Triângulo escaleno?

 

 

Anselm Feuerbach

Anselm Feuerbach

Jane­las, por onde entram e saem sen­ti­men­tos de quem muito sabe e sabe dizer.”

Curioso  (comentador)

Das janelas abertas aos sentimentos, veio história antiga como a parcela d’A Divina Comédia em que Dante encontra Francesca da Ramini. Revela a Dante como ela e Paolo Malatesta atearam a paixão:

“Um dia a ler com ele me deleito,

de Lançarote, o amor como o prendeu,

várias vezes o olhar nos suspendeu

essa leitura e deu pálido aviso;

mas foi um ponto só que nos venceu.

Quando lemos do desejado riso

a ser beijado por tão grande amante,

e este, que de mim seja indiviso,

a boca me beijou, todo anelante

[…] nesse dia não lemos adiante.”

Em cada olhar à pintura de Anselm Feuerbach, vislumbro o marido ofendido encoberto em segundo plano, enquanto Francesca e Paolo se harmonizam na leitura do romance cortês. Nestes, paz e contemplação. Fantasio ira assassina plasmada no rosto do marido desfeito por orgulho clivado pelos amantes. O pintor como alcoviteiro ao indiciar que Paolo não lê mas posiciona os membros na tentativa de prazer outro e mesmo e renovado.

Sobre Maria do Céu Brojo

No tempo das amoras rubras amadurecidas pelo estio, no granito sombreado pelos pinheiros, nuas de flores as giestas, sentada numa penedia, a miúda, em férias, lia. Alegre pelo silêncio e liberdade. No regresso ao abrigo vetusto, tristemente escrevia ou desenhava. Da alma, desbravava as janelas. Algumas faziam-se rogadas ao abrir dos pinchos; essas perseguia. Porque a intrigavam, desistir era verbo que não conjugava. Um toque, outro e muitos no crescer talvez oleassem dobradiças, os pinchos e, mais cedo do que tarde, delas fantasiava as escâncaras onde se debruçaria. Já mulher, das janelas ainda algumas restam com tranca obstinada. E, tristemente, escreve. E desenha e pinta. Nas teclas e nas telas, o óleo do tempo e dos pinceis debita cores improváveis sem que a mulher conjugue o verbo desistir. Respira o colorido das giestas, o aroma dos pinheiros nas letras desenhadas no branco, saboreia amoras colhidas nos silvedos, ilumina-a o brilho da mica encastoada no granito das penedias.
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6 respostas a Triângulo escaleno?

  1. Se há crime, Pantera cor de rosa:

  2. Rita V. diz:

    Sabe o que achei curioso? Anselm Feuerbach nunca pinta as mulheres a olhar para ele. Elas estão quase sempre de lado. Já o auto-retrato …
    😀

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Não pretendo ser «boateira», mas perfis e olhares oblíquos são tão mais fáceis e elucidativos…

  3. curioso (in con gruente) diz:

    as janelas que aqui trouxe têm origem cósmica e põem-nos perante a realidade homem-universo, em todas as dimensões das duas grandezas que se conflituam até ao fim dos tempos.

    lamentavelmente, a cena é do Inferno e tem choro antes e depois:

    E ela a mim: «Nenhuma maior dor
    do que a de recordar tempo feliz
    já na miséria; e o sabe o teu doutor.
    Mas tu, se em conhecer qual a raiz
    primeira deste amor, pões tal afeito,
    di-lo-ei como quem chora em quanto diz.

    ….
    ….
    ….

    Como um espírito isto referisse,
    chorava o outro, e em mim tal pena vi
    que foi qual se a morrer eu me sentisse;
    e como um corpo morto assim caí.

    ———–

    quando o amor é trágico… há nele uma verdadeira incongruência triangular

    obrigado por me ter aqui ex posto 😉

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Obrigado qual quê? _ A frase rendeu-me. De imediato, fui aos meus arquivos na procura de imgem que a ilustrasse. Tive sorte: encontrei. Depois, foi o mais facil – escrever.

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