Monólogo de Adão

 

 

 

adão.eva.brauner

Não é bom que o homem esteja só

Sou a primeira carne. A carne nova de Milton.

Um dia quando, para além do dia sétimo, os dias se sucederem aos dias, gerações e gerações hão-de pronunciar a palavra solidão. Eu sou a célula dessa solidão. Eu sou o momento em que ao tamanho da minha solidão bastaria o consolo e a proximidade de outra solidão.

O meu nome é Adão. Com a argila deste solo, insuflaram-me nas narinas um hálito de vida. Nasci, assim, homem e adulto. O que me criou, Aquele que nem predicar consigo, forma de todas as formas, ausência de realidade por excesso de realidade, Aquele que por vezes se faz imagem para que eu creia à imagem Dele ser feito, deu-me domínio sobre os peixes do mar, as aves do céu, sobre todos os répteis que rastejam neste paradisíaco chão de oferta.

O que me criou fez-me sem companhia entre a multidão dos animais e até solitário de mim mesmo. O que me criou não me concedeu a benévola reminiscência da infância, de uma encantada adolescência. Existi imediatamente homem e imediatamente adulto. Tenho esta incicatrizada ferida: o ultraje de ter nascido de uma solidão depois de mim incognoscível, de ter existido na inaugural e abrupta privação da infância e da adolescência.

Tombou sobre os meus ombros, porventura nus, uma angústia branca e cega como toda a luz. Mesmo a omni-insensibilidade dO que me criou atendeu ao espanto do meu grito. “Não é bom que o homem esteja só”, creio terem sido as espancadas palavras que a Sua inteligência intangível ditou.

Um doce torpor aflorou o meu corpo eremita, perdido na imensidão desolada do Paraíso. O que me criou, tomando uma das minhas costelas, modelou a mulher e assim pôs fim aos dias da minha solidão, à nocturna tristeza desta minha carne. Agora, sepulto nos olhos dela os meus olhos, encosta-se o meu rosto ao seu como a louca terra à orla do mar. Às vezes, alucinado, empresto-lhe o meu corpo para um abraço casto.

“Um abraço será o teu crime,” disse, na Sua imóvel forma de falar, Aquele que nem consigo predicar. Não sei se falava para mim, se para a mulher cuja boca é espelho da minha boca. E, como um implacável incêndio, concluiu: “Ainda um dia te há-de atormentar a nostalgia da primeira solidão.”

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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14 respostas a Monólogo de Adão

  1. Ivone Costa diz:

    Como é que eu digo isto? Tento: uma desmesurada beleza a deste texto, Manuel. E a expulsão do Paraíso é só isso, a nostalgia da primeira solidão. Manuel, Manuel.

  2. Desmesurada generosidade a sua, Ivone. Obrigado. Nostalgia sim, duma falha primeira. Livramo-nos mais depressa de todo o Mal, do que do eterno retorno dessa nostalgia.

  3. Vergilio Frutuoso diz:

    Bem tento, mas não consigo. Ser triste, diga-se. Depois de ler este texto, como ser triste ?

  4. curioso (abel) diz:

    é altura de começar a fazer nomeações: vêm aí os Óscares 😉

    como sempre, o Adão é tão inacabado que naturalmente se contradiz na sua pequenez perante o Criador.

    um belo credo para os tempos que, cada vez mais, correm desnorteados.

    o abraço, mesmo casto, só pode ser o crime da salvação.

    obrigado

  5. Os Oscars é mais com o PMS que vê tudo. Eu, se me deixarem, corro desnorteado pelo paraíso. Obrigado digo eu.

  6. Começo pelo fim, Manuel Fonseca: o seu Deus tem sentido de humor – já sabe que gosto de um twistzinho. E o seu Adão é de ternura no para­di­síaco chão de oferta. E desejante: sepulto nos olhos dela os meus olhos, a morte mais doce. Que bonito monólogo.

    • Eugénia, isto é a disparatação de um homem a falar sozinho. Mas tem razão, Deus é torcido que se farta. É um duche escocês, O que dá com a mão direita, tira com a esquerda. Gostei que se tivesse rido.

  7. marta diz:

    quando
    sem saber de lei nem terra
    nosso senhor emboloreceu
    na cal branca do papel
    o homem
    finalmente
    adormeceu

    o silêncio então dividiu
    a terra do céu
    e ao terceiro dia
    o poema nasceu

  8. Maria do Céu Brojo diz:

    Nem devia ter arriscado este comentário. Problema: o risco aguça-me algum engenho e mesmo quando entupida pela beleza não desisto de transformar em palavras, ociosas bastas vezes, o meu contentamento.

  9. nanovp diz:

    a vontade de viver será só a luta contra a solidão, que deixou marcas desde o principio do tempo…

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