The greatest film never made

 

Annex - Costello, Dolores (Magnificent Ambersons, The)_NRFPT_01

Já por aqui vos disse que gosto de coisas que nunca chegaram a ser. Garantem-me (*) que das melhores coisas que nunca chegaram a ser foi o Director’s cut dos Magnificent Ambersons. A coisa conta-se depressa. Welles tinha praticamente acabado a montagem do filme quando, em Fevereiro de 1942, foi enviado para o Rio numa missão vaga: fazer um qualquer projecto susceptível de melhorar as relações entre os EUA e a “América do Sul” (como dizem os meus rapazes, é como a América do Norte, mas no Sul) em tempo de guerra. Deixou 132 minutos de Ambersons nas mão de Robert Wise e Jack Moss que chegaram a completar o filme e a envia-lo a Orson para retoques finais.

Estava o bom do Welles entretido com uma bailarina carioca quando alguém na RKO se lembrou de fazer as contas de Kane. Há sempre alguéns destes quando viramos as costas. Afinal parece que o estúdio tinha perdido dinheiro com o brinquedo de Orson. Ah! E os Ambersons são uma coisa negra e deprimente. Vai daí e pimba. Os 132 minutos de Welles foram abruptamente amputados e passaram a ser 88. “The result is the more painful in that for over an hour it is easy to see what a film Ambersons was going to be: (…) the gratest film ever made”. E a menos que, um dia destes, a cópia enviada por correio para o Rio emerja num sótão brasileiro, estará tudo lixado. Os minutos adicionais foram, deliberadamente, queimados.

Se existir um paraíso, há de estar cheio de coisas que nunca chegaram a ser. Filmes que não foram rodados, livros que não foram escritos, canções que nunca foram gravadas, beijos que nunca chegaram a ser trocados. E no escurinho do cinema lá do sítio, o meu amigo Buddy King Bolden há de estar, de cerveja fresca na mão, a deliciar-se com os Ambersons que Welles sonhou que víssemos.

(*) David Thomson em The Big Screen, the story of the movies and what they did to us

Sobre Pedro Norton

Já vos confessei em tempos que tive a mais feliz de todas as infâncias. E se me disserem que isso não tem nada a ver com tristeza eu digo-vos que estão muito, mas muito, enganados. Sou forrado a nostalgia. Com umas camadas de mau feitio e uma queda para a neurose, concedo. Gosto de mortos, de saudades, de músicas que nunca foram gravadas, de livros desaparecidos e de filmes que poderiam ter sido. E de um bom silêncio de pai para filho. Não me chamem é simpático. Afino.

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5 respostas a The greatest film never made

  1. Acho que era gajo para correr uma maratona se isso me permitisse ver a metragem desaparecida do “The Magnificent Ambersons”. E em boa hora trouxeste a bela lembrança do teu Buddy King Bolden. A propósito de filmes perdidos, vou ali postar uma coisa e já volto.

  2. Pedro Bidarra diz:

    E agora o que é que uma pessoa faz? Fica aqui augado (para usar uma expressão beirã). Este post é como uma mulher que faz olhinhos, insinua-se e depois pira-se. Cock teaser.

  3. Se houver esse paraíso deve estar mais cheio que a Gare du Nord. E o Orson a chefe de estação. Well done, Pierre

  4. Acho que é preciso ter a alma portuguesa para se gostar das coisas que nunca chegaram a ser. Vou tentando, mas “ainda” nem sempre consigo.

  5. nanovp diz:

    Nem o imaginar nos safa…uma porra!

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