Poema com meio retrato mas sem Musas

Eu à espera de um poema. Porto (Majestic), Janeiro de 2010. Fotografia de José Ricardo Costa.

Eu à espera de um poema. Porto (Majestic), Janeiro de 2010. Fotografia de José Ricardo Costa.

São nove as Musas, eu sei,

de tanta gente bem podia

 vir uma delas, não faço questão,

estender-me um poema  embrulhado em celofane,

rebuçado de sílabas que eu chupasse devagar,

a deixar-me na boca um travo temperado de café.

Mas nem uma se digna

a  vir, ao menos, deitar-me dentro da chávena

o sabor das palavras já pedidas.

Por isso, sigo as imagens.

Creio que por temas, não estou certa:

lago ou casa,

máscara mortuária,

epitáfios de água nas janelas fechadas.

Espelhos (outra imagem)

por onde saio para o mundo dos meus versos,

companhia de espectros ao fundo do quadro.

E muitas vezes me perco.

 

 

Sobre Ivone Mendes da Silva

Entre lobos e anjos me habituei a escrever. É talvez por isso que, para além de asas e de uivos, as palavras me tropecem e não encontrem sozinhas o caminho das folhas. Nessas alturas, peço para elas a bênção da tristeza, musa de sopro persistente, que triste me faz e a acolhedoras mesas me senta.
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

8 respostas a Poema com meio retrato mas sem Musas

  1. heloisa diz:

    Se este (tan belo poema!) já não é a inspiração da Musa, o que será, então? Uma epifania?

  2. Ivone Costa diz:

    Heloísa, isso do tan belo é da sua leitura que é generosa. A Musa, ou as Musas, fazem-me muitas negaças.

  3. Rita V. diz:

    Oh! Perder-se em sílabas doces…quem não gostaria

  4. nanovp diz:

    Perdi-me, e foi bom Ivone.

Os comentários estão fechados.