Filmes-Orfãos 3: “Seconds”

"Seconds", de John Frankenheimer

“Seconds”, de John Frankenheimer

O cinema transborda de segundas oportunidades. O cinema é uma segunda oportunidade: o heroísmo que nunca se teve (Douglas Fairbanks, Errol Flynn, Toshiro Mifune, Belmondo, Harrison Ford), as mulheres nunca conquistadas (Clara Bow, Jean Harlow, Rita Hayworth, BB, Kim Basinger), os sonhos reencontrados – superar os obstáculos, jamais morrer, amar sempre. Há mesmo um subgénero de fitas dedicadas às second chances. Atingem toda a ordem de protagonistas, do “Lord Jim” de Joseph Conrad, Richard Brooks e Peter O’Toole ao Jesus de Kazantzakis, Schrader, Scorsese e Willem Dafoe, que aspira a uma “vida normal” no epílogo de “A Última Tentação de Cristo”.

Em “Do Céu Caiu Uma Estrela”, James Stewart está falido, tem a família em perigo, uma vila inteira depende das suas boas graças e ele fracassou. Só lhe resta morrer. Mas há um anjo a oferecer-lhe uma segunda hipótese. É a superação das limitações humanas, e da inexorabilidade do tempo, que apenas o cinema nos consegue oferecer.

“Seconds”, longa-metragem dirigida em 1966 por John Frankenheimer (1930-2004), é o negativo fotográfico das segundas oportunidades. Peter Wilshire chamou-lhe “um dos filmes mais deprimentes de sempre”. Tem razão. É também um dos mais lúcidos e fascinantes.

Arthur Hamilton (John Randolph), um empresário ricaço com uma vida enfadonha, está saturado da rotina laboral, da mulher que o espera em casa, da previsibilidade do destino. Quer mudar. Manifesta esse enfado a um amigo e, um dia, tudo muda. É contactado pela Empresa, uma organização ao serviço das aspirações mais obscuras dos milionários. A Empresa oferece-lhe uma nova identidade – quem nunca pensou um dia em ser outro, noutro sítio?

Arthur quer começar de novo. Livre, com menos vinte anos, sem responsabilidades – todo um programa mefistofélico. A Empresa trata do assunto: submetido a uma cirurgia plástica, de óbito simulado e enterro encenado, Hamilton transforma-se em Antiochus “Tony” Wilson, um solteirão com o rosto de Rock Hudson (Hamilton ignora que o homem escolhido como a sua nova face fora assassinado para que ele pudesse renascer). Muda-se para uma comunidade selecta de vivendas à beira-mar, e o desejo cumpre-se: Arthur Hamilton morreu; viva Tony Wilson.

A princípio tudo corre pelo melhor. Tony instala-se numa casa moderníssima em Malibu (a vivenda do director Frankenheimer na vida real), rodeado de beleza, juventude, o cálice da imortalidade. Uma vizinha apetitosa chamada Nora Marcus (Salome Jens) interessa-se por Tony num piscar de olhos (os olhos de Salomé), e o único aborrecimento diário é não deixar que o gin se esgote. A libertação definitiva fica simbolizada numa orgia de vinho estupidamente gelado e raparigas barbaramente frescas (a cena foi rodada em Santa Bárbara com actores amadores durante o “Festival de Baco”). Tony enfia-se numa pipa enorme, pisando uvas grudado a um coro de meninas groovy tal como vieram ao mundo – é um sonho de Hemingway a meias com Groucho Marx.

Claro que Tony vendeu a alma ao Diabo e, como no “Fausto” de Goethe, é preciso pagar pela facadinha nas costas da Natureza. A nova vida é um embuste: Nora Marcus não passa de uma assalariada da Empresa e todos os companheiros do idílio junto ao Pacifíco se revelam  uma mole de velhos cansados e esposas frustradas que optaram por recomeçar do zero. Tony vacila. Embebeda-se em demasia (um oximoro), insurgindo-se contra a hipocrisia da qual é intérprete maior.

