Também vou escrever sobre carteiras

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Diz-se muitas vezes que foram os pintores que inventaram a Fotografia, transmitindo-lhe o enquadramento, a perspectiva albertiniana e a óptica da camera obscura. E eu digo: não, foram os químicos. Porque o noema “Isto foi” só foi possível a partir do dia em que uma circunstância científica (a descoberta da sensibilidade dos sais de prata) permitiu captar e imprimir directamente os raios luminosos emitidos por um objecto diferentemente iluminado. A foto é literalmente uma emanação do referente.”
                                                                                                          Roland Barthes, Câmara Clara
Em Câmara Clara, Roland Barthes salienta a possibilidade que a fotografia tem de eternizar o momento, tornando imortais os constituintes de uma circunstância registada sob forma de uma imagem escrita pela luz. Esse registo permitirá a possibilidade de revisitação constante da figura, da acção ou do espaço imobilizados na imagem.
A fotografia de moda  enceta  com o referente uma relação de outra natureza. Acima, estão duas fotografias de Annie Leibowitz para a Louis Vuitton. Nem uma nem outra eternizam momentos. Aqueles momentos não aconteceram, apenas se faz de conta que sim.
Na primeira, Catherine Deneuve, a actriz a fazer de actriz depois do take de um filme, senta-se sobre uma mala de viagem e massaja o tornozelo cansado. Sim, quereríamos a carteira, as malas, sim, mas também queríamos levantar a gola de um trench-coat, antes de entrarmos na noite e no comboio que nos levasse da Gare de l’ Est a Istambul.
Na segunda, Laetitia Casta, sentada numa esplanada de Paris, retoca com pó solto o rosto irrepreensível Queríamos ter a carteira que está sobre a mesa? Pois queríamos. Mas também queríamos acordar assim, sem olheiras pré-menopáusicas, e esperar fosse lá pelo que fosse num café parisiense, com um vestido cor de sépia clara.
A fotografia de moda inventa um referente e cria nos destinatários  o desejo de o corporizar. O noema do “Isto foi” transforma-se, na fotografia de moda, no noema do “Isto pode ser”.  Com uma carteira, claro.
(Está feito. Eu também queria escrever sobre carteiras, mas estou a ver que  a coisa não resultou grande coisa. É hoje que a Tia corre comigo.)

Sobre Ivone Mendes da Silva

Entre lobos e anjos me habituei a escrever. É talvez por isso que, para além de asas e de uivos, as palavras me tropecem e não encontrem sozinhas o caminho das folhas. Nessas alturas, peço para elas a bênção da tristeza, musa de sopro persistente, que triste me faz e a acolhedoras mesas me senta.
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12 respostas a Também vou escrever sobre carteiras

  1. Não sei o que lhe dirá a TIa, mas Ivone porquê Vuitton? A graça de uma Kate Spade vai muito melhor consigo. E se o dia lhe pede contenção visual, uma certa serenidade, experimente as DKNY. Ainda que a exuberância barroca das Dolce & Gabanna, se é para ostentar, ostentam a sério. Ia dizer Prada, um escândalo vermelho, mas não sei se diga.
    Já agora, onde é que se compram essas Barthes que não apanho o catálogo em lado nenhum…

    • Ivone Costa diz:

      Oh, sim, Manuel uma destas Barthes é que eu queria mesmo … mas parece que só saem em edição limitada …

      • dfg diz:

        As carteira Vuitton parece que estão “out” – a marca luta com o cansaço da imagem – uma Latetitia que não se olha ao espelho, que o usa para jogos de amores de contrafacção?
        O logotipo LV desapareceu e viceja o muito discreto H da Hermès – que são mais sérias e “postas por junto”, mas elegantes – de uma elegância difícil que alguém vulgar não usa.

  2. Qual Catherine Deneuve, qual Laetitia Casta! Ivone Costa é que é! A Chanel partiu favorita mas esta belíssima campanha da Ivone Costa derrotou-a de vez. Louis Vuitton 2 – Chanel 0.

  3. Ivone Costa diz:

    🙂 Merci, cher Diogo.
    ( … aux pays de rêveries, c’est vers les Hermès que mon cour se penche.)

  4. Maria do Céu Brojo diz:

    Conhece quase de certeza as malas e sacos da ‘Tela Bags’. São feitas de materiais reciclados, divertidas, resistentes, baratas, concebidas por ‘designers’ de nomeada e à venda nas lojas de alguns museus. Algumas séries ajudam causas meritórias. As duas que possuo estão incluídas neste particular. Aqui vai o endereço: http://www.telabags.net/

  5. Finalmente alguém aqui escreve sobre coisas sérias. Tenho um post na manga sobre o Oeste/Este de Christian Lacroix e Issey Miyake. Vou ver se trato disso. Muito bom gosto, Ivone (nas malas e nas meninas que as saracoteiam).

    • Ivone Costa diz:

      Vamos lá então, Pedro, é tirar isso da manga. Literalmente.
      (Também tinha qualquer coisa alinhavada sobre as constantes nos guarda-roupas que Eiko Ishioka desenhou para o “Teresa, el cuerpo de Cristo” do Loriga e para o “Bram Stoker’s Dracula” do Coppola mas perdi o fio à meada … acontece-me muito.)

  6. Não perca. A Ishioka é um portento de bondage tecno-medieval. Infelizmente, morreu há um ano (o último trabalho foi o “Mirror, Mirror”, uma coisa péssima com a Julia Roberts; a única coisa que se safava no filme eram os fatos dela). Nada supera os desenhos para o “Dracula”, mas todos os trabalhos para o Tarsem Singh são excepcionais.

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