Pantalha ao serão

 

 

Vic­tor Brau­ner, Adão e Eva, 1923, 70 x 100 cm, ICEM, Tulcea

Vic­tor Brau­ner, Adão e Eva, 1923, 70 x 100 cm, ICEM, Tulcea

Fora, noite invernosa. Dentro, calor, luzes indiretas, coadas umas pelos abat-jour, outras por camuflagem de vidro discreta. Exotismos envasados. Banqueta pequena no ângulo reto do sofá. Vestimenta: pijama e meias de lã. Na hora de dormir, é o nada que garante, inteiro, o tato com a macieza dos lençóis. Antes, o serão. Sendo a mulher «papa-filmes», acomoda-se na banqueta rente ao ‘afegão’ sem que descure o amparo das costas pelo sofá. Mania de desprezar almofado e afofado em troca de couro gasto e ladeiro jamais alguém entendeu.

Ele imerso em trabalho de casa que a empresa não obriga, obrigando. Após o duche à chegada, protege-o roupão felpudo. Pés em chinelos turcos cor-de-ameixa. A darem com os lençóis e a capa do edredão. Minúcias que aprecia. Que ajudam e conjugam partilhar. Que também alegram o final do dia.

Ela, pantalha ligada, digere trindade de filmes no tempo costumado. O justo para a demora na coincidência de laço dos corpos e quenturas e gemidos trocados na rodilha das parcas horas até o despertador soar. Porque esganiçado, clarim de «alevanta magalas».

Mas ela via filmes. Por ser Inverno, não contemplando a ambiência neve, voltava o disco ao polímero antes de mostrar valia. Naquela noite precisa, deslizaram no ecrã uma Moore com moderado desfoque de botox mais o Nicolas Cage dirigidos pelo Norman Jewison no Moonstruck. Ela, desvanecida com o romance, com o branco do Little Italy nova-iorquino tresandando a famelgas mafiosas. Funcionários divinos seduzem clientes para restaurantes de charme tanto quanto o deles, lembrava. Não respondeu a pergunta enciumada feita pelo ele ao lado. A partir daí, a intervalos, erguia o olhar do monitor e assestava-o nela.

Neve segunda encontrou-a no The Big White estrelado por Robin Williams e Holly Hunter num Canadá que de tão branco só visto. Quando o rol técnico fluía, ele ainda não completara o homework. Ela serviu-lhe chá branco, “Pai Mu Tan” de Fujian, na chávena por ele preferida. Mimo, entretém que bem saberia. E soube. E bebericaram juntos.

Voltando ele às teclas, ela ficou-se pelo Canadá. Neve terceira: Fargo com a tragédia combinada do branco, morte e dinheiro. Más-línguas dizem The Big White imitação menor de Fargo. Ela perguntou-lhe o que achava: _ Que não, que era profunda a diferença: no Fargo, reinava ambição; na neve segunda, amor incondicional.

Espreguiçou-se. Foi à cozinha buscar maçã encarnada à fruteira. Sem a roer, falou com um dedo. Ele seguiu-o. A cumplicidade e o desejo e o quente e o ainda hoje suculento como a maçã na noite fizeram hino.

Sobre Maria do Céu Brojo

No tempo das amoras rubras amadurecidas pelo estio, no granito sombreado pelos pinheiros, nuas de flores as giestas, sentada numa penedia, a miúda, em férias, lia. Alegre pelo silêncio e liberdade.
No regresso ao abrigo vetusto, tristemente escrevia ou desenhava. Da alma, desbravava as janelas. Algumas faziam-se rogadas ao abrir dos pinchos; essas perseguia. Porque a intrigavam, desistir era verbo que não conjugava. Um toque, outro e muitos no crescer talvez oleassem dobradiças, os pinchos e, mais cedo do que tarde, delas fantasiava as escâncaras onde se debruçaria.
Já mulher, das janelas ainda algumas restam com tranca obstinada. E, tristemente, escreve. E desenha e pinta. Nas teclas e nas telas, o óleo do tempo e dos pinceis debita cores improváveis sem que a mulher conjugue o verbo desistir. Respira o colorido das giestas, o aroma dos pinheiros nas letras desenhadas no branco, saboreia amoras colhidas nos silvedos, ilumina-a o brilho da mica encastoada no granito das penedias.

Esta entrada foi publicada em Museu das Curtas. ligação permanente.

8 respostas a Pantalha ao serão

  1. Maria do Céu Brojo diz:

    Porque o vídeo falha, segue aqui:

  2. Rita V diz:

    ah ah ah, já tinha ouvido chamar muita coisa agora ‘hino’ … só mesmo a Céu. ah ah ah …

    • curioso (ca moesas) diz:

      seria mais hiiii… hiii … hiiii …. noo…. noo… enough!

      dúzias de maçãs… sucu lentas… sem roer… só denta dinhas 😉

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Deve ser herança do extremado pudor das matriarcas rígidas. 🙂

  3. Maria, a sua heroína vê tantos filmes numa noite como a minha Pfeiffer no “Frankie and Johnnny”. Mas a minha Michelle, em vez da maçã, fica-se pelo spaghetti…

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Ai o que foi lembrar! O “Fran­kie and Johnny” e a sua/minha Pfeiffer são lembranças adoráveis!

  4. Às vezes a vida é de filmes de carne osso.

Os comentários estão fechados.