das traseiras estendiam-se até à olaria, ao sapateiro, as pessoas entravam e diziam: vizinho sapateiro… todavia, vizinho ou não, nunca podiam as meias solas ser para o dia pretendido. Eram dois grandes amigos de conversas sem fim, e para a livraria das comunistas, e para a mercearia, minha caverna de ali babá particular. Adorava aquilo tudo, balcão, fregueses, o grão de bico cantava na medida de metal, era meio litro, se faz favor, a caixa de rifas da Regina de furar e sair uma bolinha cor de sorte, o livro onde se punha na conta, pode assentar, e ele assentava letras e números em agudos bem apontados no livro, o entra e sai, conversas inéditas cheias de impronunciáveis como o nome de Deus, por exemplo: entrevadinha. Coitada. A telefonia pendurada por uma fita ao pé do bacalhau debitava canções que em menos dum fósforo aprendia de cor e cantava depois, rua da amargura, rua feia e escura, rua sem amor, desde que partiste ela é rua triste, é rua de dor,  até que a minha avó: que despropósito, cale-se.

O raio da circunferência era conhecido e a partir do centro, uma vez dado o alerta de desaparecimento, era fácil à minha avó estender o longo braço. Ou nem precisava. Só correu mal com o circo. Contudo, na feira do ano seguinte até os leões nas jaulas sabiam quem eu era e lá fui de roda batida. Como os cães vão à lenha, caçam os ratos para os donos e os deixam à entrada da porta da cozinha, assim era eu, um rato devolvido à porta. É destemida diziam. Não era. Nunca fui. Que pena. Nunca quis fugir. Precisava de ir à minha vida, sempre precisei. Às vezes rosnava um não há respeito pela liberdade de uma pessoa. Vão ver. Qual quê, quem via sei bem quem era: tu não és uma pessoa, és uma criança, quando é que entendes.

Nunca.

Não havia liberdade. Tudo como deve ser, afinal, se mesmo hoje, em cada vez que me estatelo no chão acredito que voarei. Vão ver.

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.

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6 respostas a Lá em casa

  1. Paula Santos diz:

    Estou a ver que não seguiu o meu conselho de continuar a escrever assim..escreveu melhor. 🙂
    Que bom não seguirmos conselhos, não é?
    Que texto bonito!
    Obrigada.

  2. Maria do Céu Brojo diz:

    Histórias de infâncias com semelhanças. Uma das diferenças: eu trepava ao telhado escondida de todos.
    Como estes textos de memórias me fascinam… Este, então, é delícia.

  3. nanovp diz:

    Escondi-me debaixo da cama, submerso num mundo de imagens e memorias que o texto espicaçou…

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