Sugestões liberais (e antigas)

Ao ver a proposta engenhosa e verdadeiramente eficaz de Pedro Marta Santos, que assim contribuiu de forma decisiva para uma solução da crise, pediu-me o Comendador Marques de Correia que deixasse claro que essas propostas já tinham sido ambas por si colocadas na mesa. A primeira (imposto sobre a respiração), nos idos de 2005; a segunda (matar os velhos), mais recentemente, em Novembro último. Para que não restem dúvidas, e porque o Comendador tem uma inveja do caraças de não escrever neste Blogue, o melhor de Portugal, o melhor da Península Ibérica e quiçá se o melhor do mundo, aqui ficam essas propostas que o homem fez. Eizeli-as, como popularmente se diz.

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Por um imposto igualitário

Exmos Senhores Ministros

São Vexas – e muita gente tem seguramente reafirmado esta ideia – cabeças altíssimas no que toca a descortinar meios de combater a desigualdade e outros males sociais. De vossas meninges têm saído medidas de altíssimo coturno que em nada ficam a dever a medidas ejectadas por meninges de igual valia – fossem as dos governos de Mário Soares, de Cavaco Silva, de Guterres ou de Barroso (não falo de Santana devido a promessa feita na Nossa Senhora da Lapa). Em matéria de combate à desigualdade estamos firmes e continuaremos. É tempo, porém, de um pouco mais de pragmatismo!

Até agora, todas as medidas tomadas – desde dotar reformados da Caixa com salários que lhes auguram uma velhice tranquila ao benevolente fechar de olhos à fuga ao fisco – não têm dado resultado. Compreende-se e justifica-se que sejam medidas destinadas a tornar a sociedade mais igual, não fazendo distinções entre reformados da CGD e construtores civis. Mas não resulta!

Também não resultam medidas de sinal contrário que visam tornar mais pobres os ricos. Refiro-me a sucessivos aumentos de impostos sobre a gasolina, ao aumento dos escalões do IRS, aos pagamentos por conta e a todas as decisões que, empobrecendo os de cima, os aproximariam dos de baixo.

Por último – e já em desespero – pensaram os governos que deveriam subsidiar os mais pobres através de variadíssimos mecanismos, incluindo salas de chuto – o que também não provocou os efeitos desejados. A cada ano, a cada dia, a cada hora a desigualdade aumenta.

Resta, pois, um último esforço neste Orçamento: taxar aquilo que todos consomem por igual. O único bem que todos consomem a cada cinco segundos e que nenhum pode dispensar, sob pena de ir para o mais igualitário dos territórios – o cemitério.

Deve taxar-se o ar. O ar que respiramos. Taxar com determinação, colocando uma sobretaxa para o soluço e outra, talvez maior, para quem arfa (um ligeiro toque social seria descontar ligeiramente o arfanço quando provocado por um ataque de asma).

Deste modo teremos o imposto igualitário. Todos os restantes impostos atacam mais uns do que outros. Gasolina só paga quem tem carro; rendimentos só paga quem os tem; bebidas só paga quem bebe; o IVA só ataca quem consome.

Ora, o imposto sobre a respiração é para toda a gente e a ele ninguém pode fugir dizendo: eu não respiro! Argumentarão espíritos condoídos: e quem não tiver dinheiro? Quem não tem dinheiro não respira! Do que não há dúvidas é que depressa chegaremos a uma sociedade igualitária, na qual todos pagam e cada um respira o que pode. Dentro em breve, faremos da apneia um modo de vida. E dos fracos não reza a história.

Comendador Marques de Correia, 18/10/2005

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A segunda carta, mais recente, propunha que se matassem os velhos

Estes tipos são piegas e nem uma porcaria de crise sabem resolver

Toda a gente sabe que um povo que tem 100 maneiras de cozinhar bacalhau deve ter, pelo menos, umas 30 maneiras de se ver livre de uma crise. Se isto é verdade, por que razão este Governo nunca mais se despacha e está sempre a dizer que para o ano é que é, tipo adepto do Sporting com a vitória no campeonato, ou, vá lá, com o segundo lugar no campeonato? Porque, como muito bem disse Passos Coelho, são uns piegas. O problema é que o próprio Passos Coelho, apesar da voz de barítono e de muito penteadinho, é o principal piegas da nação. Basta ver o que não fez, com certeza com medo de perder popularidade, ou de levar um tiro nos… nas… enfim, de levar um tiro num sítio qualquer, ou de ser apedrejado e depois empalado.

