Janeiro, 15. Um fado e excesso de pronomes pessoais.

Já tinha pressentido, mas fiz-me estranha. A luz adianta um pé e rouba-me um bocado de cada noite, das minhas noite fundas como enredos infindáveis. Há pouco, quando dobrei a curva da tarde, a branca floração de uma árvore inesperada mostrou-me que o Inverno não está para ficar. É um fado: não me passa Inverno que eu não queira eterno e da sua pressa de gato esquivo me hei-de lamentar sempre. Enquanto me duram os pensamentos de chocolate negro e em volta do pescoço eu sinto o luxo falso de um abrigo de czarina, parece-me que o mundo recomeça possível. Depois, já sei que não.

Sobre Ivone Mendes da Silva

Entre lobos e anjos me habituei a escrever. É talvez por isso que, para além de asas e de uivos, as palavras me tropecem e não encontrem sozinhas o caminho das folhas. Nessas alturas, peço para elas a bênção da tristeza, musa de sopro persistente, que triste me faz e a acolhedoras mesas me senta.
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10 respostas a Janeiro, 15. Um fado e excesso de pronomes pessoais.

  1. O Inverno do seu contentamento?

    • Ivone Costa diz:

      Uma volúpia, Manuel. Nem é coisa que lhe consiga explicar aqui na caixa de comentários de um blogue de família …

  2. curioso (frio escuro)) diz:

    ‘chorarei quanto for preciso…’

  3. Rita V diz:

    uhm! talvez «Vicugna»
    🙂

    • Ivone Costa diz:

      Não dê ideias, Rita, não ideias, que ainda me chamam para fazer publicidade ao Inverno 🙂

  4. Maria do Céu Brojo diz:

    “Inverno em casa, depressa passa”. Para o estender, o melhor ainda é abandonar paredes/abrigos e fruí-lo puro e duro como ele é. «Eu cá gosto» de fazer assim.

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