Scherzo sobre a TAP e as conservas

A porcaria do avião tremia por todos os lados, mas também com o tempo que anda aí pela Europa, cheio de nuvens negras, não é de estranhar. O piloto, bem ou mal, sei lá eu, faz-se à pista e aterra suavemente. Não somos americanos, estamos na TAP, por isso ninguém lhe bate palmas. Eu bati, convicta e interiormente.

conservem-se sentados,

Conservem-se sentados, ok?

Logo a voz anuncia: “Senhores passageiros, acabámos de aterrar no aeroporto tal e coisa e pedimos o favor de se conservarem sentados com o cinto de segurança apertado, até que o avião se imobilize”. Aqui alto! O que é isto? Pedem-me (a mim e a todos os passageiros) que se conservem? Mas isso é pedido que se faça? Eu não me conservo! Recuso! Admito permanecer, manter-me, continuar, mas nunca, nunca, nunca conservar-me. Nunca fui capaz!

Imagino-me mergulhado em vinagre e picles, a fim de satisfazer o imperativo pedido da nossa amável companhia. Impossível! Poderia ficar tipo rollmop, quase só pele, imersão total em vinagre, um picle enorme no meio e um palito a trespassar-me?

rollmops

Tipo rollmop, bem conservado

É assim, TAP, que tu queres que eu me conserve? Ou preferes, em vez de frascos com vinagre, latas a esbarrondar-se de azeite, como as do sangacho de atum?

atum-enlatado

Latas a esbarrondar-se de azeite

Ó velha TAP que me transportas há mais de 50 anos ou lá que é, tanta gente preocupada com a tua nacionalidade e tu apenas pedes, em troca, o cada vez mais parco dinheiro do bilhete e também que nos conservemos.

Pois eu não me conservo!

Recuso tanto conservar-me que tenho gasto os anos nisso. E já nem bem conservado estou!

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom.
Sem nunca me levar a sério – no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom
(e barato).

Esta entrada foi publicada em Post livre com as tags , , . ligação permanente.

7 respostas a Scherzo sobre a TAP e as conservas

  1. curioso (sentado) diz:

    com um scherzo destes… não me atrevo a conversar e continuarei a conservar-me a tento… 😉 (e sentado, pago o mesmo)

  2. nanovp diz:

    Parece-me um bom “grito” de guerra para os tempos que correm : Não me conservo!
    (Fiquei foi cheio de fome Henrique, eu que gosto de conservas…!)

    • Henrique Monteiro diz:

      Isso é que é simpatia. Mas o grito de guerra, sim é bom! Não me conservo e morro por isso!

  3. Viajamos como sardinhas em lata nos modernos aviões comerciais

Os comentários estão fechados.