Goodness had nothing to do with it

dove_logo1REXONA? NÃO. DOVE, O DA POMBINHA.

O politicamente correcto tem, ao longo das políticas e do tempo, ocupado todas as posições do espectro do poder e feito tanto de bem quanto de mal. Foi politicamente correcto matar Lorca, e foi politicamente correcto, em Cuba, despejar os homossexuais num corredor de morte, ou fechar os olhos em visitas guiadas ao campo de concentração de Terezín batendo palminhas ao fim do espectáculo. Como se a cada acção não sucedesse sempre a reacção correspondente, como se o subjugado de hoje não viesse sempre a ser o poderoso de amanhã.

Apesar das maiores atrocidades contra as mulheres continuarem a dar-se sob a capa do multiculturalismo, é politicamente correcto ser multiculturalista. Defenda-se a liberdade da burca e o grito do muezzin, mas calem-se os sinos das igrejas porque tocam alto ao domingo quando uma pessoa quer dormir. Isto para chegar onde?

Há um feminismo que está a acabar com as mulheres tão depressa quanto qualquer machismo ou antípoda cultural de coca tapada da cabeça aos pés. No entanto, ninguém lhe toca: é politicamente correcto.

Debaixo das pedras surgem estudos femininos, narrativas do poder feminino, expressões do feminino que apresentam a mulher sagrada como uma vaca. Das universidades ao cinema, passando pela televisão e pela publicidade. Modelos, afinal, machistas, na sua infinita superioridade, modelos inalcançáveis e intangíveis. Não são a mulher, são a Mãe e mesmo a Virgem Maria. Ou, na melhor das hipóteses, uma besta sadia, o híbrido resultante do cruzamento da Barbie com o Action Man.

Uma mulher não é isto nem isto são modelos para uma mulher. O que daqui advém é o que vemos: adolescentes anorécticas cuja vida se joga entre a celebridade e a entrada em medicina. Ou mulheres adultas, porém eternas filhas de vontade débil que entrarão na velhice sem nunca terem conhecido a juventude, nem outro espelho senão o protésico em silicone, botox e ácidos de preenchimento. Crianças a vida inteira, incapazes do menor gesto de independência, desde a imagem de si mesmas, ao conhecimento da própria identidade.

O cinema e os estudos femininos estão de acordo. Exemplifico. Todos viram em Agora, filme espanhol desenhado tanto para o público norte americano quanto para o europeu, portanto em inglês, e com o apoio de uma grande distribuidora, a reformulação de Hipátia à imagem da Virgem Maria. Substituiu-se a sophrosyne pela castidade e o Espírito Santo pelo brilhantismo académico, os sessenta anos que teria quando morreu pelos menos de quarenta da bela Rachel Weisz. Dessexualizada e à sombra tutelar do pai, o sábio Theon que cumpre o lugar de Deus, nem se atreve a desejo que não seja celeste, científico, filosófico. O corpo é tão negado como em qualquer ascética, tão controlado como o de qualquer anoréctica, tão preservado como o vindo de qualquer mesa de cirurgia plástica.

E temos caixotes de Medeias que são o paradigma da não aceitação do lugar jurídico da mulher na sociedade grega, tidas como referente da mulher insubjugável pelo marido aquando da quebra do contrato de casamento, ou amoroso, desprezando o pormenor fundamental da origem de Medeia: não era completamente humana. O que é a lei para um semi-deus? Nós não. Nenhuma impunidade. Carne, osso, e ao fim pó, e nenhuma carruagem nos levará ao sol.

Haja um feminismo menos purista e sem medo do pecado original. Menos preocupado em fazer da mulher peça de Olimpo enquanto lhe faz da vida uma peça no inferno. As mulheres não têm de ser perfeitas. Nem moralmente superiores, nem cientificamente. Ou mais competentes ou trabalhadoras. Isso são investimentos pessoais muito para além do género sexual. Podem mesmo ser imperfeitíssimas. Não têm de ser modelares. Nem parecer ter vinte anos aos cinquenta. Nem sessenta aos quarenta. Não têm de exibir a inteligência e ocultar a beleza. Podem ser estúpidas. Feias. Burras e lindas. Ou um cocktail molotov de brains and beauty. Duma banalidade confrangedora. Isto não é um concurso a ver se se ganha aos homens.

Nem há que de ter medo da objectificação logo seja a mulher objecto de desejo, mais ou menos sublimado – sim, também isto é poder. O corpo não é só nosso quando afirmamos que é nosso ao serviço do aborto, ou da politicamente correcta interrupção voluntária da gravidez. É nosso no decote ou na gola alta, ou na saia justa ou na mini-saia, ou nas calças largas. Quem tem medo do poder do próprio sexo, não é dona de si. E se não é, está na mão dos outros.

O feminismo não tem de ser politicamente correcto. Mae West, actriz de vaudeville, de cinema, argumentista mil vezes censurada, inconveniente, com mais picante do que a malagueta, nascida no fim do século dezanove, faz mais pela condição feminina do que meia dúzia de hipátias destas. E Inspira não à debilidade e sim à convicção.

Ser forte é fazer a vida. A própria vida. A verdadeira, não a da publicidade do desodorizante que aí corre: ser forte não é usar Rexona e pôr cara de má, cara de morta de fome, cara de infeliz ou de vou-me a ti, num cenário cinzento, exclusivamente feminino e solitário. Apetece logo comprar um desodorizante Dove e dizer: viva a pombinha.

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.
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16 respostas a Goodness had nothing to do with it

  1. Ivone Costa diz:

    Este texto, Eugénia, mais do que preciso, é exacto.

  2. Gostei duplamente; pelo estilo e pelo conteúdo. Julgo que é aprimeira vez que observo uma incursão lúcida pelos esteriótipos do feminismo, desmantelando algumas componentes infantilóides. Li duas vezes e terei que o fazer de novo. Ainda não descobri o termo “hipátias”. Com sua licença publico na minha barraca.

  3. CC diz:

    Excelente! Será que só serão as mulheres a dizê-lo ou haverá por aí homens com essa coragem?
    ~CC~

  4. Muito bom. Fez-me sorrir, Eugénia. 🙂

  5. curioso (axe burr) diz:

    mas vai continuar a haver des od orizontes para todos os gostos, não esquecendo o da Eva (fer ormona) que é contra os outros todos e não tem carga publicitária 😉

    a vida (qualquer delas, boa, assim-assim, má) continua com todas as políticas vi gentes (no Brasil menos 245, no Egipto menos 27 por causa dos menos 21, na Sertã menos 11 por causa do presépio).

    a melhor opção: inv estir (mesmo com frio) na formação e na cida da nia (com apoio da Tia)

  6. Claro que sim, a diferença pode ser uma regra de mais valia. E investir, como diz.

  7. Maria do Céu Brojo diz:

    E a importância na evolução da condição feminina das mulheres que desde tempos recuados liam? Os homens temiam as «ideiazinhas» que a leitura podia gerar em cabecinhas, que segundo os regimentos da época, apenas deviam ser belas, ledas e subservientes. Quanto perigo numa mulher leitora, diziam.

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