Nenhuma nudez será castigada

Este texto não é de agora, como se verá pelas referências. Publiquei-o no Delito de Opinião em Fevereiro do ano passado. Devia eu ter juizinho e não vir aqui deixar textos que falem de cinema. Se o Pedro Marta Santos e o Manuel S. Fonseca vierem dizer que não é nada assim, eles é que têm razão: nunca hei-de ver um duodécimo, com perdão da palavra, da milionésima parte dos filmes que eles já viram. E começaram cedo, bem sei, embora o Manuel ande a dizer que houve um tempo em que não sabia ainda o que era um decote. Como se eu acreditasse que ele não tivesse nascido já com uma percepção de grande angular.

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O cinema tem tido para com o corpo das mulheres uma generosidade que muito tem negado ao corpo dos homens. De rostos não tenho queixas, eu que prefiro os pensamentos profundos suscitados pelo olhar de Gabriel Byrne, ou do de Dennis Quaid, à ligeireza de um café Nespresso.

O cinema esqueceu, na maior parte das vezes, o esplendor renascentista de um nu frontal. Os actores encaracolam-se sob o olhar da câmara, como se portadores fossem de uma adâmica timidez que, de súbito, lhes mostrasse que estavam nus. Numa das cenas de La reine Margot (Patrice Chéreau, 1994), Vincent Perez esconde a flexibilidade pós-adolescente nuns requebros evitáveis de fuga à câmara. É certo que essa cena foi filmada em Mafra e as salas desertas de Mafra não serão, com certeza, o melhor sítio para um homem se despir. Mas até na ascese aquecida de um hotel sueco, Daniel Craig, que não tem um centímetro de pele em que se possa pôr defeito, parece negar-se ao olhar de Lisbeth Salander.

Chegaram-me estes pensamentos nus ontem à noite, quando vi que a RTP2 passava The Accidental Tourist (Lawrence Kasdam, 1988). William Hurt não tem neste filme a magnificência física que o mesmo realizador lhe filmou, em 81, em Body Heat. Nem Kathleen Turner tem a força motriz da femme fatale porque, obviamente, a história a ser contada é bem outra.

Body Heat é um filme sobre o corpo, ou sobre como um corpo pode empurrar outro para a passadeira púrpura da hýbris, local onde, uma vez posto o pé (para ser metafórica), não há redenção possível.

Desde que o vi em Body Heat, William Hurt passou a ser o corpo do cinema e pela humidade nos ombros dele passei a aferir todos os outros. A nudez de Ned Racine é coisa para acender profundas questões teológicas e pôr qualquer ateia a murmurar, sem saber como, Credo in unum Deum, Patrem omnipotentem

Resta-me agora ver, em 3 fois 20 ans (Julie Gravas, 2011), se as costas molhadas de William Hurt ainda retêm algumas gotas de água sombria. E, daí, talvez seja o que menos importa: o corpo de um homem, e o que dele decorre, é, como se sabe, cosa mentale.

Sobre Ivone Mendes da Silva

Entre lobos e anjos me habituei a escrever. É talvez por isso que, para além de asas e de uivos, as palavras me tropecem e não encontrem sozinhas o caminho das folhas. Nessas alturas, peço para elas a bênção da tristeza, musa de sopro persistente, que triste me faz e a acolhedoras mesas me senta.

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20 respostas a Nenhuma nudez será castigada

  1. Maria do Céu Brojo diz:

    Ai o que veio lembrar… Gosto meu que o tempo desfocou. Merci, Ivone.

  2. Maracujá diz:

    Pronto, agora é que não se pode mesmo, recomendar este blog a uma tia velha…

    • Ivone Costa diz:

      Ora, ora, palavrinhas tão leves que foram as minhas … ainda sou mais inocente do que o Manuel Fonseca …

  3. Evita diz:

    Desafio aos Tristes: mostrarem aqui, outros corpos masculinos que, para usar a linguagem dos (homens) Tristes, “nos falem directamente á cueca”. É que nós, as leitoras, também somos filhas de Deus!

  4. Maria diz:

    Menina Ivone chegar no frio do inverno e falar numa coisinha destas não se faz!

    Uma coisa eu sei, cada vez que escuto ou vejo um espanta-espiritos lembro deste filme e deste naco de homem com os ombros molhados. 🙂

  5. riVta diz:

    ah ah ah
    desculpe estar a rir Ivone mas a minha amiga despertou qualquer coisa … e as senhoras comentadoras são prova disso … ai despertou despertou … um belo pedaço de William Hurt em vez das maminhas do costume … ah ah ah

  6. Grande texto, Ivone! E com propriedade: o cinema tem sido mais do que misógino na sua selecção de nus. Como diria o perverso MSF, “le cinéma cést l’art de faire de jolies choses à des jolies femmes”.

  7. Ivone, eu já vi armar muitas desculpas, mas vir com os espanta-espíritos do Manuel Fonseca para invovar o cometa raciniano?! Ora, francamente! Nas sempre imortais palavras do PMS: Grande texto. E saiba que, por outras razões, por causa de um vestido branco e duma voz rouca, este filme é dos filmes cá de casa.

    • Ivone Costa diz:

      Oh, Manuel Fonseca, grande é o meu amigo por me ter lembrado deste, digamos, assunto.
      Também cá de casa, pelas razões que acima se vêem.

  8. Non. Queria, mas não consigo concordar. Estou mesmo convencida de que os mais calientes nus estão vestidos que se fartam. E olhe que também não vou de Nespresso, mas o William Hurt, non, non, non, merci. Mas não sou bom exemplo, prefiro mulheres nuas. De preferência bonitas.

    Ps: agora que penso nisto, se calhar, quando houver mais mulher realizadoras e directoras de photo mudo de ideias, os homens filmados à homem, non.

    • Ivone Costa diz:

      Vejamos, Eugénia, aqui que ninguém nos ouve: claro que também os há, e também há os que mesmo muito vestidos ficam sempre nus quando os olhamos e nada podem os pobrezinhos contra os nossos olhares que vão por ali adiante e não há camisa nem sobretudo que os tape. Sim, sim, Hurt e muitos outros, felizmente com ombros a perder de vista. E há lá coisa mais bonita do que um homem nu? É a terra e o céu, o paraíso e a expulsão, sei lá quantas teogonias juntas. Deus, Deus, Deus.

  9. nanovp diz:

    Pois a Eugénia tem muita razão, então a “t-shirt” molhada do Brando a gritar “stella”…?

    • Ivone Costa diz:

      Sabe, meu querido Bernardo, a t-shirt molhada do Brando está para mim como o Hurt para a Eugénia: nem por isso…

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