The best kiss ever

Já vos disse por aqui que não sou grande adepto de happy ends. Não é de espantar, assim, que vos diga também que, se não acabasse em tragédia, o meu filme romântico preferido nunca seria o A Place in the Sun (Um Lugar ao Sol), que George Stevens realizou e produziu em 1951 (o facto de ser a adaptação do romance An American Tragedy, de Theodore Dreiser, diz tudo). Mas não é só por isso que o filme é a minha tragédia romântica por excelência. Se em algum filme, uma cena bastasse para dele fazer uma obra-prima, esta, que aqui vos deixo em baixo, seria a minha eleita. Mérito de George Stevens, que, por incrível que pareça, fez num diálogo que fala a linguagem universal do amor o que nunca nenhum outro realizador se lembrara de fazer (ou que nenhum outro tivera talento, coragem ou determinação suficientes para impor à rígida cartilha do Código Hays). Um até então inédito grande plano filmado acima do ombro. Acima do ombro dele, dela, dos dois abraçados por promessas de amor eterno um ao outro. É certo que ele e ela também fazem, como fizeram, toda a diferença. Ele, Montgomery Clift, é a própria personificação da tragédia (só James Dean lhe disputou esse estatuto em toda a história do cinema). Ela, Elizabeth Taylor, quase que vou jurar, se o Manuel me deixar, que nunca mais foi tão luminosa como nessa cena, nesse filme, que marcou a sua estreia num filme “sério” (antes, só tinha contracenado em “filmes de família”, rodeada de animaizinhos de estimação). A cena acaba com aquele que muitos consideram o mais perfeito beijo que uma câmara captou. Elizabeth, que na altura tinha dezassete anos, viria a confessar mais tarde que o seu first kiss na vida real ocorrera apenas quinze dias antes e que dele rapidamente se esqueceu depois do excitante (o qualificativo é dela, não meu) beijo de Monty. Pois é, dá mesmo vontade de dizer – ou serei eu que estou a ficar velho? – que já não se fazem cenas como esta.

 

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.
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23 respostas a The best kiss ever

  1. Toy Pereira da Silva diz:

    Obrigado Diogo por nos dares estas fantásticas imagens, com 2 GRANDES ACTORES, num b&w imaculado. Planos maravilhosos. Sábias palavras!!

  2. Rita V diz:

    O segredo está no ‘holding back’ …

    • Diogo Leote diz:

      Rita, se sabes o segredo, não mo digas please, que ainda perco o fascínio pela cena.

  3. Isabel diz:

    Já não se fazem cenas destas? Fazem e sim, têm um segredo. Captadas em câmara ou a olho nu, já as vi no National Geographic, a cores, a pb, slow motion, … São raríssimas, perfeitas e eternas. Materializam bem mais que a linguagem universal do amor e dá-me um gozo imenso imaginar que é aqui que o segredo se revela.
    Prefiro dizer que estás a ficar crescido e nunca velho, ou as tuas palavras deixariam de fazer sentido, no mínimo, para o meu aparelho auditivo.

    • Diogo Leote diz:

      Isabel, que sejas muito bem vinda. Estava a falar de amor e como é difícil hoje em dia vê-lo filmado de uma forma que não pareça forçada, artificial ou ridícula mesmo. É este o encanto do cinema clássico americano que se foi perdendo com os tempos.

      • Isabel diz:

        (sorriso) Eu vi o amor de que falas no A Place in the Sun, representado, filmado de forma sublime e justiça seja feita, o cinema
        clássico americano, também deve o seu encanto ao espartilho apertado de Hays, que obrigava a um equilíbrio, uma sensibilidade extrema, para passar entre os seus cordões e realizar cenas como a do teu the best kiss ever – de nos fazer para a respiração.

        (suspiro) De tão intensa quanto suave, esta cena despertou o mamífero que antes de tudo mais sou e fez-me viajar até aqui:

        http://www.imotion.com.br/imagens/data/media/24/11048leoes.jpg

        Percebes que percebi?

        • Diogo Leote diz:

          Oportuníssimo comentário, Isabel: não podes ter mais razão quanto à decisiva importância do Código Hays em muitas das subtilezas e ambiguidades que fizeram o encanto do cinema clássico americano. Aparece sempre por aqui 🙂

  4. curioso (fecha dura) diz:

    pois é… uma desgraçada tentação para ver (espreitar?) as intimidades alheias… voyeurismo não é arte: é uma patologia. mas cons trange sempre explorar estas cenas.

    • Diogo Leote diz:

      Curioso, terá de concordar que cenas como esta do Liz e do Monty fizeram-se para ser vistas pelo mundo inteiro.

      • curioso (in timidade) diz:

        é claro… e no escuro da sala dá para diversas leituras… tal como nas capas de revistas e nas foto-tele-novelas… na vida real dá mais para desviar o olhar e deixá-los ‘em paz’ 😉

  5. Maria do Céu Brojo diz:

    Fazem, fazem, mas na vida real.

  6. Toy, é uma honra ter-te por aqui. Ainda bem que gostaste.

  7. Diogo, estás carregado de razão. A Taylor estava luminosa como nunca mais voltaria a estar. Soberba iluminação (vou já ver quem foi o director de fotografia) e com uma realização hiper-competente do Stevens… Grande beijo e ela beija com vontade…

    • Diogo Leote diz:

      Manuel, para o caso de ainda não o teres feito, já fui confirmar que o director de fotografia era o William Mellor e até levou o Oscar com ele (a par de outros cinco: realização, guarda-roupa, argumento, montagem e banda sonora, sem falar das nomeações para melhor filme e do Monty e da Shelley Winters nos leading roles).

  8. Uma compreensível escolha:) Montgomert Clift teve, de facto, uma aura trágica invulgar e a Liz é a mais maravilhosa de todas as atrizes, sempre. Que saudades deste cinema….

  9. Já agora, Diogo, também sou fã dos filmes, digamos, “tristes”, enfim, nem outra coisa seria melhor para dizer aqui na vossa casa.:) 🙂 Deixo o link:

    http://aefectivamente.blogspot.pt/2012/05/tristemente-belo.html

    (e em cima é Montgomery, claro)

    • Diogo Leote diz:

      Como eu a compreendo, cara AEfetivamente, quanta beleza há em certa tristeza…

      • Isabel diz:

        Sem querer sair do the best kiss ever do Diogo, da saudade do que nunca vivi e sempre senti no cinema clássico americano… É que tanta beleza e tanta tristeza, fizeram saltar para a 1ª fila da plateia da minha memória, uma das mais bonitas e tristes cenas do cinema:

        http://youtu.be/yak_9bmqiRI

        American Beauty Plastic bag scene

        • Diogo Leote diz:

          Isabel, lembro-me muito bem dessa cena, assim como me lembro do que o Eduardo Prado Coelho escreveu sobre a sua beleza numa das suas crónicas diárias no Público. Foi a primeira e única vez, aliás, que vi dissertar sobre um saco de plástico. Poucos, além do EPC, seriam capazes de o fazer sem nos aborrecer.

  10. nanovp diz:

    Pois o difícil é por tudo junto, ela, ele, o beijo, a luz, o diálogo, o plano, o contraplano, a cor, o ritmo…

    • Diogo Leote diz:

      Bernardo, a Liz é tão luminosa, o Monty tão trágico, que até ficamos a achar que o mundo tem mais encanto a preto e branco.

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