Uma noite no sótão: com Graham Greene

 

Greene Guiness

Se me dissessem, desmentia, mas em Abril de 1991, na hora da morte de Graham Greene, pediram-me e eu escrevi ou mandaram-me escrever e eu obedeci, sobre uma faceta menos conhecida de Graham Greene, a de crítico de cinema. As suas livres e veementes prosas foram reunidas num livro,  “The Pleasure Dome”, e nessa altura , para mim, escrever sobre um livro ou um escritor era uma linda maneira de fugir da gaveta (que me assombrava) de crítico de cinema.

plaeasure dome

Graham Greene – Na Mansão do Prazer

Fugir, escreveu ele. Graham Greene fugia muito. Cada fuga, hora e meia, e o abrigo era sempre o mesmo. Mansão de prazer, chamava-lhe; todos os cinemas de Londres, corrijo agora. Em quatro anos e meio, entre 1935 e 1940, os registos contam cerca de 400 fugas.

O «registo» é, preferencialmente, o «Spectator», a revista onde Graham Greene publicou as recensões desses filmes para onde fugia dos tormentos infernais por que passava quando tinha que dar vida ao personagem secundário de um romance, ou quando queria chegar à boa conclusão de um capítulo. Era, como escreveu no prefácio de “Pleasure Dome”, livro que reúne esses seus textos, «a fuga por hora e meia à melancolia que inexoravelmente tomba à volta do romancista quando ele viveu meses demais no seu mundo privado».

Graham Greene descobriu-se crítico de cinema quase por acaso. «Depois do perigoso terceiro Martini», se quisermos acreditar na sua versão. Nessa altura, Greene achou-se capaz de preencher o que considerava uma lacuna do «Spectator», a falta de tratamento do cinema.

Mas Greene já tinha culpas anteriores no cartório. Em Oxford, constituíra-se crítico de cinema do «Oxford Outlook», uma revista literária de que ele mesmo era o editor. A essa conspícua actividade deve somar-se a sua veneração por uma publicação tão elitista quanto fascinante, a saber, a revista «Close Up», que Kenneth Macpherson editava a partir do seu château na Suíça. (Dessa revista rara, a Cinemateca possui uma colecção preciosa na sua Biblioteca; e de Kenneth Macpherson foi já exibido, também na Cinemateca, “Borderline”, um filme singular na sua relação com as vanguardas artísticas do final dos anos 20).

Era exactamente aos anos 20 que Greene devia a formação do seu gosto cinematográfico. Não admira que os seus textos tenham começado por reflectir um vincado preconceito contra a utilização do som, a que sucedeu, mais tarde, o preconceito contra a cor — a mesma linha de «reacção humanista» à introdução de novas tecnologias no campo artístico pode hoje observar-se nas terríveis batalhas contra o audiovisual propostas pelas Vestais de um pretenso cinema puro.

Da actividade crítica de Graham Greene o que mais apetece guardar é a sua feroz ironia — que lhe valeria, de resto, pesada pena fiduciária no «caso Shirley Temple», que adiante se relata. Digna de registo é, também, a tendência para as digressões na primeira pessoa, que, por vezes, ganhavam um carácter autónomo relativamente ao filme comentado. Uma das mais saborosas, por se ligar às convicções religiosas de Greene, talvez seja a que subscreveu na crítica a “The Garden of Allah”, filme em que o renegado monge trapista que é Charles Boyer renúncia ao amor de Marlene Dietrich para regressar ao mosteiro.

A cena de despedida suscitou-lhe este comentário: «Alas! minha pobre Igreja, tão pitoresca, tão nobre, tão sobre-humanamente piedosa, tão intensamente dramática. De facto, prefiro a versão do ‘News Statesman’, padres mesquinhos a contar pesetas pelos dedos, em cafés encardidos, antes da acção de graças.»

Da sua feroz ironia, a melhor prova é o caso Shirley Temple. Em Agosto de 1936, Greene, comentando “Captain January”, de David Butler, espetara a primeira farpa. Primeiro começava por reconhecer à pequenina menina-prodígio um imenso vigor e segurança, tanto na representação como na dança. Acrescentava a seguir que, no entanto, a «sua popularidade parecia residir numa coqueterie tão madura como a de Claudette Colbert e num corpo, peculiarmente precoce, tão voluptuoso nas suas calças de flanela cinzenta como o de Marlene Dietrich». Um ano depois, e desta vez na revista «Night and Day», Greene escreveu sobre “Wee Willie Winkie“, um filme de Ford que Shirley protagonizava. Semeou ventos e colheu a tempestade que uma legião de advogados, a 20th Century Fox e a própria Shirley Temple, lhe fizeram cair em cima. Na opinião dos juízes que julgaram o caso, a crítica de Greene era «um dos mais horrendos libelos que alguém poderia imaginar». Por causa dessa «beastly publication» (a opinião é ainda dos juízes e dá em português a colorida expressão «texto animalesco»), Greene e a «Night and Day» tiveram de pagar pesadas multas à companhia e à actriz. O texto foi interdito e, por essa razão, não consta da recolha das críticas do escritor, nem pode ser citado na Imprensa inglesa.

Do conjunto das críticas que publicou entre 1935 e 1940, podem compulsar-se algumas ideias recorrentes sobre o que Greene entendia dever ser o cinema. E, segundo ele, devia antes de mais ser uma arte de massas, dando às pessoas o mesmo que o teatro isabelino lhes dera no passado, «as tragédias violentas e universais que elas compreendem».

