Homenagem aos nossos pais

O belíssimo texto de Pedro Bidarra levou-me a escrever este. É uma homenagem sincera àquela geração que viveu a II Guerra e soube, depois, construir o mundo em que nascemos e agora destruímos.

Olho a geração dos meus pais, dos meus sogros, e vejo como pessoas tão diferentes tiveram tanto em comum; sendo uns de francamente de esquerda e outros muito de direita, sendo uns profundamente crentes e outros claramente ateus, partilhavam a convicção de que era possível um mundo melhor.

Acreditavam na ideia de que é necessário trabalhar hoje para conseguir amanhã. De semear para colher – de que há um tempo naturalmente decorrido entre o esforço e a recompensa.

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Nós fomos e somos a geração do já! A partir da década de 60 ou 70 começámos a dar cabo do mundo tal como eles o quiseram e sonharam e não temos  hoje um mundo melhor, mais solidário, mais fraterno, mais justo para deixar aos nossos filhos e netos. Eles lutaram por ideais, nós deixámos de os ter.

Se uma frase pode resumir o que sinto, ela é esta: A nossa existência é sempre interdependente da dos outros – das gerações passadas e futuras. E só todos juntos poderemos conseguir dar um sentido à vida e aproximar-nos dessa transcendência que é a eternidade.

«No man is an island» – disse John Donne. Eis uma frase que toda a gente conhece. Mas deixem-me completar a citação retirada do livro «Devoções sobre ocasiões emergentes e diversos passos da minha doença», escrito em 1624: «Toda a humanidade é de um autor e está apenas num volume. Quando alguém morre o capítulo não se encerra, é traduzido numa linguagem melhor. Nenhum homem é uma ilha, formada por ele próprio. A morte de cada homem diminui-me; todas as mortes me afectam, porque estou envolvido na humanidade, e assim nunca sei por quem os sinos dobram, porque eles dobram por todos nós».

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom. Sem nunca me levar a sério - no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom (e barato).
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14 respostas a Homenagem aos nossos pais

  1. Rita V. diz:

    Gosto tanto de estar aqui convosco.

  2. Pedro Bidarra diz:

    «Toda a huma­ni­dade é de um autor e está ape­nas num volume. Quando alguém morre o capí­tulo não se encerra, é tra­du­zido numa lin­gua­gem melhor. Nenhum homem é uma ilha, for­mada por ele pró­prio. A morte de cada homem diminui-me; todas as mor­tes me afec­tam, por­que estou envol­vido na huma­ni­dade, e assim nunca sei por quem os sinos dobram, por­que eles dobram por todos nós».

    É a Teoria Geral dos Sistemas formulada 300 anos antes e de forma muito mais poética

    • mikaelle diz:

      eu gostei muito do testo e muito carinhoso,e muito decorativo eu gostei muito mais muito mesmo você esta de parabens

  3. Estou tão de acordo com o que dizes da geração dos nossos pais que até me custa estar em desacordo contigo em relação à nossa geração. A nossa geração não é tão importante assim que tenha conseguido destruir um mundo. Haver crises e haver miséria, quilométricas filas de desemprego, foi o pão nosso de cada dia da vida dos nossos avós. Avós americanos e avós europeus. A famosa degradação do “espírito” é um leitmotiv de séculos. Hoje sabemos, por exemplo, que os “tempos de trevas” da Idade Média não foram nada um tempo de trevas… Talvez ainda não saibamos dar sentido, isso sim, ao aparente caos, ao “hasard” destes tempos, talvez não saibamos ainda ver luz redentora no que só parece apocalipse…

    • Henrique Monteiro diz:

      Havemos, Manuel, de ter esta discussão à volta de um copo. Porque eu concordo contigo num ponto, mas discordo noutro. Concordo que a nossa geração é pouco importante, ao contrario da dos nossos pais. Concordo que a nossa perspetiva é sempre tremendista e muito centrada em pormenores que conhecemos sobre nós e desconhecemos de outras eras (o que dizes da idade media é certíssimo, foi uma construção historiografica da idade moderna), mas não concordo quando dizes que não destruímos. Sim, destruímos quando tornamos cliché o pensamento cientifista do final do sec XIX, a ideia da morte de Deus, e portanto erigimos a necessidade da recompensa imediata. Bem, isto escrito leva muito tempo e eu sou como Fermatt, falta-me o tempo.

