Meia de leite com café direto

 

 

Paola Angelotti

Paola Angelotti

 

A mesa era no canto isolado. Dali observava os afoitos na rua e o entrar e sair dos clientes. Poucos. Vizinhos na maioria. Agasalhada para o frio das oito da manhã, protegia-se de olhares e da matreirice do vento cortante ao ser aberta a porta. Televisor suportado próximo do teto arrebatava-lhe atenção, esgotadas novidades no café. O idoso de capote no fim pendia a cabeça sobre o jornal da véspera. Dois ou três utentes do Centro de Saúde enregelados na fila madrugadora esperançada numa consulta ou receita para aviar medicação desencostavam a porta. Aquecidos por uma «bica» ou um «galão», catavam moedas; depois, somado o valor. Chegando para um pastel de nata pediam-no com culpa estampada no rosto pelo gasto a mais. Consolo: adoçar a espera e a vida que só desandava.

Aproxima-se do balcão mulher de muita idade, também ela encasacada, xaile como proteção maior. Nem abriu a boca: o costume surgiu em frente dela. Dando pela presença da vizinha na mesa do canto isolado, entabulou conversa.

_ Queixas-te da reforma, mas à torrada e à meia de leite com café direto não faltas tu aqui.

A outra fez silêncio envergonhado. Na caixa dos medicamentos atabalhoou os do pequeno-almoço. Um caiu. Levantou-se e disse:

_ Não consigo baixar-me pelas dores.

Em menos de chama num isqueiro, cliente acocorou-se e deu com o fugitivo.

_ Obrigada, senhora.

Mirando a outra de esguelha, baixou o tom de voz.

_ Não fora este pedacinho que aqui passo, ia-se-me a coragem. O meu marido teve um AVC. Não sai da cama. Para os dois, quarenta contos de farmácia por mês. O que sobra da reforma mal dá para comer. Esta semana, ele precisa de ir à consulta no hospital. Mas onde arranjo vinte euros? Poupar esta despesa? Mas se o que aqui como dá até ao jantar, se a sopa e o resto é para ele – havendo, fico-me pelas sobras -, que adianta ficar em casa a sofrer todo o dia? Assim chego ao pé dele mais contente por neste quarto de hora esquecer o que me traz aqui. Foi bom marido e pai. Não quero que me veja lágrimas. Merece que o faça rir. E consigo, às vezes.

A ‘senhora’ informou-a de alguns e bons hospitais privados que, havendo contratos com sistemas de saúde, consulta marcada requerer menos de cinco euros. Que telefonasse para o indicado. Que continuasse a ser fiel à torrada e à meia de leite com café direto. Que não desistisse de tentar fazer sorrir o marido. Melhor: que, tendo forças, o acompanhasse no riso e também ela, por instantes voláteis, atenuasse dores.

Paola Angelotti

Paola Angelotti

À ‘senhora’ faltou a coragem para embaraço além. Não pagou a conta do canto isolado. Voltaria mais tarde e diria ao senhor Francisco:

_ Até ao fim do mês, custeio a despesa do pequeno-almoço de quem sabe. Diga ter sido alguém que gosta de ver os outros rir.

Sobre Maria do Céu Brojo

No tempo das amoras rubras amadurecidas pelo estio, no granito sombreado pelos pinheiros, nuas de flores as giestas, sentada numa penedia, a miúda, em férias, lia. Alegre pelo silêncio e liberdade. No regresso ao abrigo vetusto, tristemente escrevia ou desenhava. Da alma, desbravava as janelas. Algumas faziam-se rogadas ao abrir dos pinchos; essas perseguia. Porque a intrigavam, desistir era verbo que não conjugava. Um toque, outro e muitos no crescer talvez oleassem dobradiças, os pinchos e, mais cedo do que tarde, delas fantasiava as escâncaras onde se debruçaria. Já mulher, das janelas ainda algumas restam com tranca obstinada. E, tristemente, escreve. E desenha e pinta. Nas teclas e nas telas, o óleo do tempo e dos pinceis debita cores improváveis sem que a mulher conjugue o verbo desistir. Respira o colorido das giestas, o aroma dos pinheiros nas letras desenhadas no branco, saboreia amoras colhidas nos silvedos, ilumina-a o brilho da mica encastoada no granito das penedias.
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14 respostas a Meia de leite com café direto

