Prolegómenos à Alegria

ART ME UP são textos sobre pintura e artes plásticas a propósito disto ou daquilo: uma exposição, uma instalação, uma conversa com um pintor, um escultor, uma dúvida. Mas sempre, e faço gosto em reafirmá-lo, investidos de paixão como a disse Pushkin, where there is no love of art, there is no criticism either. “Do you want to be a connoisseur of the arts? ” Winckelmann says. Try to love the artist, look for the beauty in it´s creations; como a encontramos no salmo: ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, sou como um bronze que ressoa ou como um címbalo que tine.

O próximo ART ME UP é sobre o trabalho de Ana Vidigal. Parte desse trabalho tem mais leitura se se conhecer um trabalho anterior: este que não publiquei no Escrever é Triste. Fi-lo apenas aqui, em Julho – na altura em que  esteve exposto na Galeria Municipal de Abrantes. 

ART ME UP
ANA VIDIGAL –  iv – AUSTERIDADE (E PEQUENOS SINAIS DE FUMO)
THE RING OF FIRE

Galreia municipal de Abrantes

Sobre esta exposição, Austeridade (e pequenos sinais de fumo), a decorrer na Galeria Municipal de Arte de Abrantes, e até dia 27 deste mês [Julho], nada li porque nada encontrei que não fosse o seu próprio anúncio ou o convite, todavia assisti a este vídeo-apontamento do Diário Câmara Clara, programa da RTP2. A exposição não tem catálogo. Apenas um registo. Não vem mal ao mundo: nem por isso deixa de lá estar, escrito a tinta invisível, não peça a peça, mas no todo que são os dois conjuntos formados por todas as peças expostas, tudo quanto Ana Vidigal quis dizer sobre a Austeridade (e pequenos sinais de fumo). Não só não vem mal como até vem bem ao mundo: quantas são as vezes em que os olhos podem beber livres a expressão e levar dessa água limpa ao pensamento?

578290_414910565216505_70412401A linguagem de Ana Vidigal não é parca, não é elíptica, nem sendo simbólica, é ambígua: é, sempre foi, exaustiva, minuciosa, explícita. Mordaz. Ridente. E anula a dúvida pela repetição compulsiva do assunto, do método, sobrevestidos ambos, camada sobre camada, só para despir até à última nudez: a da liberdade de seguir adiante: todos os trabalhos de Ana Vidigal são resolvidos durante o próprio trabalho, isto é, há um trânsito da experiência exploratória até à conclusão da exploração. Todo o caminho é feito, do planeamento à partida, da partida às conclusões temática e formal.

O que é o método senão o pensamento no seu rosto mais prático, aquele com que se vai ao mundo e à vida fora de portas e, às vezes, tantas vezes, dentro delas? Ana Vidigal, nos seus trabalhos, é como a cebola: está toda, está tudo, em cada camada, tudo é aproveitado, mas limpo até ao osso, e na última camada, ao centro do centro, nada. A última nudez: o retorno ao vazio criador: o único caminho para o contínuo recomeço, curso no favor do tempo, quanto tempo tenho para dizer? Este tempo interno, feito do número exacto que a cada um nos coube de batidas de coração, tempo de vida, espada sobre a cabeça, talvez não seja o mais visível nos trabalhos de Ana Vidigal onde os outros tempos do tempo são um eixo fundamental de compreensão, mas nem por isso deixa de ser o mais premente, o que empurra a criação adiante. Hoje. Presente. Viva. Agora. Quanto tempo tenho para dizer?
IMG_23~2O lado austero da Austeridade exposta, aponta, não à pobreza, ao caminho em direcção à pobreza, às pobrezas, da fome à cultura, do comportamento à ética, do vazio de ideais à desesperança. Pobrezas mostradas através da escassez dos recursos, poucos, utilitários, menores, como os dos dias deste dia-a-dia, ou, se preferir, nas palavras da própria artista: “É fazer o equilíbrio entre aquilo que estamos a viver (a austeridade) e aquilo que vamos ter de fazer para sobreviver.”