Defensor de um «cinema poético», Greene sempre entendeu o realismo como premissa indispensável desse cinema. Na crítica aos “Tempos Modernos“, de Charlie Chaplin, torna claro o alcance que atribuía aos conceitos de «poesia» e de «realidade»: «Chaplin tem, como Conrad, algumas `pequeninas ideias simples’ que podem ser expressas pelos mesmos termos — coragem, lealdade, trabalho — contra o mesmo fundo niilista de sofrimento sem finalidade. `Mistah Kurtz — he dead’. Essas ideias não são suficientes para um reformador, mas provaram ser amplamente suficientes para um artista.»

Raramente reconheceu a Hollywood aquilo que reconheceu a Chaplin, quase sempre se queixando que o cinema americano tinha tendência para envolver a realidade em celofane, sem esse «sentido adulto» da arte que dizia entrever na “Kermesse Héroique” do francês Jacques Feyder. Mesmo assim, sublinhou bem as qualidades de John Ford (chamando-lhe «um dos melhores realizadores deste tempo», logo que viu “Stagecoach” e “Young Mr. Lincoln“), de Frank Capra (não sem separar o trigo de “Mr. Deeds Goes to Town” e “Mr. Smith Goes to Washington” do joio que o desiludia em “Lost Horizon“). Como soube ver e sublinhar que alguns dos génios alemães, convidados para Hollywood nos anos 30, tinham afinal beneficiado com as condições que os grandes estúdios colocaram à sua disposição, caso de Ernst Lubitsch e de Fritz Lang, cujo “Fury” saudou, em 1936, afirmando ser «o único filme ao qual quereria associar o epíteto `grande’».

Entre os seus ódios de estimação conta-se grande parte dos filmes ingleses de Hitchcock — exactamente por causa do seu «inadequado sentido da realidade». Foi, aliás, o seu ataque sistemático a algum cinema inglês, e em particular às produções de Alexander Korda, que esteve na origem da sua passagem de crítico a argumentista. Korda, intrigado com as cerradas críticas, quase sempre insistindo nas fraquezas de construção das personagens ou do argumento, acabou por convidá-lo a fazer o que ele dizia que os outros não faziam. No balanço que fez da sua actividade como crítico cinematográfico, Greene confessou que um dos seus poucos motivos de arrependimento era, justamente, o de não ter considerado, por desconhecimento, quanto é que um realizador e um argumentista podem sofrer nas mãos de um produtor. Mas essa é já uma outra história, a das suas relações menos pacíficas e às vezes tumultuosas com os produtores.

Apesar de mais importante no corpo da sua obra, talvez a actividade de argumentista nunca lhe tenha provocado uma declaração tão nostálgica como esta, que a sua memória de espectador e crítico lhe ditou: «Chorei pelos filmes mudos quando os sonoros apareceram e chorei pelo preto e branco quando o Technicolor veio lavar os ecrãs. Hoje, vendo o último filme sério e socialmente consistente de Monsieur Godard, tenho saudades desses desaparecidos anos 30, tenho saudades de Cecil B. De Mille e dos seus Cruzados, tenho saudades dos dias em que quase tudo podia acontecer.»

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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9 respostas a Uma noite no sótão: com Graham Greene

  1. Este texto tem 22 anos, Manuel Fonseca. Não envelheceu um dia. E isso é do melhor que se pode dizer de um texto. Não era fácil, então, e continua a não ser, saber, e saber dizer, sem exibir secantes academismos de cartilha.

    Já sei que a sua falsa modéstia vai empurrar isto para os méritos do GG. Non. Ainda que ele tenha alguns e bons – sendo o melhor deles a expressão do pecado, do prazer, da culpa e da expiação bem ligados com só num católico. Ámen.

  2. nanovp diz:

    E eu a pensar que o homem só tinha escrito romances…realmente foi uma “Era”, em que o pior era um Capra ou um Hitchcock…

  3. Teresa Font diz:

    Manuel faço minhas as palavras da Eugénia (e a esse abuso já está ela habituada, se chegou a dar por isso).

    Gostei tanto do seu texto-e já sabia que ia gostar, até adiei a leitura como se guardam alguns prazeres para viver a antecipação – como do que fiquei a saber, eu que presumia conhecer muitas habilidades de mr Greene.

    E lá vou exibir sapiências, mas não. É que essa sorte que o Manuel diz ter a sua geração tido, eu, que talvez seja levemente de outra geração, também a tive. E quando como agora me acontece mais do que gostaria, sair de uma sala de cinema desiludida com o filme, penso:
    ” Graham Greene, Carol Reed, Orson Welles, Joseph Cotten, Alida Valli, Trevor Howard e até – como lhe chama Greene no prefácio da novela que escreveu para depois adaptar, “The Third Man”, o prefácio que é a melhor aula de ‘escrita cinematográfica’ que já tive – o ‘tocador de cítara’, Anton Karas. Quando é que se junta outra vez um grupo assim? É de agradecer que tenham chegado a encontrar-se”
    Que sorte a nossa realmente.

  4. É tão bom o Terceiro Homem, Teresa. As vozes do Cotten e do Welles transformam diálogos e narrativa em música. Obrigado pela generosa apreciação ao meu velho texto.

  5. Maria do Céu Brojo diz:

    Ai que gentes foi lembrar! Devorei o texto com o cuidado de não se notar e deixá-lo para os demais. Nem de propósito, ontem revi “O Homem que Sabia Demais”. Acredita, que me deixou ‘amargo de boca’? Logo a mim que venerava Hit­ch­cock. De tal modo, que em vez dos três filmes costumados fiquei-me por aquele.

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