  1. curioso (zip po) diz:

    em menos de chama num isqueiro, se tiver pedra e gás, não há fugitivo que resista 😉

  2. Mario Soares diz:

    E viva o neo realismo. Gostei do naco de prosa . Pena é que algumas “elites escrevinhadoras” (obviamente não a incluo) sejam tão políticamente correctas. Já agora e para quem assentar a carapuça ,aqui vai:
    http://youtu.be/wIKazqq83sE

    • Maria do Céu Brojo diz:

      E a carapuça assenta a muitos, a mim também. Também o politicamente correto é pecha que me abrange as mais das vezes. Obrigada pela reflexão.

  3. Que haja quem saiba pôr sempre um sorriso aos duros dias de sombra

    • Maria do Céu Brojo diz:

      E é tão fácil! Basta atentar em quem nos rodeia. A pressa, não cessar de sentir o próprio umbigo dificultam o presente e o pior que aí vem.

  4. Henrique Monteiro diz:

    Mas esta ficção (que é bem real) é tudo menos neo realista. Ó valha-me Deus!

    • Mario Soares diz:

      Escritor maior nosso que faz o favor de ser meu amigo sugeriu-me resposta asim:

      “A literatura neorrealista teve no Brasil e em Portugal motivações semelhantes, resgatando valores do realismo e naturalismo do fim do século XIX com forte influência do modernismo, marxismo e da psicanálise freudiana.

      O determinismo social e psicológico do naturalismo é mantido, assim como a analogia entre o homem e o bicho (vide Angústia – Filme, de 1936), a busca pela objetividade e neutralidade como formas de dar credibilidade à narração.

      Entretanto, se no naturalismo as mazelas da sociedade eram expostas pelos romancistas com algum pessimismo, sem perspectiva de solução a não ser o resgate ao passado A Ilustre Casa de Ramires, os escritores neorrealistas são sobretudo ativistas políticos, leitores de Marx, da prosa revolucionária de Górki e tomam posição na chamada luta de classes, denunciando as desigualdades sociais e os desmandos das elites. Vale lembrar que a industrialização somente no século XX deixou escancarada a distância entre os donos dos meios de produção e os trabalhadores. Enquanto internacionalmente a crise de 1929 foi estopim para o neorrealismo italiano e depois português, no Brasil a situação precária dos nordestinos foi retratada já a partir de A bagaceira, de 1928.

      E se o neorrealismo optou pela ficção, tanto no Brasil quanto em Portugal, se deve principalmente aos governos ditatoriais, quais sejam o Estado Novo de Getúlio Vargas no Brasil e o Salazarismo em Portugal.

      Essa ficção neorrealista e pós modernista (no sentido de ser posterior ao movimento modernista) sofre as influências do Modernismo, especialmente a liberdade linguística e o intimismo freudiano à Virginia Woolf. Elementos que se tornarão mais fortes num segundo momento do neorrealismo, culminando na prosa existencialista do meio do século XX.”
      Música prá animar as hostes (quem não falar inglês há sempre à mão tradutores -intérpretes). Capisce?
      P. S. Isto das comendas é uma chatice…..
      http://youtu.be/ukjplM4e9P4

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Parece que o M.S.fundamenta a discordância.

  5. Maria do Céu Brojo diz:

    Como sempre, assertivo. É indispensável haver quem, até nas trivialidades, coloque nos «is» as pintas.

  6. nanovp diz:

    a vida como um pingo de leite no café da manhã…simples e dura. real é para quem a vive, para os outros é ficção…e o umbigo no caminho como bem diz…

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Triste, muito triste. Sofrimento por causa alheia que gente atenta toma como seu. “Calçar sapatos de outros” só faz bem.
      Porque não me fico por inverdades e deve ter intuído, todo o escrito se passa comigo. Sabe, certamente, o que é deparar com esta crueldade dia após dia?

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