Manuel Aires Mateus

 

casa em Leiria

casa em Leiria

O contraste entre o veio da madeira, vivo, e a parede lisa branca imaculada. O espaço que se prolonga lá fora através da janela, negativo na superfície horizontal; a exuberância do exterior que se senta na sala. Há pouco espectáculo na arquitectura de Manuel Mateus, mas tudo é encenado com o cuidado de um coreógrafo, que orienta linhas, volumes, planos e superfícies até a perfeição, ou pelo menos até a perfeição possível desenhada: imagino a enorme quantidade de esquissos que se transformam em espaço, em obra construída.

Mais do que um pensamento sobre a arquitectura a obra de Manuel Mateus, em muitos casos com Francisco seu irmão, é pensamento construído, a tal “vontade de uma era concretizada em espaço”, como disse Mies o incontornável mestre moderno alemão.

Atrai-me que o rigor não nega e não esconde a presença humana, a perfeição das arestas que permite, como na obra de Donald Judd, o tacto; os espaços que vivem também da ocupação não são telas imutáveis e passivas. Atrai-me a subtileza da geometria, do encontro de planos em luz e sombra, da simplicidade que nega todo o supérfluo. Atrai-me a reinvenção da possibilidade do habitar, uma outra vez.

De uma obra vasta, de qualidade precoce, rara numa disciplina de maturação tardia, sobressai a vontade do arquitecto de modelar a realidade, e abrir arestas de visão para o futuro, independentemente do local, do contexto, do programa. Da planície Alentejana à serra da Arrábida, do centro urbano de Sines ao “campus” Universitário de Coimbra, a obra construída vai deixando o testemunho de quem quer ir sempre mais longe.

santo Tirso Call Center

Santo Tirso call center

Durante 10 dias, a Escrever é Tristevai viver numa casa desenhada por Manuel Aires Mateus. Ora vejam, lá em cima, no cabeçalho deste blog.

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência.

Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra.

Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data.

A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach.

De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro.
A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.

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10 respostas a Manuel Aires Mateus

  1. Que bom termos a nossa Escrever em tão límpida morada, muito obrigada Manuel Aires Mateus.

    E outra vez bom, Bernardo, que tenha dito em palavras transparentes coisas opacas para quem desconhece esse código de linhas. Muito obrigada, gostei tanto.

    • nanovp diz:

      Nem que essa morada seja ainda virtual não é Eugénia? E obrigado pelo comentário, descodificar a obra em palavras não é fácil, sinto sempre que lhe estou a retirar algo….

  2. Rita V. diz:

    Manel, obrigada.
    Bernardo … valeu!

  3. Mas que boa casa, redonda como um sol negro. A Tia deve estar numa roda viva. Obrigado Manuel A. Mateus.
    Bernardo, fiquei a pensar que espaço é que poderia “concretizar” esta nossa era… Bom texto.

    • nanovp diz:

      Um sol negro que ilumina o nosso “triste escrever”…Agora a pergunta tem de ficar por responder, mas é isso que nós arquitectos tentamos fazer dia após dia…se por acaso tiveres uma resposta simples avisa-me….

  4. Ivone Costa diz:

    Linda a casa sem cantos que o Manuel A. Mateus nos desenhou lá em cima. E belíssima a a escada estreita que se abre ali. Se a entrada do Céu for assim, vou passar a portar-me melhor.

  5. João diz:

    Se o “escrever é triste” vai viver 10 dias para uma casa do Manel vou estar mais atento ao blogue porque dali só pode vir uma escrita ainda mais luminosa como as casas que ele faz

  6. Pedro Norton diz:

    Bem vindo a esta tua casa, Manel!

  7. Desconfio que esta casa do Manuel Aires Mateus, de tão inspiradora, vai escrever por nós durante 10 dias. Obrigado e um abraço, Manel!

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