John Frankenheimer é um daqueles realizadores subestimados por décadas de filmes escorreitos, intensos, sem compromissos, exceptuando o acordo pecaminoso da comunicação com o “público”. Trata-se de um autor – se nunca lhe deram essa honra, damos nós – com tema claro e recorrente: a dificuldade individual em manter códigos de honra num mundo minado pela indiferença e a corrupção. Os anti-heróis de Frankenheimer cedem às tentações e, por vezes, à indigência, mas há uma base salvífica na sua natureza: Burt Lancaster é um condenado a prisão perpétua que mantém o espírito através da ornitologia em “Birdman of Alcatraz” (1962); os pobres flâneurs do lindíssimo “The Gypsy Moths” (1969) agarram-se à dignidade como náufragos presos a escolhos em mar alto; o agente de polícia Popeye Doyle (Gene Hackman) é humilhado, espancado e drogado durante semanas num quarto miserável de uma Marselha bafienta em “Os Incorruptíveis Contra a Droga II” (ao lado deste, o filme de Friedkin parece uma brincadeira de crianças) mas não abandona a teimosia das suas convicções, como os duríssimos cavaleiros nómadas de “The Horsemen” – outra grande fita que quase ninguém viu – ou o chantageado Roy Scheider de “52 Pick Up”, excelente thriller, também desconhecido.

Há outra obsessão: a paranoia. A paranoia que enferma “Seven Days in May” (uma conspiração militar interna quase derruba o governo dos Estados Unidos) ou o célebre “O Candidato da Manchúria” – lavam o cérebro na Guerra da Coreia a Laurence Harvey e este, despoletado pela mãe, Angela Lansbury feita viúva-negra, irá assassinar o presidente dos E.U.A., no único Frankenheimer que o grande João Bénard da Costa achava merecedor de atenção. Mas na teleologia da paranoia, não há melhor do que “Seconds”.

“Seconds” é a alucinação dos melancólicos e dos ansiosos, o reverso da medalha do “sonho americano”, pesadelo limite de um universo materialista, controlador. Fica desde logo impresso na memória pela direcção de arte de Ted Haworth e a fotografia perturbante de James Wong Howe, compositor de sombras de “Hud- O Mais Selvagem Entre Mil” (Martin Ritt) e do “Body and Soul” de Robert Rossen. Desvela também a maior interpretação na carreira de Rock Hudson, um fantasma néscio e egoísta dos seus rapazinhos bem-comportados para Douglas Sirk, Michael Gordon e as comédias sacarinas com a eterna virgem Doris Day.

No desenlace de “Seconds”, Tony Wilson regressa à clínica onde se metamorfoseou, numa promessa de recuperação da identidade original. Os corredores tornam-se mais estreitos, Tony fica preso à maca, é amordaçado. Percebe que jamais sairá da sala de operações. O pesadelo é eterno, sem regresso. Como outro ícone da masculinidade, Gregory Peck, noutra fita apaixonante de Frankenheimer, “I Walk the Line”, Tony/Rock Hudson já atravessou para o outro lado do espelho de Alice. E não se regressa do outro lado do espelho.

 Seconds

 

 

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.

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4 respostas a Filmes-Orfãos 3: “Seconds”

  1. nanovp diz:

    Tanto para ver Pedro, so little time…Perdi o “Seconds” numa retrospectiva já há uns largos anos, numa pequena sala de cinema que havia em LA (o Vista Theater)…vou ver se arranjo é o tipo de filme e tema que gosto…

  2. Este filme é tremendo e provoca mau estar, vi-o na televisão. Gostei muitíssimo deste texto, e pelas mesmas razões que lhe disse da última vez. É a diferença entre pensar bem, escrever bem, e ser escrito por um escritor que por acaso até escreveu sobre cinema.

  3. Bernardo, há uma edição espanhola em DVD, de título sublime “Plan Diabólico”, que podes encomendar pela amazon.es (versão original inglesa, legendas em castelhano, por 9 euros). Eugénia, sinto-me hiperbólico quando me chama de escritor (talvez o consiga ser um dia). É também o que penso quando leio os seus textos: uma escritora que por acaso também publica num blogue.

  4. Maria do Céu Brojo diz:

    Tal como a Eugénia, ao ver o filme na televisão, deixou-me amarga a boca. Texto magnífico, como outros, todos?, seus.

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