  4. Panurgo diz:

    Concordo com o Manuel. É muito injusto; pelo menos, no que respeita ao nosso rectângulo: se um povo é sempre avaliado pelo seu escol, não há nenhuma dúvida de que uma nação que tem como seus filhos dilectos um Vara, um Coelho, um Relvas, um parisiense, um Durão e tantos, tantos outros, em todos os espectros da vida pública e privada, que mais não fizeram do que continuar a laborar na grande tarefa da geração anterior, a entrega (gratuita, como o são todos os grandes amores) do país ao estrangeiro; uma nação, dizia, que pariu uma geração destas, só pode ser, lá está, uma nação tremenda. Basta olhar para os orgãos de soberania da majestosa República para lá vermos, em todos, a descrição aristotélica do Homem Magnânimo feita portuguesa em diversas gerações. Todas elas imunes à corrupção e à degradação, como é óbvio.

    Quem topou bem esta malta, e, por isso, a História oficial descreve muito justamente como infame, foi o Divino Marquês; o mundo ocidental é um gigante «domínio de Durcet».

  5. Maria do Céu Brojo diz:

    Os pais, os pais de cada um. É tão, mas tão bom estar incluída em família sem receio de expor sentimentos…

  6. António Barreto* diz:

    Sendo assim, estamos perante o paradoxo de o tal mundo melhor se ter tornado afinal, no caminho para a dissolução? Parece a máquina a que falta um componente de que não se deu conta, que durante um tempo cumpre a sua missão com vantagem e um dia acaba por se desagregar sem percebermos porquê!

    • Henrique Monteiro diz:

      Caro, essa é uma boa pergunta, mas é recorrente na História. O que é construído com determinados pressupostos, é destruído quando esses pressupostos mudam. É nisso que consiste a tragédia. Por termos herdado o mundo que herdámos sem termos lutado por ele, passámos a uma sociedade que reivindica direitos sem, em contrapartida exigir deveres. Veja como o único dever que nos resta – hoje – com a sociedade é o de pagar impostos, com o fito de que a mesma sociedade tome conta de nós.

  7. Ana Rita Seabra diz:

    Bela homenagem, mas sendo uma pessoa optimista acho sempre que o mundo está muito melhor que há longos anos atrás. Todas as épocas têm lados construtivos e destrutivos. Tenho umas referências tão fortes que o meu dever é transmitir às minhas filhas da melhor forma possível…

  8. Há muito tempo que acho que a minha geração (nasci em Maio de 68…) é a última a a não ser conjugada na primeira pessoa do singular, e a compreender os limites do relativismo. A trama da educação católica e os sentimentos de culpa do legado judaico-cristão escondem imensos alçapões psicanalíticos, mas ajudam à definição de balizas éticas claras. Quando Deus é apenas a infalibilidade da juventude e a certeza da tecnologia, está tudo lixado. Mas também é verdade que, em ciclos de cinquenta ou cem anos, tudo parece estar lixado, mas tudo é de alguma forma reconstruído. Quanto tempo faltará desta vez? Gostei de ler, Henrique, um abraço.

  9. Como a calvície revela, na verdade nasci em 1948…

  10. mariana araujo diz:

    Gostaria de deixar um texto ao meu pai que partiu recentemente, quero guarda-lo para mim, também daria tudo para que o meu pai o lesse. de um pequeno gesto,preciso de exorcizar a minha dor, de uma forma tão anónima e delicada quanto a minha existência.

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