Soraia sorria? Ria de quê, a puta? #14

 

Olhá Bardot posta em sossego!

Olhá Bardot posta em sossego!

Soraia Ri? Ri? Mas ri de quê, a puta? Isto não é um cachimbo. Começava a ficar francamente farto daquilo tudo. Estava sentado há umas boas seis horas. O ecrã, branco, triste, de uma tristeza alva e bipolar, cintilava no escuro de uma floresta de zeros e uns. A cabeça doía-lhe terrivelmente. Vazia e atulhada. A latejar de angústia. Como se olhasse de si para si num interminável jogo de espelhos. Como se o rapaz que era ontem espreitasse para o fim dos tempos e lhe perscrutasse o futuro. Incapaz de encontrar-lhe um Deus, muito menos um nexo. Incapaz de ancorar o passado, de contemplar o presente nas costas nuas de Bardot. E Zarco que não atendia, valente cabrão. Lacerda, Breton, Org, Klimt, Berardo, Hitchcock. Ri de quê a puta? Tem de haver uma razão. Há sempre uma razão que é o principio e o fim de tudo. Que serve a Deus e de que se serve Deus. Que é o fio que liga o rato. Que é o firmamento que separa as águas. Que é o luzeiro maior que regula o dia. Que é o dragão cor de fogo, sete cabeças e dez chifres. E sobre cada cabeça uma coroa. Memória vacilante, agarrada à vida por uma corrente alternada. 666, jurava a besta. Há sempre uma razão quando da mente se torna o uso. Puta. Mil vezes Puta. Já dizia Lúcio a Lucílio.

Levantou-se e fitou uma última vez o ecrã. Branco, branco, ensurdecedor de tão branco. As letrinhas azuis que cintilavam à esquerda pareciam timidamente estúpidas. E nem a direita baixa o comovia. Cadavre Exquis, Escrita Automática, Está escrito, Museu das Curtas. Alguém me explica o nexo desta merda toda? Foda-se.  Foda-se, apesar de tudo. Talvez malgré tout fosse mais fino. O foda-se é que não tinha tradução. Não é um cachimbo, não é um chapéu mas também não pode ser um simples cão perdido na Andaluzia. Tem de haver uma razão.

Eis que num instante, o telefone. Quem disse que Deus é um velho estúpido e doente? Quem disse que passa o dia a escarrar no chão? E que a Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia? Quem foi que disse que não atende?

– Estou? Manuel? “Mestre, nessas alas que gente a aura negra penaliza?”

– Vai-te lixar ó Cardeal! Vens para aqui brincar com os meus sonhos, viras uns de pernas para o ar, pões uns em cima dos outros e ficas a bater palmas sozinho?

 

 

Sobre Pedro Norton

Já vos confessei em tempos que tive a mais feliz de todas as infâncias. E se me disserem que isso não tem nada a ver com tristeza eu digo-vos que estão muito, mas muito, enganados. Sou forrado a nostalgia. Com umas camadas de mau feitio e uma queda para a neurose, concedo. Gosto de mortos, de saudades, de músicas que nunca foram gravadas, de livros desaparecidos e de filmes que poderiam ter sido. E de um bom silêncio de pai para filho. Não me chamem é simpático. Afino.

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13 respostas a Soraia sorria? Ria de quê, a puta? #14

  1. Ivone Costa diz:

    Ó apocalíptico Pierre, o Norton. O Manel veio dizer que eu tinha remexido as personagens e não as tinha tirado do sítio, vossa eminência agora veio agora revirar os sonhos dele pôr as personagens em sossego? Ainda bem que é a Eugénia a fechar o cadavre, linda menina que só ela.

  2. curioso (viva dela) diz:

    só peca por não ter sido há mais tempo (in illo tempore)

  3. Henrique Monteiro diz:

    Ordinarote. humpffff! 🙂

  4. Pedro Bidarra diz:

    Perdi-me

  5. Maria do Céu Brojo diz:

    Finalmente! O Olimpo deve pular de contente.

    • Pedro Norton diz:

      Não se o Olimpo, se o Inferno ou qualquer outra coisa de permeio. Eu é que estou contente porque tinha saudades de todos.

  6. Porra, Doutor Norton, e só não digo foda-se porque já vi que não lhes sai de cima. Arranjou-a bonita. E agora eu é que as vou bater. E bater por bater, antes bater palmas. Nas costas nuas da Bardot, está claro.

    • Pedro Norton diz:

      Chegue-lhes, Mestre. Ainda assim facilitei-lhe a vida. Deixei o narrador desconhecido para você o escolher. Só sei que é surrealista. Ou agarrado às anfetaminas do Grilo.

  7. Panurgo diz:

    Epá! Há uns anos tinha estampada numa t-shirt essa putéfila da Francesca, uma tal que tinha uns versos do castigo do orgulho nas costas. Um produto de marketing com alguma aceitação. E muitas vezes me perguntava, no meio da faena: ri de quê, a puta?

    Está muito bom isto.

  8. Pedro Norton diz:

    grande t-shirt, panurgo!

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