Galo de Barcelos à moda de Warhol

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Tinha de existir razão para o encarquilhado sorriso dos portugueses. Sim, sei, a nostalgia e a diluída crença em melhores dias esborratam o riso. Mas mais havia. Tinha de haver. Quando compatriota anónimo arredonda para cima os cantos dos lábios, a paisagem é, não raro, devastadora – dentola amarelada, vazios ocupados por gengivas descaídas, próteses bailarinas em risco de serem cuspidas, ferros dentários nas crianças, nos «menopausas» e «andropausas». Estes rangendo dúvidas existenciais sobre o desempenho sexual de hormonas resistentes.

Andy Warhol

Andy Warhol

Arreganhar os dentes não é fácil para os portugueses. Talvez por isso prefiram falar por entre dentes, dar com a língua nos dentes, dar ao dente ainda que o petisco custe os dentes da boca e só caiba na cova de um dente. Aguçar o dente é feito menos mal. Porém, muitos excluíram dos dias agarrarem-se com unhas e dentes às prioridades individuais.

Quando recém-chegado ao estado adulto que a tempo e horas teve papeira, varicela, cabeça rachada por «murraça» em briga escolar e cuida de emprego com salário digno, contrato que legalize a procriação, comida a horas, roupa lavada, casa de banho sem tapete de pelos, julga que durante anos a fio as favolas estão seguras. Eis que a inutilidade dos sisos intervém. E doem e moem e desfazem no indivíduo a convicção de vigor imune a ridículos de «cotas» que, no mínimo, três vezes ao dia esfregam os dentes nas mãos.

Autor que não foi possível identificar

Autor que não foi possível identificar

Soube, há anos, que a precária e mal cuidada dentição lusitana foi vítima de pasta de dentes falsificada. Não qualquer uma, mas a tradicional Colgate que durante anos e anos branqueou o sorriso de todos. A boa-fé do povo foi, na altura, ludibriada, a marca enxovalhada e, quiçá, para sempre saída dos copos-de-dentes perfilados sob telhado de pó ao lado das escovas do cabelo encardidas, perfumes e amostras de produtos com pedigree em dia de sorte ofertados. Falsificar a Colgate, sendo verdade a notícia, foi tão, mas tão grave que semelhante só galo de Barcelos pintado à moda do falecido Warhol.

Sobre Maria do Céu Brojo

No tempo das amoras rubras amadurecidas pelo estio, no granito sombreado pelos pinheiros, nuas de flores as giestas, sentada numa penedia, a miúda, em férias, lia. Alegre pelo silêncio e liberdade. No regresso ao abrigo vetusto, tristemente escrevia ou desenhava. Da alma, desbravava as janelas. Algumas faziam-se rogadas ao abrir dos pinchos; essas perseguia. Porque a intrigavam, desistir era verbo que não conjugava. Um toque, outro e muitos no crescer talvez oleassem dobradiças, os pinchos e, mais cedo do que tarde, delas fantasiava as escâncaras onde se debruçaria. Já mulher, das janelas ainda algumas restam com tranca obstinada. E, tristemente, escreve. E desenha e pinta. Nas teclas e nas telas, o óleo do tempo e dos pinceis debita cores improváveis sem que a mulher conjugue o verbo desistir. Respira o colorido das giestas, o aroma dos pinheiros nas letras desenhadas no branco, saboreia amoras colhidas nos silvedos, ilumina-a o brilho da mica encastoada no granito das penedias.
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12 respostas a Galo de Barcelos à moda de Warhol

  1. curioso (amarelado) diz:

    que grande desenterro de conversa fiada. mai nada. 🙁

    • curioso (asaerento) diz:

      « em: 13-07-2007, 00:00:37 »

      Segundo Manuel Lage, porta-voz da Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE), o alerta europeu pede às autoridades nacionais que estejam atentas «face a uma situação de risco», embora o caso não represente um perigo para a saúde pública, pois o consumo deste produto só seria perigoso se ingerido em enormes quantidades.

      Manuel Lage assegurou à Lusa que a ASAE estava atenta ao problema antes do alerta comunitário, e que não existe «até ao momento», qualquer indicação sobre a existência destes produtos no mercado português.

    • mariabrojo diz:

      Que música sugere para um “desenterro de conversa fiada”? 😉

  2. Rita V. diz:

    Elgydium tem um curriculum bem mais sério.
    😉

    • curioso (branquea dor) diz:

      ainda não consegui chegar lá…

      • curioso (white smile) diz:

        fresquinhas 😉

        Las Vegas, NV – A captivating smile is one of the first things people notice about you. With every toothpaste product in the U.S. market being virtually a carbon copy of the one before, it’s difficult to find that one product that will make your smile shine brightest.
        For years, celebrities and socialites have flocked to France for their fine beauty products, including toothpaste. Elgydium the leading toothpaste in France for more than three decades, has been available in the U.S. on a limited basis, sold only in elite boutique pharmacies where some celebrities are known to buy it by the caseload. In addition, all customers who have flown First Class on British Airways for the past 10 years have received Elgydium products in their sample bags. That’s all about to change, however, as SANTE active, Inc., the U.S. subsidiary of Laboratoires Pierre Fabre, France, will begin distributing Elgydium to the major retail drugstore chains, in addition to independent pharmacies throughout the country.
        Originally launched in 1972 as an anti-plaque product, Elgydium toothpaste devotees find the taste and texture far superior to other brands on the market.
        ….

    • mariabrojo diz:

      É verdade, Rita. E eu que o diga como consumidora já alertada pela médica dentista!

  3. nanovp diz:

    Maria do Céu não me importava nada de ver um galito de Barcelos pintado pelo Warhol…

    • mariabrojo diz:

      Nem eu. Limitar-se-ia às linhas essenciais – simplificação da forma – e, depois, ao «milagre» das multiplicações coloridas. Problema: sem coração pintado no papo perdia toda a graça.

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