Ritornello #15

 

Brigitte-Bardot-dans-Le-Mepris

Zarco afundou-se no que de mais simétrico encontrara

Quando Zarco entrou no urinol do Estádio, mantendo a mão a segurar o que segurava, Manuel virou-se ligeiramente e, com gargalhada cínica, gritou: “Grande Zarco, Rei do Minete!

Ó homem de Deus, palavras não eram ditas e na mão de Zarco brilhou uma Magnum a vomitar fogo. Um tiro só. Raivoso, mau, retumbante, um tiro só. Pelas ansas do cerebelo de Manuel, onde antes se instalava a ominosa poliadição, passou uma bala que lhe limpou os miasmas anfetamínicos. Curado, cérebro limpinho, viu a luz e morreu, prova de que a saúde nunca fez bem a ninguém.

A Has­sel­blad H3D de Lacerda (que todos no Estádio conheciam por Vasco) desdobrava-se em acrobacias fotografando o esvaído corpo de Manuel, o sangue da sua veia. A mais por­tá­til Leica M9 deliciava-se em pormenores, o encolhido e mal sacudido pénis a parecer um repolhinho orvalhado, a ponta duma impertinente tela a espreitar debaixo da leonina t-shirt do cadáver.

Zarco puxou a tela. Era o Van Dongen desaparecido, o dos olhos de avestruz. Deixou que Lacerda o fotografasse, enrolou-o e saiu. Lacerda logo no seu encalço. Caminharam indiferentes ao urro da multidão, furiosa por ver leões bulímicos a ser cavalgados por anões e duendes no relvado que as bancadas cercavam. Queriam acção, vão ter acção, pensou Zarco.

Ter-lhe-ia dado jeito meter-se no metro para despistar eventuais perseguidores. Puta de greve. Lembrou-se de que fora no metro, em Londres, que tudo começara. Em Sloan’s Square, uma emanação de Org sentada à sua frente, cérebro em cabeça de criança sobredotada. Julgou então perceber, pelos ínvios sinais de Org e pelos ecos de Mind the Gap, que lhe confiavam uma missão. A liderança de Org estava ameaçada, a segurança da Organização em alto risco. Tinha de abater a indistinta ameaça. Demorou meses a entender que, se a missão era clara, nebulosa era a bizarra particularidade de ser ele, ao mesmo tempo, o executor e o alvo da missão.

E neste passo é preciso que eu, Cardeal, narrador, me explique, o que me obriga a voltar ao Pentagrama, altar anti-matéria de Org, a esse instante histórico em que Zarco e Org, aparentemente imóveis, se deslocam a 99,7% da velo­ci­dade da luz. Nesse momento, os positrões a pôr-lhe os olhos em bico, Zarco descobriu ser, ele próprio, um multiverso. Era Zarco, o homem só, sem filhos, descendente de uma família de espiões e membro da Third Royal Society, e era também Zarco, o advogado madeirense, com duas famílias que não se conheciam uma à outra.

É verdade que em Capri, enquanto se locupletava com as admiráveis costas de BB, afundando-se no que nelas mais simétrico encontrou, quem o alvejara, entre as árvores, fora Manuel. Salvaram-no as falsas freiras, ambas nefelibáticas emanações de Org. Mas no Pentagrama, quando num rebate órfico se virou para trás e por fim se viu em Org e de Org soube ser clone, Zarco percebeu que em si mesmo residia a fonte da sua desgraça e a fonte da sua salvação. Descobriu que havia um alvo que tinha de liquidar, e que, matando, a si mesmo se mataria. Sabia o que sabia. No entanto, sentia que alguma coisa continuava a escapar-lhe. Um je ne sais quoi que lhe mexia com o baixo-ventre. Para fora e para dentro.

***

corpo-humano-a-maquina-mais-complexa-e-maravilhosa-que-existe

Soraia pôs todo o peso hermenêutico no meio das pernas

E Zarco que não atende, valente cabrão” pensava Soraia, o telemóvel numa mão, a outra, hermenêutica, na cobra asiática de Jalabar, a única cobra asiática da marina de Ataköy.

Depois de A-dos Cunhados, Soraia convertera-se numa fervorosa discípula do professor Eco. Dispensou os placebos, alternando entre procelas ninfomaníacas e a decifração de textos eidéticos.

