O comboio e as cerejas

 ponte

Lembranças. Aos 5 anos, de comboio. Uma viagem longa e surpresas irrequietas.
Levantava-me, sentava-me, espreitava à janela que nesse tempo ainda se podiam
abrir. De repente, a velocidade reduziu-se e o comboio entrou, majestoso, numa
ponte, um rio cá em baixo no que aos meus olhos pareciam mil metros de altura.
Mas a impressão que mais perdurou colou-se-me ao céu-da-boca: o sabor das
cerejas que comemos, a minha mãe, a minha irmã e eu, no pequeno compartimento
que ocupávamos. Ainda hoje os comboios me sabem a cerejas.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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17 respostas a O comboio e as cerejas

  1. curioso (gostei) diz:

    Talveez na Régua, com rebuçados, mas em Maio?

  2. Vasco (da) Gama diz:

    as memórias, como esta, que inclui detalhes de sabores e cheiros são fabulosas

  3. Bem me parecia que sempre foste um lambareiro.

  4. Paula Santos diz:

    “Ainda hoje os comboios me sabem a cerejas”

    Como lhe posso dizer o quanto gostei deste texto? Muito bonito.

  5. As palavras são como… os comboios, uma carruagem atrás da outra. Anda a perverter os ditados, acha bem?! Dê cá uma linda cereja preta, duas, para me saber a quando éramos pequenos.

    • Sabe, Eugénia, as pessoas queixam-se de mais. Noutro dia comi uma manga que me soube à melhor manga que já comi. Envergonhou todas as mangas da minha infância e adolescência. Há cerejas no futuro que não hão-de ter nenhuma inveja das cerejas do passado.

  6. Lá sou queixinhas, eu?! Tanta converseta só para ficar com as cerejas todas para si, égoiste! Vou-me já embora.

  7. Rita V diz:

    Lembrei-me da Régua, daquela carruagem em que o Douro aparece nu a tomar banho.

    • Também a Rita ficou a pensar na Régua? É engraçado, esta minha viagem de 1959 foi na então linha da Beira Baixa. Devo ter apanhado o comboio em Vila Franca das Naves para Lisboa. E o mundo, que via pela primeira vez, saído de uma aldeia onde devia ter sido camponês, quem sabe se secretário de uma junta de freguesia, parecia-me gigantesco, cada árvore uma sequóia, cada rio um Amazonas.

      • curioso (pouca terra) diz:

        pois será terrível agora, na viagem à nossa aldeia, constatar que o que então era grande nos parece hoje incrivelmente pequeno: as casas, as ruas, as escolas… tempos difíceis que nos fizeram sonhar e crescer

  8. António Barreto* diz:

    As cerejas da saudade, cerejas âncoras. As cerejas da vida. Também gosto de cerejas.

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