Este dias do dia-a-dia – eles, sim, um dos tempos maiores constituintes do eixo temporal de Ana Vidigal – que nos despojam, não apenas do hoje, também do futuro que se encolhe diante da impotência que aumenta e com ela a apatia do desencanto em alíneas visíveis: falta de esperança, atomização e solidão profundas e afundantes. Pulverizados, desumanizamo-nos: só somos em relação, coesa na identidade, plural nos valores. Desumanizados somos pasto de totalitarismos, conformados, enformados, somos o risco e o perigo de uma Europa que já nos viu, mais de uma vez, usar esse ser de horrores que temos pelo lado de dentro do desespero: se não há um eu que sonha, um ideal de nós, não se constrói esperança, constroem-se ideários. Quais? Que vamos ter de fazer para sobreviver? Usei-me. Que deixaremos que nos façam para sobrevivermos? Não deixei que nada me usasse. Não deixaremos?
IMG_23~1 (1)No lado dos Sinais de Fumo está, acima de tudo, mesmo por cima do que já arde e avisa do seu fogo, o desejo: o desejo de diálogo, o estabelecimento de relações afectivas e pensantes, evitadoras do fim. Dos fins. De que fins? De quaisquer uns da matéria do que não deve findar: o indivíduo livre, o tecido social vivo, irrigado e pulsante, o íntimo amor. Aqui, nos Sinais de Fumo, a linguagem faz-se de outros vocábulos, os roubados à infância, onde a vulnerabilidade se mostra. Porém, vocábulos intervencionados pela lucidez adulta, e mesmo cortante, da afiada língua adulta, do penetrante olhar adulto, onde igualmente se mostra a potencial impermeabilidade: fumo aviso de fogo. Retornam o jogo receptivo-activo, e a dualidade feminino-masculino: esperança e fim dançam juntos, sobre uma linha tão fina.

Austeridade (e pequenos sinais de fumo) são mais que austeridade e pequenos sinais de fumo: são código ancestral de comunicação extraído do fogo controlado. Mais uma vez a sobreposição de Eros a Thanatos, um dos mais belos traços da mão de Ana Vidigal.

Nota: THE RING OF FIRE, título que dei a este texto, foi roubado ao de uma canção popularizada por Johnny Cash.

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.
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16 respostas a Prolegómenos à Alegria

  1. curioso (en gano) diz:

    seja o que deus quiser: em arte os olhos também comem (não sendo o caso).

    a actual arte ‘gourmet’ tem muito que se diga (faria parte de uma boa e extensa intro dução?) e pouco que se coma, saboreie, recorde, repita (i’m sorry).

  2. Não sei o que os seus olhos comem ou deixam de comer, não sei o que é arte gourmet seja ela actual ou não, e sou pouco dada a generalizações quando presto atenção ao trabalho de alguém.

    Mas o caro Curioso coma do que gostar e faça a dieta que entender por bem – assim não tem do que estar sorry.

  3. Ivone Costa diz:

    Gostei muito disto: “todos os tra­ba­lhos de Ana Vidi­gal são resol­vi­dos durante o pró­prio tra­ba­lho, isto é, há um trân­sito da expe­ri­ên­cia explo­ra­tó­ria até à con­clu­são da explo­ra­ção” Coisa mais bem escrita, porque muito bem pensada, seria difícil.

  4. Rita V. diz:

    Fire é o ‘gás’ que a querida Eugénia V. dá às palavras na transpiração dos trabalhos da querida Ana V.

  5. Gostei desta sua austeridade exposta e de quanto ela quer apontar à paixão e à beleza, num tempo em que a arte tanto quer esconder-se dessa beleza.

    • Talvez se esconda por aquela pressão sobre o próprio artista, uma herança de engajamento, a atribuição de uma responsabilidade social e não necessariamente artística, lembra-se? la poesía es una arma cargada de futuro, do Celaya…

      • curioso (ar mado) diz:

        Décimas glosadas ao mote

        A Poesia é uma arma
        que defende a Liberdade
        Não há mentira que valha
        a grandeza da verdade

        pelo Ti Limpas, como homenagem a Manuel da Fonseca

  6. Maria do Céu Brojo diz:

    Não conheço a obra da Ana Vidigal. Todavia, a interpretação que dela a Eugénia fez despertar a curisosidade. Vou procurar informação.

    • A Ana Vidigal fez o primeiro banner convidado da nossa menina Escrever e tive, então, o gosto de fazer um texto a partir da restrospectiva de Ana Vidigal na Gulbenkian para o apresentar. Outros se seguiram, e já saíram da mala – estão aqui no nosso blog.

      Mas a melhor informação é ver com os olhinhos que a terra há-de comer, não é, Céu?

  7. nanovp diz:

    Apropriado título para a exposição, que revela um rasgo de esperança, essencial à nossa humanidade. Bela, sentida, a sua síntese Eugénia, e o Cash já sabe que pode sempre convidá-lo que será sempre bem vindo…

  8. Foi sim, Bernardo, e acredito que será muito interessante o avesso, o lado mais íntimo deste conceito que então a Ana Vidigal explorou. Merci.

    Cash… sempre.

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