Preto no Branco

"Django Libertado", de Quentin Tarantino

“Django Libertado”, de Quentin Tarantino

Um bom Tarantino é melhor do que 90% dos filmes actuais. Mas um bom Tarantino não é um grande Tarantino, e “Django Libertado” não deixa de ser uma razoável decepção. Quentin Tarantino é um “junkie” da mistura  de géneros, um coleccionador de referências pop, um garimpeiro de obras de culto, espécie de Indiana Jones da Série C. Os seus filmes marimbam-se para a fluidez narrativa como um miúdo guloso que pensa apenas na sobremesa. As personagens não falam, envenenam lentamente o opositor com a sua prosápia. A atmosfera depende da bela chungaria que o inspira a cada momento: o “polar” e o cinema urbano de Hong Kong em “Cães Danados”; a literatura “pulp” e as fitas “rockabilly” em “Pulp Fiction”; a “blaxploitation” em “Jackie Brown”; o “wuxia” e a “anime” em “Kill Bill  Vol. 1”; o “western-spaghetti”  e o “giallo” em “Kill Bill Vol 2”; os “slasher films” dos anos 70 em “Death Proof”; a paródia das fitas da Segunda Guerra Mundial no delirante “Sacanas Sem Lei”.

Tarantino é uma jukebox de géneros, estilos e tendências, e o seu génio revela-se na forma como os copia e recicla, criando algo de original (Howard Hawks, que Tarantino idolatra, dizia que “os melhores cineastas são os que sabem roubar aos outros”). QT vive nas margens de um rio onde flui toda a história paralela do cinema, usando a sátira como lancha. É nesse contexto que é preciso compreender “Django Libertado”. Trata-se da história da vingança – todos os filmes de QT são histórias de vingança – de Django (Jamie Foxx), um escravo libertado por um caçador de recompensas alemão (Christoph Waltz) no Sul dos EUA em meados do século XIX, que procura resgatar a amada Broomhilda (Kerry Washington) das garras do dono de uma plantação no Mississippi (Leonardo Di Caprio divertindo-se à grande).

A nova tripe tem recebido muitas críticas pelo conteúdo “racista”, e o primeiro a apontar o dedo foi (já é hábito) Spike Lee. O director de “Do The Right Thing” afirmou que a escravatura negra não foi um “western-spaghetti” – as coboiadas dos Sergios, Leone, Corbucci e Solima, serviram de fonte de inspiração a “Django Libertado” -, foi “um holocausto”. Mas levar à letra o ódio verbal e a violência gráfica que transpiram nos filmes de Tarantino é desinvestir na inteligência. Lee não percebeu o que o bardo do Tennessee anda a fazer há duas décadas: autoparodiar os géneros, desmontar os seus códigos e referências, baralhar as peças de novo, pintá-las de cores psicadélicas (no caso, de laranja e vermelho sangue), reconstruir a tela e oferecer um quadro irónico onde os arquétipos se riem uns dos outros às gargalhadas. O que intriga pela negativa em “Django Libertado” não são as liberdades com a História, ou as inclinações sádicas trademark. Sendo o cinema de Tarantino um cinema de vinhetas cuidadosamente delimitadas na acção de cada filme, o que intriga é “Django Libertado” não ter mais do que uma cena de antologia – acontece quando Calvin Candie resolve tirar de uma caixa, ao final do jantar, o crânio de Ben, um antigo escravo, para demonstrar a sua teoria “científica” da inferioridade da “raça negra”. Ora, fechem os olhos por um segundo e recordem-se dos momentos inesquecíveis das fitas de QT: podem começar na conversa sobre a virgindade de Madonna em “Cães Danados”, de 1992 e acabar numa Soshana Dreyfuss preparando-se para a matança ao som do “Putting Out Fire (with gasoline) de David Bowie em “Sacanas Sem Lei”, de 2009, que encontrarão vários momentos seminais por longa-metragem (até “Death Proof” tem o strip de Vanessa Ferlito mais a indescritível perseguição automóvel do clímax). Maturidade? Maturidade é “Jackie Brown”, não esta procissão de clichés invertidos até à caricatura “manga” com esporas e chicote.

Há mais cinema, e portanto mais Tarantino, só na primeira meia-hora (essa espécie de curta escrita a meias por Arthur Miller, David Mamet e Jean Genet) de “Sacanas Sem Lei” , o seu penúltimo filme, do que nos 165 minutos deste “Django Libertado”. É tempo de esperar pelo próximo “opus”. Porque um grande Tarantino faz muita falta.

Publicado na revista “Sábado”

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.
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10 respostas a Preto no Branco

  1. Rita V. diz:

    Não me dás grande vontade de ir ao cineminha. Mas é muito bom ler-te.
    🙂

  2. Já cá venho ler isto, Pedro. Com calma que em viés tive um desgosto: pelo-me pelo Tarantino, agora até tenho medo de ir ver, mas vou na mesma.

  3. Vão, Rita e Eugénia, por favor. Em aurea mediocritas (século XXI e seguintes?), o Tarantino é um consolo, mesmo em variações menores. Se me compararem a coisa com Visconti e Straub é que já fico chateado – há limites para o método com que se aldraba os leitores incautos. Bjs

  4. Não estou a falar das meninas, obviamente. Estou a falar de coisas que li na imprensa, de boca muito aberta.

  5. monica diz:

    nem pensar em ler o texto, quero ver o filme primeiro ;)))

  6. Maria do Céu Brojo diz:

    Agora é que vou ver o publicitado “Django”. Belissimamente informada dos podres pelo Pedro, a fita terá sabor outro. 😉

  7. Diogo Leote diz:

    Não sendo um mau filme, o Django é uma enorme decepção. Muitos, muitos furos abaixo do genial Inglorious Basterds. E o Christoph Waltz já não surpreende: o seu Dr. King Schultz, no sotaque, tom de voz, gestos, cinismo, até mesmo no talento de poliglota, não passa de uma cópia do Coronel Hans Lada.

  8. nanovp diz:

    Ainda me ri no filme, e como bem dizes um Tarantino é sempre uns furos acima da generalidade do que passa por aí no grande ecrâ…mas é penosamente longo, um sintoma que em si denota que falta algo para chegar aos outros grandes…

  9. Henrique Monteiro diz:

    Vi, finalmente. Acho que começa muito melhor do que acaba. É fraquito para o standard QT

  10. Concordo com os dois, Bernardo e Henrique. Aguardemos pelo próximo.

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