Um amor que seja leve, a maçã que arde no sub-texto

 

 

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Vic­tor Brau­ner, Adão e Eva, 1923, 70 x 100 cm, ICEM, Tulcea

 

– O que sei vem dos comen­tá­rios apa­nha­dos por aqui e por ali.

– E dos diários?

–Sim, claro, das entra­das meio críp­ti­cas dos diá­rios. Ao que consta, o meu avô arras­tava um namoro de pouco fer­vor com a mais velha, quando a viu no jardim…

– Tu ainda brin­caste no jardim?

– Brin­cá­mos todos. Depois fomos expul­sos, quando desa­ne­xa­ram o logra­douro e aquilo se encheu de andai­mes e de obras. Olha aqui: “… o pai teima em man­ter a casa assim mas o Vasco insiste, é um sor­ve­douro diz ele.”

– Donde se con­clui que os gas­tos com o Paraíso se tor­nam incom­por­tá­veis. Mas e essa mudança da aten­ção amo­rosa do teu avô?

– Maria Eglan­tina, a minha avó Glina, sobrepôs-se à quase noiva e o meu bisavô, achando-se vaga­mente bíblico, em lugar de uma filha lhe deu a outra, por não que­rer que o bom par­tido que vinha acres­cen­tar cabe­dais e vali­mento ao lus­tro do nome ficasse de Jacob à espera.

– “Fidal­guia sem come­do­ria é gaita que não assobia”.

– Isso mesmo e olha que com o casa­mento ainda houve asso­bios para muito anos.

– Lua-de-mel em Paris é o que dizes?

– Março de 1931, no verso desta foto­gra­fia. Lembras-te de te ter dito que eles conhe­ce­ram Vic­tor Brau­ner lá? Ele tinha che­gado da Romé­nia no ano ante­rior. O que eu gosto deste casaco, a gola de marta e o cha­péu clo­che, uma ele­gân­cia de bou­le­vard e lê aqui: “… se me ama­res, que o faças mode­rado, sem que o des­va­rio acenda exces­sos que não quero ou gestos …”

– É pena só ter­mos uns frag­men­tos desse dis­curso amoroso.

– O dis­curso amo­roso, é bom que nos che­gue em frag­men­tos. De con­trá­rio, tal­vez não o con­se­guís­se­mos ler. Sem­pre que volto a isto, sabe-me a uma didác­tica da expres­são ou da leveza. Como se ela lhe ensi­nasse o que que­ria ouvir.

– Por não o que­rer a desagradar-lhe?

“… ama-me como se domas­ses ao colo um leão de impul­sos afi­a­dos, guarda para ti  o excesso, sê-me dis­tante, torna-me sedenta do que ainda tens para dar.”

– Não deixa de ser estra­nho: a tua avó Glina devia ter pouco mundo. Edu­cada aqui …

– Teria, mas sobrava-lhe em ima­gi­na­ção o que lhe fal­tava de vida. A ima­gi­na­ção é para algu­mas mulhe­res uma forma de conhe­ci­mento. Quando põem o pé na rua tudo aquilo é déjà vu.

– Os diá­rios regis­tam quan­tos anos?

– Tenho de vol­tar a ver isso, mas creio que uns vinte. Há entra­das que vêm direc­ta­mente das tri­vi­a­li­da­des quo­ti­di­a­nas, recei­tas, linhas incom­pre­en­sí­veis, pági­nas em branco com uma única frase a meio:  “… o que espero de ti é essa fome adâ­mica no limiar da incons­ci­ên­cia, uma den­tada sem regresso na maçã que arde na estu­dada con­ten­ção de tudo o que te escrevo.”

– Bem, temos de pedir ajuda para levar estas cai­xas. Falta alguma coisa?

– Não, deixa-me só fechar a janela.

– Olha lá: quando ela fala com esse “tu” é sem­pre ao teu avô que se refere?

– Não faço ideia.

Sobre Ivone Mendes da Silva

Entre lobos e anjos me habituei a escrever. É talvez por isso que, para além de asas e de uivos, as palavras me tropecem e não encontrem sozinhas o caminho das folhas. Nessas alturas, peço para elas a bênção da tristeza, musa de sopro persistente, que triste me faz e a acolhedoras mesas me senta.
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14 respostas a Um amor que seja leve, a maçã que arde no sub-texto

  1. jrd diz:

    Humm…Na primeira metade do século XX (presumo), tratamento por tu?!…
    Faz-me lembrar o polido “você” com que somos brindados diariamente em tudo quanto é sítio.
    🙂

  2. Entre as muitas coisas que as personagens da Ivone bem observam, há uma coisa que é, digamos, incontornável: os custos do Paraíso estão incomportáveis.

    • Ivone Costa diz:

      Sempre estiveram, Manuel. Há sempre um momento em que o Paraíso se torna incomportável.

  3. Rita diz:

    o tu era para o Avô ficcionado, talvez coloquialmente o tratamento fosse outro, mais distante.

  4. Maria do Céu Brojo diz:

    Os diários. A escrita íntima. O fascínio de encontrar cadernos do dia-a-dia numa gaveta de casa antiga. Lê-los. O paraíso também pode ser isto.

  5. nanovp diz:

    Então o logradouro cheio de andaimes era afinal o Paraíso…que terá de estar sempre a remodelar-se…

  6. Um paraíso com andaimes e uma Eva provavelmente poliândrica…
    Acho que já estive num sítio parecido, há muitos anos.
    Gostei muito, Ivone.

    • Ivone Costa diz:

      António, como gostei que tivesse gostado … e sim, a poliandria é o mais provável.

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