Relato de uma virgem em ‘sex shops’

Toulouse Lautrec - La Goulue

Toulouse Lautrec – La Goulue

Nota prévia: à conta de espartilhos e corpetes, relato esquecido que o magnífico texto da Eugénia Vasconcellos lembrou.

Quando a virgindade é um estado de alma, desflorá-la obriga a ponderação – abrir brechas nos redutos de inocência envolve custos e benefícios. Num «pós-lua-de-mel» em Paris, comi, pela primeira vez, couscous magrebinos. Fosse pelas unhas do funcionário manifestamente encardidas, ou pela decadência no Bairro de Saint-Denis, vomitei couscous, sobremesa e nojo. Atravessei, sonâmbula, as ruas sem sono de uma Paris de néons e farrapos que excluíra nas passagens anteriores. Do Can-can e da ambiência retro do Moulin Rouge, somente conhecia a La Goulue pintada por Toulouse Lautrec. Lembro a perfeição dos corpos e gestos das bailarinas que ali e no Lido confirmaram ser uma questão de atitude a feminilidade sedutora. Visita de estudo cujos ensinamentos a menina-mulher gravou. Perdida foi a virgindade em couscous e na venda das peças de carne penduradas em saltos.

David Olère

David Olère

Vagabundearia, curtos anos depois, no Bairro Vermelho em Amesterdão onde as montras mais as lojas de brinquedos adultos pasmam carneirada turística. Emocionalmente foi inócuo, após o tumulto do espírito por cada degrau subido na casa de Anne Frank. Aqui, rasguei a virgindade na perceção vívida do Holocausto.

Anos e desflorações posteriores, a minha alma, ou o que dela fizer a vez, sangrou na aldeia mártir de Oradour-sur-Glane. A memória do cerco das SS está incrustada no interior da igreja que testemunhou, impotente, a morte de 452 mulheres e crianças. Nos celeiros, 190 homens foram fuzilados por dois pelotões nazis. Sobra o esqueleto carbonizado de um vilarejo rural.

Ann Murray - Morning After

Ann Murray – Morning After

Talvez pelos abanões experimentados nalgumas perdas de virgindade, a cautela filtra a infinita curiosidade pelo novo. Todavia, exterior inusitado a lembrar comércio londrino deteve-me os passos. Sólida madeira protegida com cera, montra recolhida e porta campainhada. Fosse pela curiosidade ou pela companhia, rodaram as dobradiças. No interior, aroma de almíscar, bom gosto e silêncio. As madeiras continuavam. Alinhados nas prateleiras, mantimentos que presumo costumados.

Embasbaquei perante milagres consentidos pelos polímeros e a diversidade das fontes do prazer humano. Embeveci-me com os corpetes e a originalidade das meias ditas de «vidro». Deplorei a imagem das bonecas vazias espalmadas na embalagem. Havia tules feminis há muito procurados. Comprei. Dois pares de meias vieram. Um corpete de cetim, que o século dezoito não desdenharia, piscara o olho desde a entrada. Não cometi a desfeita de o abandonar pendurado. Papel reciclado como matéria do saco-embrulho. Espiga atada com ráfia honrou o dia que a comemorava.

Um objeto é, em si mesmo, inocente. A obscenidade está nos espíritos e nos atos que os preconceitos, a perversidade ou a cobardia toldam.

Sobre Maria do Céu Brojo

No tempo das amoras rubras amadurecidas pelo estio, no granito sombreado pelos pinheiros, nuas de flores as giestas, sentada numa penedia, a miúda, em férias, lia. Alegre pelo silêncio e liberdade. No regresso ao abrigo vetusto, tristemente escrevia ou desenhava. Da alma, desbravava as janelas. Algumas faziam-se rogadas ao abrir dos pinchos; essas perseguia. Porque a intrigavam, desistir era verbo que não conjugava. Um toque, outro e muitos no crescer talvez oleassem dobradiças, os pinchos e, mais cedo do que tarde, delas fantasiava as escâncaras onde se debruçaria. Já mulher, das janelas ainda algumas restam com tranca obstinada. E, tristemente, escreve. E desenha e pinta. Nas teclas e nas telas, o óleo do tempo e dos pinceis debita cores improváveis sem que a mulher conjugue o verbo desistir. Respira o colorido das giestas, o aroma dos pinheiros nas letras desenhadas no branco, saboreia amoras colhidas nos silvedos, ilumina-a o brilho da mica encastoada no granito das penedias.
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14 respostas a Relato de uma virgem em ‘sex shops’

  1. Olinda diz:

    um texto delicioso. e delicioso o teu conceito de virgindade,

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Ensinamentos dos idos da vida. Hoje, validados pelos anos decorridos.
      Muito obrigada, Olinda.

      • Olinda diz:

        ora essa, à delícia ninguém lhe tira a verdade.

        o que ensina mais – o tempo que passa ou o tempo que fica?

        • Maria do Céu Brojo diz:

          O tempo que fica. Passados há tempos muitos, nem todos ricos em ensinamentos. Os que ficam passam a fazer parte da matriz pessoal.

  2. curioso (cer tezas) diz:

    a velha certeza… há um circo, muitos circos, no mundo que nos rodeia, onde submundos, mais que muitos, são modo de vida para quem os transforma em atracção, mesmo que aberrante seja.
    a virgindade é moeda de troca, explorada até dentro de nossas casas com os reality shows

  3. nanovp diz:

    Foi o raio do “couscous”! Mas tem razão quando diz que está tudo no espírito…

  4. Ó Céu, obrigada.

    Corpete de cetim, meias de vidro… malvada!

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