Vou comer-te” foram, a propósito, as últimas palavras de Joe Babe. Tinham saído de A-dos-Cunhados e corrido o vidro separador da limusina. Soraia nem se importou que ele lhe tirasse as cuecas. A cabeça dela balançava entre um manifesto de Breton, apócrifo juraria, e um documento régio com genuíno selo da casa de Bragança. Tão concentrada estava que nem reparou que, entre as suas pernas enérgicas e poderosas, deixara de balançar a cabeça de Babe. O fôlego nunca fora o forte de Joe que trouxera problemas respiratórias das minas. A distração de Soraia, ao passar todo o peso hermenêutico para o meio das pernas, sufocou Joe Babe que comer, comeu, mas entrou na eternidade com cara de quem não gostou. Um sufoco ontológico.

Mesmo agora, envolvida pela hábil e umbertiana mão esquerda de Soraia, a invertebrada cobra asiática de Pencatur Jalabar sofria tratos de polé. No constrangido rosto dele fulgiam saudades dos velhos placebos. “Foda-se, que não há quem a aguente” tinham já dito antes, combalidos, o meio-integrado, meio-apocalíptico mestre e mesmo o rotundo Alfred H. Do mesmo mal gemia, agora, Jalabar.

O angustiante aperto circunstancial de Jalabar exige que eu, Cardeal, vosso humilde narrador, volte a explicar-me. Também Soraia tem uma missão. Pertence a uma classe peculiar de agentes. Todas as esperanças da Organização se depositam nela. A profusão em esquema de Ponzi de falsos incunábulos, a compra e venda de títulos nobiliárquicos em dark pools, reacendia velhos ímpetos nacionalistas, até um onanismo regionalista. A Soraia cabe decifrar e entrar em rede. Para salvar Org tem de gerar um equilíbrio dinâmico que garanta o mais artístico fastest growing investment. Agora, está a um passo de decifrar um documento vital, sequela do drama filipo-joanino de um ibérico século XVII.

Soraia parece apenas um corpo desejante, uma máquina de foder, cona e cu em ritornello. Fosse pública a sua privadíssima folha de serviço e saber-se-ia que fora o ubíquo esteio do Império, o ubíquo cutelo do Territorialização Global de Org. Uma tal ubiquidade só tem uma explicação. Também Soraia é, como ela bem sabe, um multiverso. No entanto, alguma coisa continua a escapar-lhe. Um je ne sais quoi que lhe agita o baixo-ventre. Para fora e para dentro.

***

Há um homem pronto a matar, uma mulher em estado de incendiada hermenêutica. Duas distintas missões? Duas?

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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16 respostas a Ritornello #15

  1. Maria do Céu Brojo diz:

    Madre mia! Está bom para lá do “dizer chega”. A hermenêutica entre-pernas é um mimo além de outros brindes no excelente bolo-rei que é o texto.

  2. curioso (anfeta minado) diz:

    mamma mia… se não mia… dela 😉 miadela? nem mia nem meia mia: seja filme, já!

    tirando todo aquele peso herme nêutico do meio das pernas ficará certamente com uma imponderável leveza do sério?

    http://www.youtube.com/watch?v=nP9EC0qLvDk

  3. Manuel Fonseca, há aqui trabalho. Escravo. Muito. Conseguiu juntar as pontas todas dum desconchavo e contar uma história, bem contada. Mas entre sufocos ontológicos e tanta premente filosofia, como direi: estou lixada.

  4. Rita V. diz:

    A Eugénia tirou- me as palavras da boca tá lixé e só me apetece fazer de Céu: – Madre mia!

  5. Ó senhor narrador: essa de pôr o peso hermenêutico no meio das pernas é o mais brilhante eufemismo que a literatura erótica alguma produziu.

  6. Ivone Costa diz:

    Ah, lindo. Isto é um ramos de flores pronto para as mãos da Eugénia. Belo trabalho, Manuel.

  7. Pedro Bidarra diz:

    Alguém tiha que por ordem nistro. Grande ordem, um verdadeiro “script dottore” foi o que foi.

    • Thanks Pedro. É um fado, passar a vida a juntar pontas. Nasci para ser diplomata, mas ninguém me leva a sério… Juro que conseguia escrever o comunicado duma conferência israelo-palestina que ambas as partes assinariam…

  8. nanovp diz:

    Multiversos somos todos agora depois deste texto!!! Boa sorte querida Eugénia!

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