Uma noite no sótão: com Sarita Montiel

 

Sarita

As coisas que aqui escrevo, escrevi-as para o “Expresso” a 21 de Março de 92. Sara Montiel viera a Lisboa, à Cinemateca, para uma homenagem que, sem querer abusar da subjectividade, redescobriu a criança que ainda se escondia no peito do João Bénard, do Manuel Cintra Ferreira e, confesso, no meu. Deles não sei, mas eu vira Sarita em escuras matinés e em acaloradas soirées. Ver Sarita num clima temperado já é mau. Tê-la visto no capacete de humidade dos trópicos desregula os nervos. Eu era uma criança e mal sabia o que era um decote.  

-sara-montiel

Corpo, Decote e Voz

Tinha truques. Na Cinemateca, numa das maiores apoteoses com que o público de Lisboa brindou uma estrela convidada, Sara Montiel, 64 anos, muito pouco vestida, e toda em rosa, num estilo que Almodóvar copia em «mui-to-po-bre», contou um dos seus truques favoritos. Filmava com Gary Coper. A cena era iluminada por um gigantesco projector de arco. Os olhos de Cooper eram só um traço, incapazes de se abrirem, tão violenta era a luz. Sara, pelo contrário, lá estava de olho arregalado. Cooper quis saber como é que ela conseguia. «Tenho um truque», disse ela. «Diz-me qual é», pediu-lhe o galã. «Não é de dizer, é de fazer», explicou ela, levando-o para um canto. Puxou de um frasquinho e deitou umas gotas em cada um dos olhos de Gary Cooper. «Anestésico», segredou Sarita a um Cooper que, durante quatro horas, passou a ter faróis em lugar de olhos.

A carreira de Sara Montiel deve-se começar a ver pelo meio. Os primeiros anos foram anos de chover no molhado, filmando para poder continuar a levar o pão à boca. De Ti Quiero Para Mi (1944), estreia aos 16 anos de idade, até Pequñeces (1950), nem ela pareceu interessar a câmara, nem os espectadores viram nela, e no que dela se podia ver, motivos para sobressalto.

Essa primeira fase espanhola já estaria esquecida e enterrada, se o caso de popularidade de Sarita não tivesse explodido, inopinadamente, na fase que se iniciou com El Ultimo Cuplé. Maltratada e mal paga, Sarita Montiel deixou, em 1950, a ingrata, espúria e mesquinha Espanha, procurando emprego e papéis mais adequados no então florescente cinema mexicano. Começou com Necessito Dinero e acabou com Yo no Creo en los Hombres, passando por Cárcel de Mujeres, títulos suficientemente sugestivos para descrever o tipo de ficção populista e as personagens primárias que incarnou.

Foi por esses anos, de 50 a 54, que a sua presença começou a ganhar na tela parte das qualidades eróticas que seriam trampolim para a fama ibérica e latino-americana, qualidades que viria a exercitar em Hollywood, primeiro no famoso Vera Cruz, de Robert Aldrich, ao lado de Burt Lancaster e Gary Cooper, e logo a seguir em Serenade, de Anthony Mann (com quem se casou), e em Run of The Arrow, de Samuel Fuller. O sol da Califórnia foi, todavia, de pouca dura.

Em Espanha lembraram-se, então, dela, convidando-a, em 1957, para um filme que ninguém queria fazer e muito menos alguém queria pagar. O que ninguém adivinhava é que a carreira de Sarita Montiel estava, nesse momento, naquele ponto exacto onde repousa toda a virtude, a meio. E ainda menos se poderia adivinhar que esse filme, El Último Cuplé, parecendo ser durante a rodagem quase uma humilhação para quem o fazia, se iria converter no maior sucesso popular do cinema espanhol, obrigando a apreciar a nova luz tudo o que Sarita tinha feito para trás e, sobretudo, criando expectativas para tudo o que a actriz iria fazer daí em diante.

Cara, decote e voz foram os três vértices do sucesso de Sarita, por obra e graça de El Ultimo Cuplé, convertida em avatar do erotismo ibero-americano, para uso de quarentões a cauterizar casamentos no mínimo enfadonhos. La Violetera, Carmen la de Ronda, Mi Ultimo Tango e La Reina del Chantecler tornaram-na, no final dos anos 50 e no começo da década de 60, objecto de devoção e de peregrinação das classes mais desfavorecidas, nas tintas para os dramas ideológicos ou de acção social que a sociedade espanhola politizada vivia. Agora, neste começo dos anos 90, seja como fenómeno «camp», seja por recuperação cinéfila, mais ou menos historicista, Sara, a bela Sara, voltou a despertar as velhas «loucuras de amor». «Esa mujer»!


Neste filme descobri duas coisas: a luta de classes em versão ibérica e a forma como uma língua pode visivelmente mover-se dentro de uma boca.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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12 respostas a Uma noite no sótão: com Sarita Montiel

  1. Henrique Monteiro diz:

    Ah Sarita, my prima querida.
    Como aves precursoras de primavera, en Madrid aparecen las violeteras que pregnonando… És muito descarado!

  2. CeC diz:

    Sinto-me na obrigação de pedir desculpa; é que fiquei de tal forma “anestesiado” – e a culpa não coube às gotas – pelo dec… pela foto inicial, digo, que o resto do texto foi de alguma forma menosprezado. Mea culpa….

  3. Queria falar do texto, Manuel Fonseca, mas esta sua perversidade palatal, confesso, pasmou-me. E não venha cá dizer-me que a culpa é da beleza da Sarita e lailailai dos trópicos. Pelos deuses, isto é um blogue de família!

  4. Ivone Costa diz:

    Manuel, tenho alguma dificuldade em imaginá-lo Manuelzinho ainda a mal saber o que era um decote … deve ter sido durante a muito primeira infância …

    • Ivone, também a menina? Dou-lhe um exemplo, mesmo hoje, ainda hoje, mal percebo, se é que percebo, onde é que está o decote na fotografia de Mme Montiel que encabeça este post… Há mais inocência em mim do que aquilo que sugerem as vãs vozes de muita filosofia.

  5. Maria do Céu Brojo diz:

    Estou com a Ivone. A mesmíssima dificuldade tenho eu.

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