Ruby Slippers

FALTA UM BOCADINHO À LUA

Há cerca de um ano estava no México. À noite, o mar era preto, o céu era preto e nenhuma luz cortava a escuridão. A maior lua do mundo, vi-a lá. Era redonda, dourada e quase lhe tocava o queixo na água que, desde a areia até ele, abria a verdadeira yellow brick road. Pus-me da varanda a ver aquilo tudo, assim como quem está num navio pela primeira vez e descobre que, afinal, nunca esteve noutro lado. Se tivesse acreditado então que seria capaz de caminhar sobre tal marinha passadeira, teria ido sempre em frente à espera de que, ao fim, a lua abrisse a boca e me comesse.

Poucos dias depois daquela noite, de manhã, numa mercearia, encontro um dos melhores extractos de baunilha – reconheci a marca. Pego no frasco. No rótulo um sol azteca ilumina a flor em baixo. É ele, radioso, o sol que deu a luz à lua que antes tinha visto fulgente, ela, um animal de sombra – e lembro do verso de Else Lasker-Schüler, poeta que desenhava sóis e luas e mais nas folhas, o teu sangue não pára de dar cor às minhas faces. 

Hoje fiz doce de tomate. Juntei, como sempre lhe junto, duas casquinhas finas de limão, pau-de-canela e baunilha. A baunilha. A única coisa que trouxe da viagem onde usei sempre os sapatos de Dorothy, um frasco de baunilha. Quem poderia adivinhar que havia de chegar até à minha cozinha uma pontinha da lua para barrar o pão e eu a comia? Vê como está bom, Toto, prova.

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.

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8 respostas a Ruby Slippers

  1. Ivone Costa diz:

    Eugénia Eugenie, o doce há-de está como o texto: saboroso muito para além do rainbow …

    • E agora tenho a abóbora em lume brando para vir aqui: mais logo terei doce de abóbora ou com amêndoas ou com nozes – depende do que tiver que nem verifiquei. Deu-me para os doces. Bem, mais ou menos, não sou capaz de desaproveitar comida. Merci.

  2. A maior lua do mundo! Como o transatlântico de “Amarcord”? Filme ou sonho, era, de certeza, bigger than life.

    • Vi esse filme naquela altura da vida em que já somos tão crescidos que todos são casais recentes, mas ainda tão bebés que ninguém teve o primeiro filho e se continua a andar em grupo. Gostei tanto, esse e a Sombra do Guerreiro, mais que revisto, fecharam o último ciclo da infância.

      Às vezes, a vida é maior do que vida, não é?

  3. Maria do Céu Brojo diz:

    Fui à despensa procurar embalagem com sol estampado. Encontrei-o num minúsculo pacote de açúcar. De lua, nem vestígio. Fico-me com a sua na esperança de encontrar caminho que a ela me conduza. E que me engula, tendo apetite.

  4. nanovp diz:

    Quero esse doce de tomate a saber a vida Eugénia! Guarde um bocadinho…

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