Coisas próprias de piegas que não conhecem o mundo lá fora, onde tudo isto é absolutamente normal! Lembremo-nos de uma Rússia de Lenine e de Estaline, de uma Alemanha de Hitler ou de uma China de Mao, isto já para não falar de homens a sério como Bokassa ou Pol Pot, que resolviam as crises e ainda arranjavam alimentação para o povo, tudo com as mesmas medidas. Já estou a ver uns leitores, mais ligados à linha humanista de António José Seguro ou à linha cristã de Paulo Portas, a querer perguntar: sim, sim, mas, se fosses tu, o que fazias? Eu? Matava os velhos! Sim, matava os velhos. E não só os velhos muito velhos, digamos que todos os que têm mais de 70 anos.

A coisa pode parecer desumana, mas o que vos parece mais desumano? Viver sem ter comida para dar aos filhos? Viver sem rendimentos para poder ter uma vida feliz (como sabem, o direito à felicidade é celebrado por todos os pós-modernos do mundo)? Viver sem saber o futuro? Viver sem saber se se vai ter reforma? Ora, matando os velhos diminuíamos imensos custos. Desde logo, muitos milhões em pensões de sobrevivência, de velhice e de viuvez. Depois, muitos milhões em cuidados médicos e em internamentos hospitalares. Por último, inúmeros milhões em comparticipações de medicamentos.

Tudo junto, isto dava para duas ou três festas da Parque Escolar e para construir uma autoestrada entre Reguengos e Bragança, pelo menos.

Depois, que falta fazem os velhos? Sim, mesmo comparando com Miguel Relvas, não fazem falta nenhuma. Hoje em dia, ninguém os ouve, ninguém lhes liga, a maioria está em lares. Que andam cá a fazer? É que já a minha avó (que era de um tempo em que não havia estas modernices de Estado Social) dizia: “Que ando cá a fazer neste mundo?” E tinha razão, porque depois de ter feito esta pergunta não fez grande coisa…

Mas a verdade é que Passos, depois de andar a dizer que os outros é que são piegas, mostra ele próprio toda a pieguice que tem. Vejam se por acaso tem coragem de avançar para uma medida destas.

Medida que eu proponho sem ter nada a ganhar com ela, uma vez que sou um velho (à espera, é certo, daquelas leis de exceção que costuma haver para mim, para os senhores Presidentes e ex-Presidentes da República e para aquele conjunto de velhos que vale a pena ouvir).

A questão é que em tempo de guerra não se limpam armas. Sei que muitos críticos dirão que esta proposta é fascista, mas como já dizem o mesmo das outras que estão no Orçamento, sem que o Gaspar se demova, também não há de ser por isso.

A ideia de matar os velhos fará o seu caminho, tenho a certeza. Cá os espero.

Comendador Marques Correia, 24/11/2012

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Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom.
Sem nunca me levar a sério – no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom
(e barato).

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13 respostas a Sugestões liberais (e antigas)

  1. Sobre um imposto de respiração eu já tinha relatado uma conversa do Pedro com o Gaspar em março passado. Quanto a matar velhos não lhes ouvi nada… Mas não fossem uns certos princípios éticos e uns resquícios de moral católica que ainda me sobram e eu mesmo me proporia matar uns quantos novos que por aí andam!

  2. curioso (grades) diz:

    bastaria que os matasse à fome (por caridade… pão e água… e umas grades)

    • Henrique Monteiro diz:

      Les beaux esprits se rencontrent, comme disait Mr. Voltaire

      • Chosen Subject: EURES – European Employment Services

        Request: SUNT IN PORTUGALIA DIN 2003 AM LUCRAT DOI ANI FARA CONTRACT DE MUNCA
        RAMAS FARA LOC DE MUNCA M AM INSCRIS LA OFICIU LCONTRACT DE MUNCA RAMAS FARA
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  3. Panurgo diz:

    Isto é tudo muito anterior. Já um antigo culto religioso o afirmava: É à sua maneira uma «modesta proposta», mas com um riff porreiro de sir Paul:

  4. Maria do Céu Brojo diz:

    Ora bem. E eu que perdi esta do Comendador! Imperdoável.

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