Nessa mesma vaga

NESSA MESMA VAGA, O TEU NOME E O MEU

O meu amor, o que sinto, o que tenho para amar, é irrazoável – se algum amor é feito de razão ainda que tenha ou não razões. E o meu amor é concreto porque não sei amar abstractamente. Desconfio mesmo, confesso, dos amores razoáveis, daqueles do ai, sim, sou muito amigo dele, mas… tendem à adversativa em vez de tenderem à lealdade.

Amo este país e desconfio do amor pela pátria, pelo povo, do amor pelo amor, pela literatura, pelo Tibete de hoje Haiti de amanhã. De todos os amores inter-permutáveis como os dos saltimbancos das relações amorosas: quando tudo vale o mesmo, nada vale a ponta de um corno. Desconfio. Produzem, de facto, a elevação dos decibéis aos píncaros do caracol do ouvido, porém, ardem depressa e não se importam de queimar.

Amo este céu. Este. O de um azulíssimo azul. Às vezes, no alto do Verão, azul ferino de branco.  O azul do outro céu em roxo tímido, o que cresce da terra e fica suspenso nos milhares de flores dos jacarandás amo também. Mesmo quando se faz azul pelo chão, azul pisado, azul sujo de milhares de flores caídas, e é um tapete encardido de abandono, amo-o, é em azul consolo: entre a luz e a luz, entre o céu em cima e o céu em baixo, cedemos: até a carne mais muscular do coração floresce do escuro e se faz luz também.

No outro dia, estava a regressar do hospital e noto a descer o passeio que eu subia uma mulher muito alta, magríssima, já vinha de longe a falar sozinha, via-lhe a boca inquieta ruminando pensamentos de olhos fixos lá dentro dela, e quando nos cruzamos ouço: preciso morrer.

E antes de ontem, na televisão, num jornal que nunca assisto, outra mulher, preferia nem a ter visto: às vezes choro, às vezes rezo. Há sofrimento na miséria, dor concreta, impermutável como a dor é.

Aflige-me. Aflige-me, dá cabo de mim a mulher do mercado, ao domingo, porque é velha e não tem dono, e a ronda pelas bancadas do peixe, o saco de plástico muito dobradinho, cheio de vincos, linhas finas de uso e arrumo como as rugas dela, usada e arrumada e velha, as moedas pretas todas contadas, e os passos? um esforço atrás do outro, a rondar o peixe, uma mulher estatística como os números, não tem valor individualmente. Abstracta.

Todavia, o corpo tão amado do amor: a linha da pálpebra, o timbre da voz, a infância agarrada à pele, a harmonia que sempre o equilíbrio tem. É o verso tirado de dentro do poema, o meu sol particular arrancado ao preto sideral e frio.

Talvez seja fácil este amor concreto porque é ao perto. Contadinho. Amor em moedas escuras. Mas não é esta a dimensão da vida. Ou é? A escala não é a humana, pois não?

Penso que enlouquecemos. Em algum ponto isso aconteceu e estamos meio doidos. É verdade que deixei de comprar Le Magazine Littéraire. Hoje comprei. Estava chateada e comprei-a. Entre páginas muito melhores, um artigo sobre blogs de crítica literária, bons e maus e porquês: porque a crítica estava ser paga pelo marketing e feita por quem nem lia os livros, ou só porque sim, quero dizer o que me apetece. Está bem. A questão não é o blog nem é o jornal ou a revista. Onde estão os críticos que deveriam levar o público à obra? Não é isso a crítica? Como se pode levar quem quer que seja a lugar que não se sabe onde fica? É preciso conhecer e não há conhecimento sem amor. É fácil chamar-lhe putaria cultural. Ou política ou empresarial, tanto faz. É paga à vista e antes da função. E então? Nem por isso deixam de ter contas ao fim do mês. Seja a da luz ou a de mil salários. São caçadores como o foram os seus antepassados. Matam para sobreviver. No entanto, em algum lugar adoecemos porque nos fizemos homens caçadores de homens.

Não sei o que fazer. Há um céu e é azul. Há o amor e és tu. A arte, o trabalho e a vida. Há uma mulher que precisa morrer, a que às vezes chora às vezes reza, outra que ronda o peixe. E há canibais e não sei o que fazer.

Alguém antes de mim não soube e mundo não fechou por causa disso. Mas vamos, mansamente, enlouquecendo. Foi ela, Cristina Campo quem disse: Dantes o poeta existia para nomear as coisas: como se fosse a primeira vez, diziam-nos em crianças, como se fosse o dia da Criação. Hoje em dia ele parece existir para se despedir delas, para as recordar aos homens, terna e dolorosamente, antes que sejam extintas. Para escrever os seus nomes na água: talvez nessa mesma vaga que daí a pouco as arrastará consigo.

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.

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14 respostas a Nessa mesma vaga

  1. curioso (vaga mente) diz:

    que mais nus irá acon tecer? serão os alertas amarelo, laranja, vermelho que nus estão a contaminar a vaga ex perança? não há céu azul, não. nem céu. há vagas negras que em fortes rajadas se abatem sobre as terras en charcadas 🙁

  2. Ninguém sabe o que fazer. Esta sua deriva sobre o amor, a morte, a necessidade e o trabalho, não tem uma solução. Uns dias criamos soluções, no dia seguinte despedimo-nos delas, como ensina a sua Cristina Campo. E não vale a pena chorarmos copiosamente sobre o nosso tempo.Não creio que os tempos que já foram tempo tenham alguma vez sido diferentes. Amemos, pois, o que de concreto e efémero haja para amar.

    • Tem razão em tudo, claro. A despropósito: conhece um livrinho que a A&A publicou com orações da antiga liturgia cristã, O Dom das Lágrimas? De cor, lembro só estas duas linhas:

      Alaga nossos olhos com rios de lágrimas
      que apaguem as flamas dos incêndios merecidos

  3. Teresa Conceição diz:

    Eugénia,
    creio, ou gosto de crer, que os sóis particulares nos resgatam da loucura.
    Os sóis que inventamos ou descobrimos, o amor inexplicável, a escrita e a leitura que nos devolvem o sentido e a harmonia. Fora disso, venham vagas e chuvadas.
    Há que passar por eles, além deles, mesmo com o impermeável roto.
    Obrigada pelo lindo texto.

  4. Rita V diz:

    um belíssimo título para um ‘poste’ magnífico. E olhe só…a onda trouxe a Tê.
    🙂
    double good

  5. Paula Santos diz:

    Não sabe o que fazer? Continuar a escrever assim..:-)

  6. ~CC~ diz:

    Eugénia, também acho este texto um sublime retrato das lágrimas que nos correm por dentro nestes tempos difíceis, saltando tantas vezes a meio dos dias.Escreva que nos conforta saber que há outros que sentem como sentimos.
    ~CC~

  7. Muito obrigada, ~CC~, pelo inesperado conforto.

  8. nanovp diz:

    É isso mesmo, desbravar a floresta densa do desãnimo com a graça ultima das palavras que se tornarão actos.

  9. O Verbo, mas de esperança. Que bonito.

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