Quatre consonnes et trois voyelles, o alfabeto de Carla Bruni

Verdade seja dita que só escrevo este post para pôr aqui a Carla Bruni a cantar para os   rapazes. De ordinário, não me atrai muito este tagarelar sobre a vida alheia, a não ser que sobre essa vida se tenham já passado uns bons quinhentos anos. O tempo é um grande escultor, não restem dúvidas, tudo esculpe e transforma do mais trivial em interessante. Querem ouvir a Bruni, não é? Já lá chegamos, que isto não é uma epopeia onde eu lance a narrativa in medias res.

C’ était une fois Bernard-Henri Levy. Ah, pois é. Julgavam que eu não tinha os meus interesses nesta história?  Tenho e são bem bonitos. Meninas, não vale a pena colocar aqui o BHL, pois não? O post é para os rapazes mas, se a memória vos atraiçoar, ide ao Google e vê-lo-eis surgir ravissant. Dizia eu, perco-me muito quando me fogem as teclas para estas zonas, que Bernard-Henri Levy estava a passar um  certo fim-de-semana em Marraquexe, onde tem um riad, acompanhado da loiríssima Arielle Dombasle, sua mulher. Pernoitavam também no refúgio marroquino do filósofo de Saint-Germain-des-Près a filha, Justine Levy, e o marido dela, Raphaël Enthoven, filósofo também ele e também um belo rapaz. Chega, então, o outro convidado: Jean-Paul Enthoven, pai de Raphaël, editor de BHL na Grasset e seu amigo depuis longtemps. Perspectivava-se um belo fim-de-semana. Precisamente isso foi o que deve ter pensado Raphaël ao ver quem vinha pelo braço do pai: Carla Bruni, a própria.

Aqui, impõe-se uma paragem. Se Marraquexe fosse a Grécia dos tempos míticos, já sabíamos no que as coisas iriam dar. Mas não era e Raphaël Enthoven tinha, além do mais,  as leituras dos clássicos em dia. Aprendera, por certo, a lição de Eurípides no Hipólito. O jovem herói rejeitara o amor de Fedra, a mulher de seu pai, em nome de um desprezo excessivo pelo culto de Afrodite e das vertigens do amor. Está-lhe reservada a morte porque os deuses castigam quem não aprende que no nada em excesso é que está a justa medida. Raphaël mostrou estar à altura do legado clássico e nada repudiou. Isto é, repudiou Justine que ficou inconsolável e a ela voltarei mais adiante. Carla Bruni, essa bateu longamente as pestanas, soltou-se do braço do pai e voou para o braço do filho.

E o tout Paris assistiu daí em diante ao desenrolar da liaison. E Carla, naquela conhecida vontade de dizê-lo cantando a toda a gente, cantava assim:

Justine ouvia Carla cantar que Raphaël c’est un diable de l’amour e quand il se penche mes nuits sont blanches e chorava muito, a probrezita. O apoio de Bernard-Henri Levy, que nisto de ser pai é uma fera, impediu-a de entrar numa depressão complicada nos tempos que  se seguiram ao divórcio.  Depois, ora depois a história é conhecida. La Bruni depois de Raphaël descobrirá o caminho do Eliseu e Justine, grande catarse é a escrita, publica em Rien de grave, 200 000 exemplares vendidos num instantes, a sua reconhecível história apesar dos nomes alterados das personagens. Sic transit gloria mundi.

Sobre Ivone Mendes da Silva

Entre lobos e anjos me habituei a escrever. É talvez por isso que, para além de asas e de uivos, as palavras me tropecem e não encontrem sozinhas o caminho das folhas. Nessas alturas, peço para elas a bênção da tristeza, musa de sopro persistente, que triste me faz e a acolhedoras mesas me senta.
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18 respostas a Quatre consonnes et trois voyelles, o alfabeto de Carla Bruni

  1. Henrique Monteiro diz:

    Ça va, mas que fique claro que quando André Glucksmann publicou La Cuisiniere et le mangeur d’hommes não se referia a Carla Bruni.

  2. Panurgo diz:

    Um dia ainda alguém terá a bondade de me explicar a graça desta fêmea. A mim lembra-me uma daquelas gajas dos subúrbios, com a diferença que fala em francês e monta cornudos ricos. Enfim, não compreendo.

    • Ivone Costa diz:

      Ó Panurgo de ásperas palavras, isso não é mim que tem de perguntar. Eu só contei o fait-divers.

  3. Pedro Bidarra diz:

    Que bela narrativa. Adoro a Carla e perdôo-lhe tudo, todos os velhos ricos e poderosos, toda a vacisse, tudo. As canções são lindas e ela também. E o subúrbio de onde vem é europeu o que, apesar de tudo não é um mau subúrbio

    • Ivone Costa diz:

      Eu sei, querido Pierre o Bidarra, eu sei bem que os rapazes perdoam tudo à Bruni. E concordo, sim, uma banlieu europeia é outra coisa.

  4. Teresa Font diz:

    Gostei muito muito do post, Ivone. E também gosto da Carla, apesar de Monsieur le President – um acto reprovavel mas tentador. E o que se deve ter divertido com a mascarada de Primeira Dama.em que andou, a sonsa.Canta a minha interpretação preferida de “You Belong to Me” (lá nos suburbios dela falava-se francês. Assim como inglês, italiano e alemão, pelo menos. Mal não faz). Wild e party-girl. Dou um ano ao Nicholas e é muito.Grande fim de semana esse com os Enthoven. E com madame B.-H L. não esquecer, que é outra muito boa companhia, ponho-a abaixo. Ah, la banlieue!

    • Ivone Costa diz:

      Obrigada, Teresa, eu tenho dificuldade em escrever posts destes porque não sou muito destas coisas do mundo. A educação de Carla foi a melhor possível, bon chic bon genre com um travo de transgressão, tinha mesmo de resultar em bons fins-de-semana.

  5. Eu cá sempre preferi a Dombasle à Bruni. Tem mais nonchalance.

  6. Quem diria que a filosofia rendesse tanta massa, ó filósofos que tiveram que viver com estipêndio de professor, aquela casita em Marrocos custou uma nota à visage humain, espero que a Dombasle tenha cantado para animar la fiesta:

    • Ivone Costa diz:

      Oh, pois, caro táxi. Aquela filosofia em Germain-des-Prés é bem mais rentável. Mas eu nestas coisas assumo-me muito parcial: o efeito que a Bruni e a Dombasle têm nos rapazes tem o BHL em mim. Perdoo-lhe tudo, depuis longtemps. Nada a fazer. Faut pas brûler les nouveaux philosophes.

  7. Maria do Céu Brojo diz:

    Malgré o texto magnífico, eu é mais isto que me traduz como nenhum:

    • Ivone Costa diz:

      E o que se retira disto tudo, Maria, é que o francês é uma bela língua para falar de nos mecs à nous.

  8. acho que tudo ponderado, a coisa bem poderia ter dado um filmezinho do Rohmer

  9. Ivone, já conhecia a história, mas nunca tão bem contada. E são histórias como esta, assim tão bem escritas, que me fazem gostar ainda mais do magnífico álbum “Quelqu’un ma dit”.

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