O livro mais diferente de todos os livros

Há um livro que é diferente de todos os outros livros, embora seja semelhante ao mais conhecido livro do mundo. Chama-se La Bible – assim mesmo, em francês, porque este livro não existe em português. Tem o cognome de Bible des poètes ou Bible des linguistes, e, apesar de ter o imprimatur dos Bispos de França não pode ser utilizada em atos litúrgicos. É uma edição da Bayard, de 2001, que se estende por quase 3200 páginas (em papel bíblia claro).

A ideia foi traduzir a Bíblia a partir das fontes primárias, sem reverter à vulgata de São Jerónimo. Ou seja, cada especialista traduziu diretamente do hebraico ou do grego, consoante os casos. O resultado é uma surpresa. Uma enorme surpresa.

Deixo-vos aqui o exemplo das primeiras cinco linhas do Génesis. No original (francês) e depois no português das traduções da vulgata.

La Bible, edição Bayard, 2001

La Bible, edição Bayard, 2001

Premiers
Dieu crée ciel et terre
Terre vide solitude
noir au-dessus des fonds
souffle de dieu
mouvement au-dessus des eaux
Dieu dit lumière
et lumière il y a
Dieu voit la lumière
comme c’est bon

Na tradição comum da vulgata o mesmo texto fica assim:

No princípio, Deus criou os céus e a terra.
 A terra estava informe e vazia; as trevas cobriam o abismo e o Espírito de Deus pairava sobre as águas.
Deus disse: “Faça-se a luz!” E a luz foi feita.

Deus viu que a luz era boa

Naturalmente, existe uma diferença substancial entre a palavra primeiro e a expressão No princípio. Uma é sequencial, outra é temporal. A palavra original em hebraico, bèreshît é uma locução composta de uma preposição e de um substantivo. Esta palavra, que deu séculos de discussão e que pode ser traduzida de várias formas (talvez primícias seja a palavra portuguesa mais aproximada) acabou por ter sido trasladada para o grego por εν αρχη, ou seja en archè (na Septuaginta, os livros do Antigo Testamento traduzidos em Alexandria, por 72 rabinos, entre o primeiro e o terceiro século a.C.) e para o latim, na vulgata de São Jerónimo, para In principio. A questão desta palavra, sem me alongar, levanta outro problema exaustivo – a criação foi um creatio ex-nihilo, ou seja, uma criação a partir do nada? Ou uma primícia, quer dizer o início (ou reinício) de um ciclo, no sentido em que as primícias são os primeiros frutos colhidos ou os primeiros animais que nascem num rebanho (e que, em hebraico, se dizia bèreshît), sem indicar que esse fosse o primeiro dos rebanhos ou o primeiro dos frutos de de todos os tempos.
Significativa é também a expressão terra deserta solidão (Terre vide solitude) da expressão hebraica tohû wabohû que significa também deserto sem pistas (sem caminhos) e que as traduções gregas descrevem como vazia ou nada dando a expressão que atualmente se lê ‑ informe e vazia.

Como se vê, só em 10 linhas há um mundo de interpretações. Ao longo das mais de 3200 páginas conseguimos redescobrir parte substancial do nosso múnus cultural, sabendo, sobretudo, de onde vimos – do deserto, de uma sociedade de pastores que imprimiu, no barro que é o homem, tantos conceitos que hoje confundimos.

E a que propósito vem este post? Pois bem, um post não precisa de a propósitos, mas em breve farei a reinterpretação de Adão e Eva no Museu das Curtas, à luz desta diferente Bíblia simultaneamente bela e estranha.

 

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom. Sem nunca me levar a sério - no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom (e barato).
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11 respostas a O livro mais diferente de todos os livros

  1. Fascinante. Substantivamente, essa é a grande discussão da astrofísica na actualidade: o Big Bang é uma irregularidade quântica no vazio (um creatio ex-nihilo) ou uma consequência cíclica do multiverso (uma primícia)?

    • Henrique Monteiro diz:

      Exato, Pedro. Não há nada de novo, é tudo recomeços, como diz aquela roda indiana cujo nome me escapa

  2. Henrique, fiquei cliente. Vou mandar vir, mas fico já à espera das tuas prometidas revelações adâmicas.

  3. E eu também. Quero ler isto.

    • Henrique Monteiro diz:

      Não espere demasiado, sou um triste escrevedor com falta de tempo e trabalho chato a mais

  4. curioso (rabin hood) diz:

    por muito que nos entretenhamos sobre o trabalho dos 72 rabinos a questão permanece no âmbito do sexo dos anjos.

    o outro Henrique Monteiro tem soluções muito mais práticas para casos transcendentes do nosso quotidiano (vai haver vida depois da troika?)

  5. Carlos Figueira diz:

    Muito interessante, Henrique. Traduzir não é fácil. A vulgata era uma edição para o povo, uma interpretação para latim corrente, nem tão pouco erudito, do texto grego original. E quando se trata do livro mais lido do mundo, a tradução faz toda a diferença.

  6. Maria do Céu Brojo diz:

    “Faça, faça que o seu fazer tem graça”. Cá o espero que por novidades destas «pelo-me».

  7. armando miguez diz:

    Gostaria muito de ter esta Bíblia. Este compêndio é sem duvida um grande baú (estilo pirata) cheio de tesouros, para descobrir e também mal usados pelos sábios, sabichões e sabidos deste mundo. Certamente as pedras falarão (não estou a chamar pedra ao Henrique, longe de mim) . Quem tem ouvidos para ouvir ouça, e cá espero a sua contribuição e que seja inspirada! Abraço

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