Maria José Água Pé, Poesia Deitada

Maria Madalena

Poesia Deitada, o novo livro de Maria José Água Pé é um livro surpreendente. Em primeiro lugar porque surpreende, ao contrário das outras obras que lhe conhecemos e que formam os tijolos com que construiu a barraca que é a sua obra. Poesia Deitada não nos deita, ergue-nos, não nos adormece, desperta-nos e não nos enfada nem nos enfoda, antes dá-nos prazer.

Até hoje Maria José Água Pé, uma poetisa confortavelmente arquivada na prateleira de um certo intimismo luso-críptico, deu-nos apenas vislumbres desfocados do complexo e sensaborão mundo que existia (ainda existirá?) dos seus olhos para dentro. Maria José Água Pé escrevia sobre Maria José Água Pé como se ela fosse toda a gente ou toda a gente fosse ela. Uma poesia na primeira e única pessoa, sentada sobre um rabo grande e descomtemplativa do mundo porque contemplativa de si mesma e do seu reflexo no ecrã do computador.

Mas tudo isto mudou porque, como explica no prefácio do seu novo livro Poesia Deitada, Maria José Água Pé levou uma belíssima foda – palavra pouco utilizada recensões de obra poética mas que é a central na compreensão desta obra, escrita enquanto deitada numa chaisse long, nua e apenas coberta por um manto azul. Na mesma chaisse long onde foi, durante dias, amada, ou talvez tratada, como se lê num dos seus poemas: “três noites e três dias/que tratador/que tratamento/nenhum lamento”.

Poesia Deitada é uma obra quase anacrónica porque nos fala de amor; e não da dor ou de depressão ou de confusão mental que eram os seus temas de eleição. O que é moderno nesta abordagem ao amor trazida por Maria José Água Pé, é que o amor de que nos fala, é um amor antigo; é um amor que entra, um amor repetidamente de fora para dentro. “O amor como deve ser” diz-nos ela. Abençoado tratador. A poesia estava precisada de uma boa foda.

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu):
“Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”

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21 respostas a Maria José Água Pé, Poesia Deitada

  1. curioso (ora tória) diz:

    talvez uma boa cartilha para o Gaspar e para os outros três que nos phodem a torto e a direito, sem qualquer res peito

    • Pedro Bidarra diz:

      A música é boa mas a letra não casa. Não é do mesmo artista pois não?

      • curioso (des caso) diz:

        pois não… e é mesmo para não casar 😉

        é para neutralizar aquela rebarbante água-pé 🙁

  2. Rita V diz:

    Logo hoje Pedro!
    Logo hoje que mandei «Currículo Bitae» com fotografia e tudo, tirada no quiosque Kodak-Fast-Foto-Face é que postas a desabergonhice da Maria José!

    Logo hoje que se lê na primeira página do meu ‘CêBê’ que sou co-autora deste ilustre Blog que digo ser sério, interessante de elevado espírito é que tu postas uma Gainsbourguice !
    Não é justo Pedro. Ai valha-me Deus! O que me bai dizer o senhor Reitor!
    ah ah ah
    😀

    • Pedro Bidarra diz:

      Peço desculpa pelo timing. Era para ter saído em Novembro mas reparei agora, arrumando o desktop, que me tinha esqueçido. Diga lá ao sr Reitor que eu estou cá não por mérito mas por equivalências.

  3. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Já me ri, Pedro. É que nem mais: tanto grito lírico ensimesmado, dores de peito e achaques vários, que bem se resolviam…

    • Pedro Bidarra diz:

      Como dizia à Rita era uma coisa de Novembro, da altura do São martinho e por isso bem disposta, que me tinha esquecido de postar. Foi agora, para espairecer das comoçoes natalícias.

  4. Ivone Costa diz:

    Pedro, grande recensão que até podes pensar em carreira na área da crítica. Basta deitá-la tratá-la, à poesia como Santiago aos mouros. 🙂

    • Pedro Bidarra diz:

      Não seria capaz. Só me ia apetecer dizer bem, enaltecer e depois ia passar a maior parte do tempo calado, sem nada para dizer. Gosto é de criticar estereótipos.

      E de que Santiago fala, do Matamoros? O que ajudou Ramiro?

  5. Andei eu a acompanhar com angustiada devoção toda a obra poética (edições Ática) da M.J.A. Pé para agora, num livro de clara cedência e compromisso, ela destruir tudo?!

  6. Maria do Céu Brojo diz:

    Surpresa! Quem diria retomado Friedrich Heinrich Füger que tão pouco sucesso teve aqui.

  7. Olinda diz:

    tão lindo – o que lá diz e o que tu dizes que diz lá. e agora digo eu: o amor é o que entra porque o amor é sempre antigo e é por isso que o amor, este amor, é fodido.

  8. Maria José Água Pé diz:

    Que metáfora tão linda. Obrigada ao meu tratador por me descrever tão bem. Ó como ele me conhece. Estou comovida. Ajoelho-me! 🙂

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