O verdadeiro poste

  

  Este é um post com um poste dentro, ou vice-versa – parecido com um post que plantei noutra rua, mas que aqui ganha cores que não vêm em bisnagas.

        As chamas vieram por um poema. Um sozinho. Quando o recitava de cor em voz alta, como quem conta uma história não escrita, arrancava, qual dentista, uns sorrisos amarelos (nada que se aproxime ao riso anedota, Bidarra, sorry). Nunca conheci ninguém que o recordasse. Só eu parecia achar que aquelas linhas não tinham flores: tinham faísca.

fotos tc dragão 287

        Esbarrei no poema pela primeira vez no tempo pré-adolescente de descoberta de António Gedeão. As pontes entre ciência e palavra abanaram-me. O núcleo da lágrima era o cloreto de sódio, e assim se inutilizava o racismo; no íntimo do sonho estava a cisão do átomo, o radar, o foguetão que desembarca na superfície lunar… o poema tinha Tintin, e ir dormir era a certeza de grandes aventuras.

           Não fazia ideia, quando a li, que a “Pedra Filosofal” teria dado força à geração reprimida e aos que se atormentavam contra ditadura e guerra colonial. De tão repetidos e banalizados poemas e canções, acabei por embirrar com eles.

           Reconciliei-me com António Gedeão numa edição bonita do ano da morte de Rómulo de Carvalho. E reencontrei as linhas que me agarraram, aos 11 anos.

Poema do poste com flores amarelas                   

             A mão-de-obra desleixada trouxe uma revelação: a descoberta científica dos locais secretos onde se escondem os dragões. E a real cor dos verrinosos bichos – entre o ferro e o verdoso, não havia tubos de tinta assim – era uma cor muito difícil de fazer, escapava rutilante-cintilante. Lembro-me de tentar desenhos elaborados das escamas e da cauda pontiaguda e sem fim. E de ter passado a olhar com um respeito muito alto para os postes.

A. POSTE-DRAGÃO TC

Não me safei: mais de uma vez distraí-me em busca de flores que não estavam lá e esbarrei no poste. E os embates comprovaram-me a verdade do poema: o dragão existia e lançava-me fogo intenso na testa, antes de desaparecer rutilante-cintilante.

 

Sobre Teresa Conceição

Ainda estou a aprender esta terra de hieróglifos. Tenho na mala livros e remoinhos, mapas e cavalos guerreiros, lupas e lápis de cor: lentos decifradores. Sou nativa de Vadiar, terra-a-terra. Escrever? Ainda não descobri onde fica. Mas parto com bússola e farnel (desconfio que levo excesso de bagagem).
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4 respostas a O verdadeiro poste

  1. Quem havia de dizer que havia em si uma Menina Dragão? Sabe onde há lindos postes com escamas destas, flores não prometo para não incumprir? Em Estremoz.

  2. Rita V diz:

    lindo lindo lindo

  3. Ivone Costa diz:

    Que bom lê-la, Teresa, agora que o vento começa a parecer que quer acalmar e a electricidade voltou. Que belo dragão trouxe consigo, todo luz e fogo.

  4. nanovp diz:

    Gostei muito do poste e das flores, venham mais memórias dessas…

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