Querido, desaperta-me o espartilho

QUERIDO, DESAPERTA-ME O ESPARTILHO
(se tens a camisola interior enfiada por dentro das cuecas)

Desde que este governo é governo, não se fala de outras coisas senão das duas do costume. Uma: a necessidade de um penitencial mea culpa com fogueiras onde ardam os Mastercard, Gold, Platinum ou Black de ontem. Duas: de como o insustentável peso do Estado conduzirá, não à insustentável leveza do ser cada vez mais despojado de bens essenciais e acessórios, nos quais se incluem o citado título de Milan Kundera, mas a um debate sobre a refundação do referido Estado. Diabo.

Fundados e bem no século xii, para que nos refundaríamos agora que estamos em risco de nos afundar? Não me fundam! O que precisamos é de nadar. Desenvolver arcaboiço para atravessar a braços o mar que for preciso. Creio mesmo que estamos a fazê-lo, ainda timidamente como em qualquer recomeço. Explico.

Nos anos oitenta fomos todos ricos. Quando não fomos, viríamos a sê-lo, logo, era como se já o fôssemos e entre boom da auto-estrada e o do cartão de crédito viajámos em primeira classe, e em suaves prestações mensais, para o destino que todos conhecemos: o presente. Não foi por estupidez, foi por fome. Fizemo-lo por termos sido pobres durante tanto tempo. Pobres de tudo, até de sonho, pois em troca da pobreza deram-nos a honra e um futuro no reino dos céus.

Há que fazer um parêntesis, no entanto, usufruímos hoje, a despeito de tudo quanto possam apontar, de uma qualidade de vida que nunca antes: houve uma geração arrancada a pulso por seus pais à escuridão da iliteracia, a que primeiro quebrou o ciclo familiar da imobilidade social.

Voltemos aos anos oitenta. A par da riqueza, e enquanto esquartejávamos a pesca, a agricultura, o território e a cultura, festejava-se no Bairro Alto um grande passo evolutivo celebrando o novo homem que nele nascia: o Homo In. Como sempre se faz, fez e fará, em tempos de abundância, dedicámo-nos com afinco, não apenas à civilização, mas à decadência da civilização.

Neste bairro, esquerdas e direitas políticas afluíam. A emergente classe média copiava os requebros da antiga burguesia. O orgulho era verdadeiramente gay e saía à rua. Os sindicalistas tinham bigode. Neste bairro, epicentro cultural, um homem media-se, entre outros modos igualmente eficientes de aferição, pasme-se, pelas meias. O mundo, nem Marx o concebera, dividia-se, afinal, em peúgos e meias. Peúgos brancos, pior só se turcos, liquidavam socialmente o seu usante. Era a opressão do peúgo pela meia que se queria preta até abaixo do joelho não viesse o tubarão das canelas mordê-las até ao ostracismo. O Homo In deixava-nos out assim decidisse. Porque éramos ricos.

Agora que somos pobres, estou convicta de que vivemos um momento darwiniano: o tubarão, mais cedo que tarde, morderá, porém ao tubarão das canelas. É irrelevante ter canela fina ou meias pretas, ou usar peúgos de turco brancos, o tubarão vai morder na mesma e de uma fatal dentada quem se atenha, não às competências e sim às aparências. A porta começa a abrir-se à diferença. E precisamos dela. Não à diferença-auto limitada e estreita do Homo In, mas ao ar novo em sangue velho de costumes, velho em modos de pensamento cansados, velho em metodologias viciadas. Será pela criatividade, pela visão, pela forte competência, pela resiliente capacidade de trabalho e pela esperança que nascerá de nós o que agora em silêncio geramos por oposição ao que vivemos: o Homo Humanus. O melhor do que podemos ser é o que o chão de adversidades nos oferece como possibilidade.

Resumindo: se tem a camisola interior enfiada dentro das cuecas, é o homem certo para desapertar o espartilho com que andámos a sufocar-nos durante décadas de iludida riqueza.

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.

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12 respostas a Querido, desaperta-me o espartilho

  1. Inma diz:

    Que fiquem todos os politicos na fogueira, são uns malandros.

  2. Maria diz:

    E não é que me lembrei do Frágil?

  3. Maria do Céu Brojo diz:

    Inspirador foi o que foi. Modesta homenagem lá «pra» cima.

  4. nanovp diz:

    O futuro sempre foi em frente Eugénia, e porque não poderá ser melhor? Ainda tenho esperança disso, e é bom “ler” essa esperança aqui, em palavras como visão, criatividade, competência …

  5. Manuel S. Fonseca diz:

    Esta sua deriva sociológica, ou devo dizer mitológica, é oportuna e tão bem pensada que até parece propor-nos uma tarefa leve. Só que não é nada: como sempre aconteceu, chegar ao Homo Humanus obriga a ganhar o pão com o suor do rosto: Duramente e sem ilusões.

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