O estranho Nobel que veio da China

Mo Yan

“- Eu sei bem o que aconteceu aqui hoje. Obrigada, meu ex-colega de turma – disse ela, levando à mão à carteira e retirando um envelope.

– Estão aí dentro dez mil. Espero que chegue para presentear o Chefe Lu e os restantes com uma boa garrafa…

Parei um segundo para pensar.

– Está bem, ex-colega de turma – disse eu -, vou aceitar. “

 

Para quem não tenha ainda percebido, o diálogo que acima vem reproduzido representa nada mais nada menos do que a consumação de um acto de corrupção. O relato fecha um livro, recentemente editado em Portugal, de título Mudanças. A coisa nada teria de estranha se o seu autor não fosse o chinês Mo Yan, Prémio Nobel da Literatura em 2012. E continuaria sem nada ter de estranho se a narração não fosse feita na primeira pessoa e a obra não fosse abertamente assumida – pelo próprio autor e o seu editor em Portugal – como uma autobiografia (é certo que o editor refere um “misto de romance e autobiografia” mas a circunstância de nenhuma pista nos ser dada sobre onde acaba o primeiro e começa a segunda leva-nos a acreditar que todos os episódios relatados por Mo Yan aconteceram verdadeiramente). Para os habituais padrões da Academia Sueca – que anualmente escolhe o premiado e bastas vezes não esconde as motivações políticas da escolha – a confissão acima descrita, bem como o tom geral de tolerância que perpassa nas páginas do livro em relação à opressão e falta de abertura do regime chinês, seriam mais do que suficientes para erradicar Mo Yan (este um pseudónimo do nome de registo Guan Moye, que, curiosamente, significa “não fale”) do mais leve esboço de candidatura àquele que, apesar de tudo, ainda é o mais prestigiado prémio literário do mundo.

Mas tudo isto seria mais ou menos irrelevante se a qualidade da escrita de Mo Yan fosse absolutamente esmagadora, a ponto de deixar o mais exigente crítico convencido sobre os méritos puramente literários da sua obra. Bem sei que um livro não faz a obra. Mas, caramba, este livro não é qualquer um. Sendo uma autobiografia, ainda que muito resumida, funciona como um cartão-de-visita de Mo Yan. E, pela amostra, ficamos com a impressão que, não se podendo dizer que escreve mal não senhor, Mo Yan é um escritor como há aos pontapés por esse mundo fora, Portugal incluído.

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

9 respostas a O estranho Nobel que veio da China

  1. Henrique Monteiro diz:

    Eu não li este senhor. Mas duvido que haja Nobel mais estranho que o de Dario Fo. Enfim, como dizem os velhos, aquilo já não é o que era…

    • Parece que as actas da Academia que explicam os critérios da atribuição só ficam disponíveis 50 anos depois. Pois é, Henrique, já não estaremos cá para saber porque é que Dario Fo e Mo Yan, entre outros premiados muito discutireis, ganharam o prémio.

      • curioso (nobel mente) diz:

        não me parece que as actas possam convencer quem não acredita e não aceita decisões tomadas.

        On 11 October 2012, the Swedish Academy announced that Mo Yan had received the Nobel Prize in Literature for his work “with hallucinatory realism merges folk tales, history and the contemporary”. Aged 57 at the time of the announcement, he was the 109th recipient of the award and the first ever resident of mainland China to receive it—Chinese-born Gao Xingjian, a citizen of France, having been named the 2000 laureate. According to Swedish Academy head Peter Englund: “He has such a damn unique way of writing. If you read half a page of Mo Yan you immediately recognise it as him”.

        Awards and honours

        1998: Neustadt International Prize for Literature, candidate
        2005: Kiriyama Prize, Notable Books, Big Breasts and Wide Hips
        2005: Doctor of Letters, Open University of Hong Kong
        2006: Fukuoka Asian Culture Prize XVII
        2007: Man Asian Literary Prize, nominee, Big Breasts and Wide Hips
        2009: Newman Prize for Chinese Literature, winner, Life and Death Are Wearing Me Out
        2010: Honorary Fellow, Modern Language Association
        2011: Mao Dun Literature Prize, winner, Frog
        2012: Nobel Prize in Literature

        Novels

        Falling Rain on a Spring Night (1981)
        Red Sorghum Clan, including five volumes: “Sorghum Wine”, “Sorghum Funeral”, “Dog Road”, “The Odd Dead”, “Red Sorghum” (1987; English: 1993)
        The Garlic Ballads (1988; English: 1995)
        The Republic of Wine: A Novel (1992; English: 2000)
        Big Breasts & Wide Hips (1996; English: 2005)
        Sandalwood Death (Tanxiang Xing). Translated by Howard Goldblatt. Norman: University of Oklahoma Press, 2013.
        Life and Death Are Wearing Me Out (2006; English: 2008)
        Change (2010) ISBN 9781906497484
        Frog (2011) ISBN 7532136760
        Pow! (2013) ISBN 9780857420763

        • Caro Curioso, não se trata de convencer quem não aplaude a decisão, apenas de perceber o que é que justifica a escolha de um em detrimento de outros. Como ficámos a saber ainda agora com a divulgação das actas do prémio de 1962 que foi atribuído ao Steinbeck, a escolha quase que foi determinada por exclusão de partes em relação aos demais candidatos.

          • curioso (nobel relativo) diz:

            ainda mal: por que havemos de exigir justiça numa coisa que não é nossa… quando se tem provado à saciedade (na nossa sociedade) que não há justiça que nos valha, mesmo quando supostamente é soberana e de direito?

            os excluídos tinham o direito de reclamar?
            fizeram-no?

            ainda há pouco havia polémica cá no sítio sobre prémio das nossas letras… e ficou como estava: bem (contra a vontade de alguns… como sempre).

            serão mais uns ‘moinhos de vento’ transformados em inimigos do galhardo cavaleiro…

            quem será o próximo? será justamente atribuído?
            veremos 😉

            para que serve a explicação: …for his work “with hal­lu­ci­na­tory rea­lism mer­ges folk tales, his­tory and the con­tem­po­rary”?

            valerá a pena desenterrar o (Nobel do) Saramago? RIP

  2. Para os habi­tu­ais padrões da Aca­de­mia Sueca – que anu­al­mente esco­lhe o pre­mi­ado e bas­tas vezes não esconde as moti­va­ções polí­ti­cas da esco­lha (…)

    Querido Diogo, de um autor que usa o pseudónimo não fales, parece-me muitíssimo equilibrado que a Academia premeie as famosas paredes de vidro.

  3. Eugénia, parece que o homem, em tempos, falou e falou demais. Segundo consta, excedeu-se na carga sexual no único livro que, até este “Mudanças”, tinha sido editado em Portugal. Foi obrigado a fazer mea culpa e a retirar o livro de circulação. Agora, a ideia que dá é que estas paredes de vidro foram previamente combinadas com quem manda no país. Nada como um sopro de transparência para desviar as atenções do essencial. Estranho é que a Academia se contente com tão pouco.

  4. Diogo, talvez em mandarim soe melhor. Isto das traduções às vezes é o diabo. Seja como for, o Updike gostou à brava do que leu e, no “The New Yorker” li um excerto que me tocou:

    She stuck the white doves up under my nose, and I urgently, cruelly grabbed one of their heads with my lips. Big as my mouth was, I wished it were bigger still…. I had one of them in my mouth and was grasping the other in my hands. It was a little red-eyed white rabbit, and when I pinched its ear, I felt its frantic heartbeat.

    Read more: http://www.newyorker.com/online/blogs/books/2012/10/john-updike-on-mo-yan.html#ixzz2Hu5E6ddS

    Note-se que as white doves a que Mo Yan se refere são duas belas maminhas. Um tipo com esta fome bem pode ser que seja bom escritor.

    • Manuel, fica sabendo que não gostei menos de que tu dessas white doves. Mas ou muito me engano ou esse excerto faz parte do Peito Grande, Anca Larga, que foi proibido na China depois de o próprio Mo Yan ter sido obrigado a escrever um texto de arrependimento. Este Mudanças que li deve ter passado pelo crivo apertado da censura chinesa, de tão incipiente que é.

Os comentários estão fechados.